Elas não têm visitas! Quem vai se importar com alguém, que além de mulher é presa? Uma bandida? Eu gostava de vê-las no solário, algumas coxudas, tomando banho de sol, se preparando para a liberdade. Não sei se o mundo as receberia de volta. Quase todas dadas agora como entulho social. Nem sei também se antes realmente participavam, aceitas como seres que amavam. Absortas, várias olhavam o céu em imaginações, algumas díspares, já forjando um lá fora que, afinal nunca teriam. Mulher não serve nem para ser contada, mandamento do sagrado Gênesis. Servindo para nos dar ao mundo inteligentes e viris varões, chamados depois de homem. Mãe incapaz de um menino no ventre, não brota a árvore do sangue, da família.

De pouca guarda, a cadeia feminina possui mais seus dissabores. Nunca soube ou vi uma rebelião de presas. Algumas, masculinizadas e viris, impõem recuo e medo a guardas. Mas as fêmeas estavam por lá, e reinantes. Certos tratamentos incomodavam-me, nas vozes vociferantes do repressor que lhes gritava. No social de que um homem pode humanamente bater, quando quiser. Então ficassem caladas, se ajeitassem como galinhas. Mas que não podem nem ser comidas, marcadas pelo aguilhão das grades. Lembrando carimbos a ferro e fogo das prostitutas e escravas, ou na invisibilidade e repulsa para com as bastardas. Sim, que todas ali não passavam de umas bastardas. Foram nascidas para tanques, pias, aberturas de pernas e fundos de resignação submissa. Nunca para estar ali, feito umas loucas. Direito de errar e acertar só o homem possui.

Algumas jogavam fios de carinho. A ver se alguém os pegava, ou grudava neles. Fazer o quê lá fora, ainda cheia de filhos. Voltar ao tráfico não posso. Rodo, e aí já seria reincidente. Desconfiados, qual família vai me aceitar. Como me olharão e terão. Talvez que eu virasse camelô, com balas ou um doce qualquer. Bom seria mercadoria da China, barata e não estraga. Antes também ter pernas e olho para correr de guarda. A não cair num bote perdedor, levando tudo. Na certa para suas mulheres e filhos, esses ladrões de farda. Pagos ainda com o nosso dinheiro. Nós nunca podemos bater, só apanhar.

Em relação a dos homens, grade feminina tem um peso menor. O aparato e rigidez dos guardas não é tamanho. Um homem pode reagir e até matar, mulher não. Tanto faz se na fábrica ou na cadeia. Os reclamos humanos, sociais e externos são ausentes. Nunca ouvi um grito de parentes por mulher morta ou torturada numa cela. Quando raríssimo se põe, logo vai jogado ao limbo dos esquecidos. Em ordem familiar, o que é direito e bom a um menino ou rapaz, não é para a menina. Se ela errou e foi parar numas grades, não existe mais.

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