“O Português é a Língua mais difícil”. Máxima da tirania, ouvida de muitas bocas.

E deu-se assim que precisávamos falar, dizer mais que o incontido e o aprisionado por aquelas e por nossas grades. Mas não sabíamos ainda como fazê-lo, como dizê-lo. O medo e os receios da separação impunham e impõem todas as comunicações possíveis. Eles seriam bandidos e nós não. Porém tudo de grade estava e está bem mais longe, mais profundo, nas cordas das nossas gargantas e nos interstícios e mundos das nossas cabeças. Falar não é um ato livre.

Se soubessem que eu ouvia um preso, o que poderiam dizer. A noção do legal e do ilegal, do Bem e do Mal, já oblitera tudo, repetindo. Como antes, pelos sinais educativos injetam medos e cortes de ação às nossas almas. As bocas sempre querem falar. E dizer o sentido está subordinado para sempre aos modos, formas e fôrmas da gramática certinha. Não temos então pensamentos. Alguém sempre que nunca sei, que jamais irei conhecer, pelos livros escolares ou não me diz toda a forma da Língua. Que ao não ser minha também não sou eu. O murmúrio, as ladainhas, os dizeres e frases desencontrados, sem a gramática culta de cima, das gentes miúdas e do povo e boca geral não podem jamais serem ouvidas; um outro discurso que nunca vale, que nunca é. Eis mais do que um drama, o massacre perpétuo de vozes pela ordem gramatical imposta. Em lei castrante de que toda criança faladeira vai à escola aprender a Língua que já fala. Nisso haverá uma luta de vida inteira, entre o sentido e o estar ou ser proibido, formando sempre um impronunciado desprazeroso, matante, matador. Minha garganta quase nunca me fala. Quando muito só quase em escorregos gramaticais, logo ditos e tidos agressões ou mortes ao douto que não sou eu. Tenho sempre um pensamento que me aguarda, querendo livre sair, ser posto à frase, ao mundo. O tamanho inalcansável da Língua se propõe ela infinita a fazê-lo, a pronunciar-me como sou, como estou. Porém vivo num canhestro interdito da linguagem, sem alcançar-me.

Aprendi nas escolas artigos e substantivos. Isto depois daquilo. No entremeio agora. Concordâncias e discordâncias, sem um escorrego ou outra criação que fosse, porque jamais se podia e se pode ser. Se pode ter ou fazer. Falar bem significa isso e jamais aquilo. Conviva e negue tudo que você já traz, o que aprendeu, balbucia e é você mesmo; só que dito analfabeto e burro. O povo não sabe falar. E se não sabe falar não sabe jamais pensar; dentro da ordem de que não pode. Ao se impor a Língua de cima em normas gramaticais certinhas, impõe-se o mundo de como pensar; do que se pode pensar. Então ao não me falar, sou morto em mim mesmo por minha própria garganta. Na luta de tentar dizer-me mas nunca dizer, por jamais conseguir.

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *