Aprendi a ler na Bíblia Sagrada do Velho Testamento, que me inflava os primeiros imaginários; alguém matava alguém morria. Fiquei um tempo de décadas escondido, mergulhado no anonimato servil dos trabalhadores, mas nunca parava de soletrar tudo que via de escrito, tentando pegar um além. Dez anos de prisão e as amizades bandidas me ressuscitaram. Arquitetei um plano de quando saísse nunca mais voltar; já que uma parte dos meus amigos do crime sempre voltavam. Voltam ou têm que permanecer escondidos ou fugidos, nunca livres no público do visível; na liberdade total, se assim se pode dizer. Meu imaginário, que todo mundo possui um mas quase nunca liberto, estava secreto escondido e logo começou a borbulhar de criações. Iniciei me contando num ontem que fui e não era mais eu. E fiquei a atirar fora do crime, pelo papel mesmo. Usando as mãos e os dedos como todo mundo, porém na ação só do pensamento. A escrever, a contar o que não sabíamos; ou se sabíamos, com medo da ordem e seu aguilhão fatal o escondíamos. Então, cada vez mais visível coloquei-me ao ataque, ao ataque de só escrever. Tenho um arsenal particular de munições científicas e literárias de muita luz: os livros, a biblioteca. Mais do que só dizer, alguém tinha e tem que fuzilar, desnudar ao máximo o silenciado, o escondido. Um escondido até por vezes compartilhado pelo povo, que a meia boca o diz. Como as mortes de Celso Daniel e Marielle Franco*; aquele morto pelo Partido dos Trabalhadores P.T., e esta por uma ordem saída da Câmara dos Vereadores, aonde ela política exercia uma vereança; são segredos compartilhados pelo povo. Voltando a mim mesmo talvez antes que também morra. Ao sair da prisão para nunca mais voltar como já disse, abandonei as armas convencionais, metralhas, fuzis e pistolas; agora só nas letras focando e gritando o não-dito, aquilo que não poderia ser contado, alguma verdade, alguma mentira.

Notas:

Celso A. Daniel: prefeito da Cidade de Santo André, Brasil; assassinado em 18/01/2002.

Marielle Franco: Marielle Francisco da Silva, vereadora na Cidade do Rio de Janeiro, assassinada na noite de 14/03/2018 nesta mesma cidade.

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