Nos corredores e cubículos do III eles sabiam ler. Mas um ler que me abalava; bem fora do eixo professor-aluno que até então meu parco de diploma e de saber lidara. Deciframento com um fugir de liberdade, em sabores de constantes e de prazeres. Olhos que viam. Muito para além da cegueira escolar ensinada. Antes porque interpretando-a, o cabrestamento voraz. Anterior, a ordem correta que eu trazia ditava-os analfabetos e ruins; fugidos e rejeitados. Ao me verem entrar, naqueles minutos natais, e humana voz cumprimentar-me soberana e humilde, meu corpo-texto encontrava os olhos da mais respeitosa leitura.

“Preocupo-me com esse coletivo analfabeto, do polegar na tinta”. Disse-me o chefe, passando indubitável lição a seguir; a primeira. Mas eis que alguns sabiam mais que as minhas geniais sabedorias lhes traziam. Jeitoso por mim, comecei a ver que eu tinha que mudar, meu olhar me enganava. Leitores de romance e teatro conversavam comigo, a erudição criminosa. Analfabeto, eu recomeçava por mim. Meu diploma ali não valia mais nada. A não ser o de um título-nome tomado de vazio.

Eu tinha então, que no estapafúrdio escuro das grades misturar-me. Mais do que ser confundido um deles; neles e eles, o puro de nós. As linguagens das gírias com maquinações começaram a me dizer; de mim e o que comunicavam do mundo. O ouvido do professor a reaprender a escutar. A garganta e a cabeça articular o junto de nós, a ilusão e a liberdade. A leitura emanada nos punha ali; sem mais ninguém; não precisávamos. Bandidinhos teimosos e renitentes me traziam mágoas; as inteligências soluções. E tudo no meio se vivia.

Muitas letras me punham a termo, feito em tumba de faraó a decifrá-las. As dos livros não me eram fáceis. Meu corpo porém descobria outras, inteligíveis e novas, das bocas as quais saíam. Me vinham com outros escuros e luzes, clareando por mim a moral da minha ignorância. Na escola não soletrávamos nem líamos. Em perigosos e bandidos aprendíamos. Mergulhando em assaltos, cumplicidades de roubos e de planos. A letra ali analfabeta mas dizente; nós.

Demorei a perceber os líderes. Lógico que eu estava ali para somar aos meus pares no todo. A vivenciar enfim o que também era eu, sou eu. A nossa alma. Porém, direcionada a aqueles milhares de corpos entre tubos ferrenhos de inanição, as ordens e a maldição quase geral dos vindos de fora. Mais forte, ela, esta maldição altaneira; arquitetada pelos fabricadores das nossas horrendas disjunções. Mas ao olhar dos nossos duques falsos de papel eu pouco me importava. Os conjuntos de almas encarnadas me saciavam, eu também um deles, jogado como falsamente professor naquela estapafúrdia escura toda. Só que nos iluminávamos, pelo brilho puro de claridade piscante de cada alma em convívio. Produzíamos ardores nos encontros; sussurros, todos voltados para a vida. À ela nos dedicávamos como seus fieis adoradores fanáticos. Primeiro ela e só ela. A palavra liberdade, encarnando crua os desejos pulsantes, fazia ponte e ancoradouro. Para se chegar à vida, tensão inacabada que sempre recomeça, sem fim e sem ponto de origem, só a liberdade nos conduz. A deusa da nossa constante adoração diária.

Erigíamos assim em nossos corações profundos e pedestais altares; de adoração, apego e fabulosos oráculos. Até mesmo Deus, em sua grandiosa figura que ninguém sabe qual é, no fundo só aparecia, só encarnava em oráculos. Libações inventadas ao momento, cantos de parede virando igrejas e pontos de pregação e magia secretos. Mas no cerne tudo era coletivo; secretos públicos. Um único caminho acertado, mesmo acompanhado até da morte, podia valer e valia a todos. Todas as palavras, as coisas, elevadas sempre ao patamar supremo da adoração, do sagrado nascente. As almas e os corpos somente queriam.

Serrar ou estourar qualquer grade, ato de grandeza magnânima; enfim finalmente fugir. Deixar tudo para trás, o pesado e feio. Aquilo total que nos aguilhona sempre. No ato de tomar café, ou distraído à televisão, sem mínimo de pensar ou lembrança, pouco ou nunca importa. O olhar de cada corpo em nome e número, subjaz.

Transformados em prisioneiros penitenciários, duas cadeias se põem. Vínhamos já para cá e alguns ainda talvez nem soubessem. Outros já, porém entendo, nunca aceitando a lógica do corredor infugível. Uma parte da nossa infância tem que ir para lá. O fluxo incontido dos desordenados, dos que não obedecem; o cadeado eterno e profundo da vida os espera. Muitos estão soltos, disfarçados e escondidos na vida normal aguilhotinante que levam. A vida pobremente burguesa. Estes continuam vivos; presos e muitos já mortos, na imensidão dura e pequena, nunca a expandir, das fechaduras, muros e portas cheias de chaves de suas próprias casas. Educados, suas mãos se prendem. Se fecham a um mínimo de avanço possível. As paredes das casas tornaram-se grades; quartos e cozinha, cubículos. A festa quando festa medida nos jogos da contenção; dos gestos já insossos de que não se pode sair.

Na prisão fazíamos dela o oráculo da nossa fuga. A do caminho sem fim. Um corpo em movimento já é fugir. A liberdade mora na ação, seu grande templo inacabado mas perfeito. Qualquer corpo é capaz. Potencializado pelos mistérios, pela vontade.

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