
Pequenas multidões mas cada vez mais numerosas aparecem localizadas no Centro do Rio de Janeiro. Aguardam famintas o que eles moradores de rua chamam de carreata; carros com os porta-malas cheios de quentinhas com almoço ou janta para suas bocas. A fome está cada vez mais aumentando, ou seja os sem comida. Uma noite de inspiração, vendo uma das tais carreatas em frente à Igreja da Candelária, esperei paciente a minha vez e pedi também uma quentinha. Antes, por timidez ou ética, fiquei meio temeroso imaginando talvez que as mãos da distribuição me negassem uma porção de sopa, o cardápio daquela noite. E eu tinha motivos para isso, pois meu corpo nutrido e asseado, com roupas limpas e quase belas, poderiam ser um empecilho, mas não foram. Dadivosas, duas mãos me deram o que todo estômago faminto espera. Depois de mergulhar duas ou três vezes a concha num panelão fumegante, puseram-me à mão cheirosa porção de sopa. Era uma comida bem feita, quer dizer bem temperada, com legumes e carne suculenta. Meu estômago se refestelou e se alegrou em festa. Tudo não passou de duas provas numa só: queríamos saber como alimentavam e assim tratavam os já miseráveis, assim como se as comidas eram melhores ou conseguiam ser piores das que nos empurram nas prisões.
Como já dito antes, era uma suculenta sopa. Mais, havia nela boa dose invisível mas bem sentida, de que alimentavam pessoas, humanos; sendo isto, este calor no gesto um outro e mais alimento. Num contrário extremo do que fomos e somos condicionados nas prisões brasileiras. Aonde tudo vem no bolo malicioso e infernal de que são para condenados bandidos. Não somos pessoas. Saí de lá, das prisões, em duros, desconfortáveis e dolorosos desarranjos intestinais, como já informado em outro lugar. Há muito veneno naquilo, principalmente no feijão, me esclareceu um médico gastro*. Então, a comida nas prisões é uma grande tortura na qual vamos forçosamente suportando; em que mesmo como eu, depois já de dez anos em liberdade, meus desarranjos nas tripas me apertam, como uma tornozeleira intestina e eterna, de que sou um ex-presidiário.
Uma crítica: o amor dadivoso das carreatas alimenta-se dos estômagos vazios que, submissos as esperam.
Nota: gastroenterologista.



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