Deu no jornal e eu não soube: vinte e um mil presos foram soltos no Brasil, numa leva só. Embora seja e tenha sido algo de avanço, não toca num ponto central, que seria buscar responder à seguinte pergunta: por que encarceramos tanto; que social é este, que destina cada vez mais sua juventude, sua população, às muralhas encarcerantes. Nesse sentido nosso social já é penitenciário; mesmo antes e até bem antes, de qualquer pé pisar e sentir o chão frio de uma cela. Há uma fase desse cruel destino antecipatória; pois mesmo numa certa etapa dessa fase, já não tem como fugir ou se desviar, é grade na certa e ponto destino final.

Ao saber da soltura dos presos, estávamos em fogosa conversa de amigos numa confortável e até luxuosa tabacaria. O anunciador da notícia, logo percebeu e reclamou do grupo e no grupo, que ninguém lhe dava ouvidos, exceto eu quem lhes escreve. Assim, já tivemos ali na mesa de charutos e bebidas, a constatação imediata de um profundo desprezo. Prender, soltar e matar gente comum do povo, não merece sequer entrar na ordem do discurso de um mínimo interesse; são só meras vidas. Soltar balão chama mais atenção. Então descobrimos, somos frios e indiferentes quanto à matéria vida. Porque também somos frios e indiferentes quanto às condições e formas desta mesma nossa vida. Se morremos morremos, se vivemos vivemos, tanto faz. Resta-nos também saber para onde foram, se tiveram para onde ir, e como estão os vinte e um mil libertos. Se logo imediato muitos retornarão para as grades de onde saíram, pois o social que os mandou para elas as grades, não aceita, isto é rejeita, refugos humanos de terceira e talvez de última categoria: são ex-presidiários. De onde libertar não seja mesmo libertar.

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