Falamos e escrevemos com o objetivo de tiros mortais contra o inimigo. Antes, bem antes de entrar para o crime, eu já estava nele, embora ainda sem talvez saber atirar. Todas as falas legais ou da lei descrevendo o interior das carceragens, sabíamos que mentiam. Isto por um simples fato, quem fala só de fora não sabe o de dentro. A verdade troiana produzida pelos gregos. Fui de encontro então, ao viver entre celas e alas, às tentativas de falas dos que lá estavam. Então eu tinha que ser eles, como eles, também um deles, bandido pleno, pois também eu necessitava falar; só não sabia como, sem a submissão e cópia dos donos da língua. Nossa letra bandida ainda peca por sua tez, forma e conteúdo, dita intelectual. Mas qualquer um, bandido e favelado, também não pode pensar? Ter um intelecto seu? A pergunta tem pulos de fuga. Pensar sob a ordem do outro não me convém.

A burguesia ainda ascendente, esta que agora aí está, ao se apossar do mundo fez talvez o principal: tomou para si linguagem e pensamento, significantes e significados; e mais, toda forma futura de projetar futuros. Posse dinâmica, em constante apoderar-se, de passados, presentes e futuros. Boca, cabeça e fala da burguesia. Mas a nossa fala não vai assim tão longe, não precisa ir tão longe; ela sussurra, balbucia, entre nós mesmos, presos e carceragens. Estamos caminhando, e já falando, na consciência de que usamos formas e conteúdos da língua imposta, mascarada plena de que é originalmente nossa, e nunca boca e pensamento do outro, que como já dissemos antes vem de cima. Fala e poder; fala é poder. Poder de comunicar, que aparente tão simples não é. Pois cada um de nós lidamos diários de que nos põem mudos mas verdadeiros falantes. É desse ou nesse paradoxo falso que desejamos sempre falar. Corra, corra muito menino corra, para nunca sair do lugar. Então assim o menino não corre, nem se movimenta. Talvez tudo isso não passe ainda de um querer pular a muralha.

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