“A Bíblia pode ser o álibi do crime, às vezes perfeito.”

Perguntaram-me se nas prisões, as religiões que por hora pululam aqui na liberdade transformam vidas por lá. Minha lentidão natural não soube responder, o que faço agora. Havemos de notar, que pelas últimas três ou quatro décadas o número de igrejas mais do que cresceu, se intensificou, principalmente nas periferias. Lugares onde justamente os tiros, as mortes, enfim as violências também cresceram e se intensificaram como os santuários. Assim, logo se conclui que o aumento em número das igrejas, templos e locais de adoração, não significou o mesmo em religiosidade. Em nossa hipótese a religiosidade até caiu. Antes porque, para ser líder religioso ou pastor havia um mínimo nível de saber, fé pública e formação, que foram decrescendo e em alguns espaços e pessoas até desapareceram. Ser um condutor ou guia espiritual se vulgarizou. Depois, porque o conceito de pastor, líder ou bispo se agregaram ao de bandido. Ou seja, uma delinquência invadiu o sagrado. Valendo esclarecer aqui, que o pastor-bandido – melhor, religioso-bandido – é um outro bandido bem diferente do bandido da cadeia, porque religiosamente mascarado e quase sempre protegido, acobertado, pela legalidade e pela própria religião. Enquanto o outro, leia-se outros, relacionados à prisão, tráfico e assaltos, não. Estes últimos sim, são verdadeiramente só bandidos. Além de que, o próprio espaço religioso mudou. Hoje, qualquer portinha pode ser e é uma igreja. Havendo mudança de local conforme interesses materiais. Como ainda, a conjugação de igreja com outros negócios. Ou seja, numa mesma loja em certo horário ora-se e canta-se, é templo; noutro come-se e bebe-se, é restaurante.

As igrejas aumentaram; e o que cresceu com elas foram a submissão, o medo, e o descompromisso terreno para com a vida, de que todos os males impostos pelo homem ao próprio homem se deve aceitar, porque todos serão julgados no Juízo Final. Que cada um tire aqui suas conclusões, se houver. Mas voltemos aos nossos tempos de carceragem. Por lá, meus parceiros e amigos sempre estavam longe ou bem distantes de cantorias sagradas. Pude observar também nas cadeias, no crime, como inteligência e religiosidade servil jamais se atraem ou convivem no mesmo corpo ou vida. E, já mencionado em outra crônica nossa, o de como instituições religiosas têm um certo trânsito livre nas prisões; por suas funções catequizadoras, para não dizer amansadoras talvez.

Aqui então dois conceitos de bandido se tem. Um, de cadeia, o do crime, e com os quais fiz e tenho verdadeiras amizades. E um outro, religioso, agregado e maquiado por tantas legalidades e sagrados, do qual e dos quais, porque pululam, eu só quero distâncias e separação. E nisto por mim, só um caso de ética e de verdade.

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