Outubro de 23.

Jamais eu saberia, naquela tarde de vinte e um anos atrás, que estaríamos para sempre juntos. Ao colocar meus pés na carceragem de Bangu III* hoje tão remota, que, confesso, ao ver a enorme penumbra da ala com meus futuros e sinceros parceiros de vida, algumas goteiras, mais as assustadoras grades, meu corpo tremeu, assim como meu espírito tentou fugir dali, daquela tamanha desolação ignóbil. Que dias depois me fazia confessar a mim mesmo, de que não desejaria tal inferno nem para os meus inimigos. Mas enfim, fui para ficar e fiquei. Na glória de todos os deuses só cresci. Cresci porque vocês, um coletivo grandioso, estavam com seus corações e espíritos abertos a me esperar, como alguém em tragédia aguarda mão amiga.

Mas houve um contrário, quem eu pensava ajudar, socorrer, fez um sublime em mim, me amou e me fez tornar-me um irmão; não um irmão consanguíneo, mas o grande irmão por estar junto na dor. A dor que nunca se queria, mas que veio e se impôs, se implantou na vida de quem estava já dentro do poço escuro de grades e concreto. Houve um antes, que nos conduziu a um real dantesco.

Tudo valerá a pena porque nossa alma não é pequena. Então, esta tão curta e caudalosa missiva tem e alcança um fim: o de sentirmos que enquanto vivos não descansaremos. E que estas linhas sejam um bálsamo, um pequeno mas sincero alento, para quem está agora feito preso, como também infelizmente para os futuros olhares aprisionados.

Nota: Bangu III, Penitenciária Doutor Serrano Neves, compunha-se de duas alas, “A” e “B”, com sete galerias cada, conforme a nossa memória, depois dividida em duas prisões. Nessa época de dois anos, minha estadia penal localizou-se nas galerias B3,B5 e B7. Esta última guardou amizades superiores por algum tempo.

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