* Sem a aquiescência das grades dos guardas, diretores, coordenadorias e secretarias; e depois das doutorais. Porque nos tira a independência.

Quando comecei a escrever disseram-me logo: “eles vão te matar!” O “eles” da frase sendo os internos do Comando Vermelho. E as vozes do enunciado e da ordem com face de aviso de cuidados, a dos censores imediatos de plantão. A estrutura do permitido dizer e do não. Que, para existir, se perpetuar e mais do que tudo produzir seus efeitos, traveste-se de todos os maquiados exigidos e necessários; máscaras sobre máscaras, falsos sobre falsos, com todas as verdades de controle, de maceração.

Mas nós, eu e os bandidos, sabíamos o que queríamos, o que precisávamos dizer. Não que já houvéssemos objetivado algo ou alguns assuntos. Antes de tudo estava e está a liberdade da nossa fala, do pensamento, dos nossos olhares e desejos. Então, o que pensávamos e escrevíamos circulava escondido, por entre o silêncio das mãos, com rascunhos por baixo de roupas e ou disfarçados de coisas legais. O tráfico das ideias. E éramos mais bandidos por isso. Por essa negação de que alguém nos visse, quer dizer nos lesse, e assim certamente nos vigiasse, nos censoriasse e, talvez até nos prendesse.

O mundo atual é do certo ou o do errado, do pai à escola, dos olhos que vêm de cima, de um guardião que sempre nos vê. Ao escrever nunca penso no permitido, almejo sempre o dito, tudo o que se tem a falar. As frases podem estar certas ou erradas, sem obrigatórias de ter que seguir o gramático posto. Mais do que preocuparmo-nos, perseguir e alcançar, realizando, o que nasce de nós, nunca o que vem e está imposto, de alto ao de baixo.

Nas artimanhas da voz colocam-nos outra voz fingindo-a de nós, de nossa. No imediato então, ao escrever o que fosse, nascido das nossas almas, nenhum guarda ou autoridade era qualquer e todo o perigo. Porque fugíamos. Pois poder falar só o permitido sempre mortalmente nos feriu. Que sabíamos e sabemos da natureza igual de quem fala e de quem ouve, na identidade do grito, do barulho, na atenção e no silêncio do escuta. A escrita então pulsava, escrevia.

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