Entries by Abel Matos

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Declaração Atenagórica

Produzimos um número de crônicas com um fundo comum. Ao nos vivenciarmos pelo mundo, ruas e lugares com pessoas, ouvimos e percebemos maneiras e mais maneiras de pensamentos e visões do real imediato ou do mais profundo. Vivemos momentos históricos de muitas mortes, violências de todas as formas e grandes medos. Estes últimos causas e […]

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O Crime na Religião

“A Bíblia pode ser o álibi do crime, às vezes perfeito.” Perguntaram-me se nas prisões, as religiões que por hora pululam aqui na liberdade transformam vidas por lá. Minha lentidão natural não soube responder, o que faço agora. Havemos de notar, que pelas últimas três ou quatro décadas o número de igrejas mais do que […]

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Banquete do Povão

“Laranja no campo! Laranja no campo!” A última vogal da frase repetida em alta e longa chamação; sempre na voz Ieié em boca de poder no quintal. À ordem do grito almuadem* nossas pernas corriam. Antes, o alerta da espera nos comunhava. E uma ou duas vezes ao mês o caminhão despejava. Correndo em festa, […]

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As Prisões da Liberdade ( em uso corrente dentro das cadeias )

Nos sentimos livres quando estamos mais presos. Aos inícios, qualquer um de nós que lecionávamos, vínhamos antes cheios de medos ao horror e separações. Trazíamos sem saber nossos próprios grilhões, que as ordens das portarias e secretarias só reforçavam. Até porque antes, nenhum, mas nenhum mesmo,  podíamos entrar livre. À ordem nossos horrores e repulsas […]

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Razão e Delinquência

Aos penitenciários, amigos meus. Quando entrei eu sabia dos cuidados. Antes porém com o desconhecido que poderia e estava fora e não dentro. Pois que todos de lá, sem erro de marcação já se encontravam individualizados, rotulados, carimbados por uma marca de vida. A imposição das grades diante dos olhos e entre mim e eles, […]

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O Eu Bandido e os Outros Eus

Professor eu bandeava meus eus pelas duas ordens rivais nas grades de Gericinó. Cadeia é lugar de limites; onde o legal e o ilegal se encontram, por vezes se encaram, se lutam. Lá então professor eu tendo que me dizer por duas porções de discurso, duas falas distintas, dois pensamentos. Ambos sempre prontos a agir […]

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De Crimes e de Amores

Nunca beijei meu pai. Pois a ordem da igreja dizia não. Meu filho aos doze rejeitou já com ojeriza machista meu colo. Eu quis beijar outro homem. A moral religiosa mostrou-me o inferno no corpo e na alma; jamais se podia pecar. Aos quase cem anos, o corpo cansado já perto da morte de papai […]

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Movimentos Internos

Nos corredores e cubículos do III eles sabiam ler. Mas um ler que me abalava; bem fora do eixo professor-aluno que até então meu parco de diploma e de saber lidara. Deciframento com um fugir de liberdade, em sabores de constantes e de prazeres. Olhos que viam. Muito para além da cegueira escolar ensinada. Antes […]

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As Bocas da Lei

Não tenho frase de início, ao furo mortal de olhares; jorro, sangue, compreensão. Na cadeia eu ensinava aos meus amigos, fazendo um círculo gigante no quadro-negro e outro miúdo por dentro. O grande, eu lhes dizia, é a violência toda, e o miúdo a do crime penitenciário, juridicamente enquadrado. Com esta explicação eu tentava, e […]