
A favela é uma outra cidade.
Em dez anos de prisão, só uma vez gostosa dose de uísque atravessou minha garganta. Éramos em tempos bons, apesar das torturantes grades. Nunca fumei nem cheirei, a não ser uns vagabundos cigarros de tabaco. Hoje, trabalhador aposentado e bandido em horário integral até dormindo, frequento uma tabacaria sorvendo três ou quatro charutos robustos por semana; esta fumaça me basta, pelo menos por enquanto. Nos meus primeiros dois anos, meu nariz estava obrigado a muita maresia de cannabis, que não me alterava em nada, nem pelo menos um mínimo sonho de que eu estivesse fora da prisão, num devaneio de viagem qualquer. A maconha nunca me atraiu, mas estou sempre livre para ela; meus braços se desejarem a abraçarão com enorme sofreguidão, sou livre para isto.
Numa fumaçante época, conseguíamos colocar para dentro boas quantidades da santa erva. A diretora da penitenciária, talvez em mea-culpa, quase sempre me segredava, que nunca iria acabar com a maldade do mundo. Eu a ouvia calado, sem dizer nada; às vezes a me perguntar silencioso por que ela me dava satisfação daquele permitir. Tirante uma quase realizada grandiosa fuga, na qual toda a cela iria embora para nunca mais voltar, na penitenciária que nos hospedava obrigatórios, não aconteceu nada de perigoso ou mortal. As fumaças irradiadas e outras coisas talvez nos sossegassem. A diretora da prisão era turrona e dura, mas tinha um humanismo compreensivo, que no fundo nos prendia, nos dominava mais. Ela, foi o único diretor em Gericinó, que agilizava nossos jurídicos dentro da lei e dos direitos do preso. Não fazia favor, fazia justiça. Mas deixemos nossa diretora de grades e voltemos às fumaças e sonhos.
Hoje liberto, como todo e qualquer um lido com diferentes pessoas. Um grande amigo meu, poeta e intelectual brilhante, me diz de vez em quando lembrando, que maconha é só uma planta. Então por que proibi-la, me pergunta. Sei de inimigos polícias, que para amenizar a chamam de “cigarrinho de artista”. Isto quase certo para aliviar neles mesmos sentimentos de culpa. Até porque nenhum nariz é de ferro, inclusive os deles inimigos. Sobre isto, várias vozes bem balizadas me falam, me gritam, que se tirar total os tais “cigarrinhos” de várias polícias estaduais brasileiras, elas também não funcionarão plenas. Sem fumaça sem segurança. Cada qual com seus alucinógenos. O talvez mais alucinógeno, de mais devaneio, vem pela religião, ela mesma. Quando por exemplo, meu irmão família e protestante beato, jura verdadeiro que subirá arrebatado para os céus; sem passar pelos horrores de hospitais e morte, higiênico total da podridão do cemitério. Imagino-me às vezes, na sorte de conseguir agarrar a canela irmã de sangue e adentrar também no paraíso. Eliminando assim partes da Divina Comédia: o purgatório e o reino de Lúcifer.
Muitos países como o nosso Brasil, estão cada vez mais apertados em saia justa; não legalizam total a maconha, porém ficam obrigados a tolerar mais “cigarrinhos de artista” e outras aspirações.



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