
Meu coração é vermelho, meu sangue também; quem sabe também a minh’alma.
Nietzsche me disse, que o Estado é o mais frio de todos os monstros frios.
Conheci cabeças pensantes fora da prisão e dentro dela. Mas só nas grades convivendo com alguns, que nos guiavam como luzes pelos intrincamentos da vida, percebi na alma uma coisa toda. Lá fora, digo o povo, o grande povo, nele nascem e pulsam suas ansiedades, abandonos de horizontes e novos horizontes surgem, estes com os meios ou as tramas para alcançá-los. Premiados pela natureza e a vida de alguém, com olhares mais amplos e profundos que os nossos de povo comum, por natureza passamos a cultivá-lo, ou seja, pondo toda a nossa crença, nossa fé, em quem pode e deve nos conduzir. Nos conduzir com sua luz pela escuridão às vezes do imediato, mas muito mais a escuridão do futuro. A este alguém chamamos de líder. Mais comumente chamado pelo próprio nome, que se torna sinônimo de guia, ou até quem sabe, um apelido ou alcunha que, aos poucos, vai adquirindo nas bocas que falam tonalidades de carinho, ordem e veneração até. No fundo o povo se ama.
Porém isto nunca pode nem deve ser assim, dizem as ordens do poder. Desde criança sempre vi e vejo líderes ou falsos líderes serem empurrados e até implantados de cima para baixo; num rosto que nunca viu e viveu povo, com seu sorriso de felicidade numa gravura pública qualquer. Ocasionalmente, no calendário eleitoral marcado, todos os políticos fazem isto, já parte do nosso manual histórico. Além destes, os políticos, como nesse início de parágrafo, qualquer figura superior que possa servir, os poderes e as mídias as empurram; as empurram como líderes regionais ou nacionais. Assim então como sabemos, embora quase nunca se diga ou se escreva isto, vem na ação as ceifadeiras, as capinas do poder. Toda e qualquer cabeça no povo e do povo, que se eleva num olhar a mais das outras tem que ser ceifada, ou pelo menos controlada. As mais, digo cabeças pensantes, que possam renitentes, teimosas, persistirem em mais alturas e posições fora da ordem de cima e assim já contrárias a ela, são naturalmente demonizadas na vida e pós-vida; com o antes ao que sabemos bem, caçadas e mortas como aquilo que nunca presta; mais, como aquilo que nunca deveria ter existido. Inteligência e favela não combinam, diz a receita envenenada de bolo.
Como escritor, além de bandido e ex-gradeado, nasceu em mim e permanece, intensa vontade de biografar cabeças pensantes ou lideranças do nosso dito mundo do crime. Queria muito saber com elas, sobre as visões e mundos sociais vistos ou vislumbrados, quais suas histórias de vida, famílias e meios por onde se formaram e cresceram. Creio, seria uma escola de vida, um grande aprendizado; tanto para este que escreve, quanto para possíveis futuros leitores. Uma parte importante, talvez até capital, da nossa alma brasileira seria antes descoberta, e assim vista e estudada; o povo enfim mostrando parte valiosa da sua história: como vive e como é.



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