Quando me perguntam: por que estamos assim? Por que ficamos assim? Nestes escritos, talvez muito distante, eu tento responder.

Ainda eu criança e descalço no morro, bastava um polícia para pegar alguém. Mas eu amedrontado já o via inimigo, como grande inimigo. Meu pequeno corpo se retraía, conforme já num combate. Não existia a frase e pensamento de matar polícia, embora por então em embrionário inconsciente. As coisas foram mudando; quer dizer, enrijecendo em durezas de ódio. O que antes só havia no secreto de cada um veio crescendo, crescendo e jorrado para fora em palavras, até surgirem os primeiros gestos de reação, de defesa e depois de ataque. Talvez hoje nem se saiba, nem se lembre, quando foi o primeiro polícia que morreu, aliás foi morto num confronto. Também, o de tanto que já aconteceu e acontece cada vez mais, nem importa lembrar, muito menos saber quem começou a fila, quem primeiro tombou das fardas inimigas. Suas mortes nem dão mais manchetes, por vezes nem notícias. Não interessa mais, virou rotina banal de guerra. E se monta em preparo um novo gesto.

Na política brasileira sempre se roubou. Antes talvez fosse só um tiquinho em relação ao de hoje. Ou então nossa ingenuidade de povo estava mais ingênua. A esperança ainda maior barrava a constatação da realidade, da realidade dos roubos. Também nesse caso, como no dos polícias que morrem, ninguém sabe quem começou; que entendemos ser impossível. Administrar verbas públicas é também roubá-las; são gestos gêmeos, talvez siameses. No atual tornou-se há muito tempo coisa natural político roubar. Porém aos poucos um novo pensamento se cresce, numa constatação de reação até pôr-se a um início. Então, assim como até agora só votamos neles, embora já há muito insatisfeitos e revoltados, por algumas cabeças e certamente muitas, sentimos outra coisa que só votar. Matar também os políticos ladrões, que são muitos, a maioria, cresce no Espírito brasileiro feito uma onda quem sabe gigante. Até um deles primeiro tombar mortal; e uma fila, outra fila, então se inaugurará, estará formada como a dos polícias.

Lendo este texto ainda em rascunho, um parceiro me segredou o sonho, de não morrer sem antes ver um político ladrão morto pelas mãos de alguém do povo.

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