
Dedicado a mim mesmo e aos meus amigos do crime.
Consideramos o adjetivo favelado o mais denegridor e aviltante que a cidade possui. No entanto a mais rica e numerosa força de trabalho, sai diariamente da fonte chamada de favela. Passamos a dizer algumas particularidades dessa força de trabalho que observamos. O grande, médio e pequeno comércio, além de todo o campo de serviços gerais da cidade, são sustentados, mantidos vivos, pelos braços e mãos que descem e sobem o morro diariamente; e dos que vêm em empreitadas sofredoras de locomoção das periferias distantes. Talvez até estes últimos, os periféricos, favelados duas vezes. Uma pela miséria contínua, e a outra pela enormidade da distância, conjugada com a tortura e o cansaço do infernal transporte público, mais o ir e vir obrigatórios diários. No entanto, frisamos bem aqui, é na favela aonde a polícia e todas as outras forças do poder preferencialmente mais atacam. Só atacam. Sendo assim o lugar aonde mais eles matam gente. O lugar aonde os tiros são sempre certeiros, morra quem morrer, e sempre também impunes pela nossa justiça de Estado. Quem age e mata favelado está sob a ordem e cumprimento da lei. Cria-se a ilusão de quem morre é sempre suspeito, e sendo assim bandido, valendo já a suspeição como condenação imediata à pena capital, pelos tiros da arma policial à frente. Não importando sua história de vida, ( nesse pé favelado tem história? Pergunto eu ), não contando sua parentela e vizinhanças, enfim toda a comunidade vivente. Lá não passa de uma favela, no escrito oficial do costume brasileiro juramentado. Assim, altamente suspeitos todos os favelados para a polícia, no entanto são eles a mão de obra mais confiável e trabalhadora do asfalto, quer dizer da parte urbanizada e cidadã da cidade. Nisto tudo com destaque os nordestinos e nortistas, estes tendo no pódium como os melhores os cearenses. Porém, no universo mental e social do favelado, habita e circula intenso que toda melhoria na cidade, esta propagandeada em altos brados, é uma melhoria imediata e concreta na vida favelada. Esta estratégia, de grande engodo, mantém apaziguados, assim serenos, esperançosos e sem perigo, os ricos bolsões de força de trabalho que a favela possui e fornece; origem das riquezas sem fim das elites dominantes. Separar o bandido do trabalhador, como sempre mentirosos as mídias e os poderes tentam fazer, é buscar esconder que ambos vêm e são de uma única fonte: a favela. A diferença está e é que uns são submissos e dóceis, entenda-se domesticados, os trabalhadores; e os outros como eu e todos os demais, insubmissos, agressivos e perigosos, os bandidos. Aumentar a miséria favelada, quer dizer o número de favelas, mantém e cria mais sofrimento e submissão, estes o filão de ouro origem das riquezas. Assim também como convencer mentindo cada vez mais, como já foi dito, que a mínima benesse nos palácios distantes, produz mais água no morro e menos mortes; ou seja, algum benefício.



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