Roubávamos alheias frutas e não éramos gritados ladrões. Saíamos cedo a ver o que desse ou viesse. Podíamos dar com laranjal maduro ou pequenas preás num canto ermo de mato. Chegávamos ali, naqueles lugares, famintos. As mãos roubavam e caçavam de tudo. Num dia de sorte retornávamos felizes. Ostentando jacas maduras e cheirosas, ou um pouco de carne pendurada, na pele de um bicho morto.

Em casa, nossas mães nunca brigavam pelas arteiras. O fruto da volta repartia-se com todos. Podia ser, e era, que bocas famintas e desejo torcessem por nós, em regresso festivo. A moral solidária conjugava-se e aceitava alguns furtares feitos. Roubar, coisa de crianças. Quase como um gesto infantil qualquer. Por vezes até despertava reconhecimento heroico, de quem já podia fazer, realizar. A periculosidade como maldade ainda não nos atingira, feito uma bala perdida mas dirigida a um corpo certeiro. O mal sorvia outros, de gosto, de escolha.

Numa tarde triste alguém de nós foi morto por umas laranjas. As mães falavam baixinho, com a dó de aceno do amor. O lugar morria em luto. As almas, até as desconhecidas, todas choravam. Num atônito de mundo. Virada de propriedade, de não-perdão. Os aceitares se esmoreciam, e ainda não sabíamos que era. O tiro da morte sinal de brutalidades vindo. Mas chamar de bandido, até nos anos sessenta, circulava a economia restrita de raros furores.

E nossa criancice virou juventude. Sonhadores, nos reuníamos por volta das cinco na esquina escolhida e ainda de poucas casas. Contando vantagens, desejos futuros dados como feitos, e heroísmos às vezes abissais que nos sustinham. Achávamos todos que arranjaríamos emprego, casaríamos e a felicidade ingrata dos pais também nos encontraria. A comunhão às vezes acontecia no compartilhar do único cigarro aceso, puxado do maço que ficara vazio, mas guardado ainda para proteger outro filado depois. Tornávamos nossa miséria farta. Não tínhamos quase nada que fazer, mas a juventude se mantinha. A falta de diversão apertava sedenta e com voraz suplício os desejos vindos.

Num dia tiraram também as esquinas de nós. O urro amedrontador de um camburão foi entrando devagar. Resistíamos, mas a luta parecia inglória, já perdida. De manhã tínhamos até mais folga, talvez polícia só começasse depois das dez. Mesmo sem parar ou com alguma inquirição ou revista, olhos rastreadores nos punham suspeitos. Mas ainda nem mais roubávamos laranjas. Queríamos emprego que quase ninguém tinha. A vadiagem então nos pegou, jogada sobre nós e famílias. Porque éramos inevitáveis filhos de alguém. Por não ter ou fazer nada a juventude se criminalizou. Ingênuos, então fugíamos da polícia qual cruéis desordeiros. A casa de cada um funcionava prisão. Tínhamos medo de sair. Pois a liberdade da rua já era crime. Mas muito pior viria depois, nascido dessa gênese louca. Ser jovem se tornou bandido.

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