Não tenho frase de início, ao furo mortal de olhares; jorro, sangue, compreensão.

Na cadeia eu ensinava aos meus amigos, fazendo um círculo gigante no quadro-negro e outro miúdo por dentro. O grande, eu lhes dizia, é a violência toda, e o miúdo a do crime penitenciário, juridicamente enquadrado. Com esta explicação eu tentava, e não sei bem se conseguia, brotava um silêncio neles, conscientizá-los mais e destruir o ignóbil sentimento de culpa que todos me traziam, incluindo também o meu. Mais no fundo de nós, eu buscava nos deslocar nos conceitos estabelecidos de vítima e de agente. Borges diz que o “criminoso” é uma ficção jurídica. Freud, que ninguém mata sem história. Sem um pratrasmente, como me diz intenso de sentido uma amiga. Genet enfeita um gesto infame de poesia e de jasmins.

Quis falar agora do bandido-herói mas não pude. Na mídia estampam todos: bandidos, criminosos, pequenos delinquentes e suspeitos como saídos de um nada. Sem história alguma que os dissesse, contasse as suas origens, formações e horizontes feitos. E história aqui nunca configurante de desculpa ou abrandamento, conceitos tão mal relacionados entre nós brasileiros. Talvez que eles não tenham sequer uma boca. A não ser aquela que o jurídico antes lhes impõe a falar, a tartamudear tremendo, a dizer. A que o policial imediato, o delegado e o juiz já trazem forjada pela letra saída do livro das leis. Assim, quem está algemado tem que se matar, sem a sua voz, silenciando na raiz. Assassinando primeiro a criança que foi. E que por bem certo pulsa por dentro de si. A prisão e o julgamento são um desdobramento, novo capítulo, da mesma e perpétua história. Mas com um anterior enterrado, subjugado e escondido na solitária intransponível do saber e dos livros. O que nenhum romance ou epopeia nos mostrará.

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