Me amo ainda menino, descalço e correndo na rua.

Nunca estivera com morto sem de caixão. Subi a rua correndo e olhei. Bichos saíam e entravam. Tudo na pele. O ar traiçoeiro não me deixou engolir. Pulmão vomitava por dentro. Porta da cadeia exibia terror. Preso da vila se apodrecera lá dentro. Saí de carreirada e de só. A janta depois não entrava, o fígado me rejeitava faminto. E o podre estava por ali. Baba cuspidora me embrulhava de tudo, tripas a coração. Pulei ao feijão e não deu. Chave da goela emperrada e surda, se negando a se abrir. Mãos de menino indagavam o que faziam. O caminho se chegara a um fim? Buscou nos gestos dos homens que iam fazer. O grito do podre incomodava ação. Tinham que sumir, esquecer, nunca lembrar. Soterrou-me num jogo cemitério de vida, o nojo daquela janta.

Num instante longo de sol e de seco, silene de voz professora no Gericinó em lamento. Alguém de preso em caçapa ao braseiro morrera ali. De secura por dentro. Estacionada num canto distante, só o surdo motor lhe ouvia. A escuridão da lata. Enterrado já, podia morrer sem perdão. Aos poucos amolecendo. Antes sinal de gritos e de chorar, depois um esmurrar por não sei. Ninguém lhe veria mais. Dormiu num instante e acordou. Esperava atônito um sinal, porém nada se via. Em delírio de seca pensou ver num úmido, os olhos não lhe achavam. Lembrança de um guaraná. Pelo estômago queria. Inútil agora viver. O guarda depois, na hora do tarde confere pensou. No aço do carro lhe esperava um morto, a vida bandida vazara e se foi.

Saí e entrei tantas vidas em Gericinó. Depois eu pulei ao Brasil. No secreto das execuções, em cruel e planejado descaso; no olhar de escárnio das incongruências desumanas na dor. Os gritos jamais ouvidos, que nenhum inconsciente alcançará. Os dias de cada um, inexorável bem devagar, morrendo. As tentativas e lembranças e de saudades. O aceno, o visto, o coração. O carrasco fundo da vida. Os corredores dos fins.

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