
Não há nada mais grandioso nesse mundo e fora dele do que a Vida, e mais ninguém.
Distraído e bem próximo do Teatro Municipal*, sinto um corpo gracioso moreno passar por mim; impecável no modo de andar e de vestir. A bolsa, delicada ao ombro pendurada, acentuava ainda mais a graça que desfilava. Sim, porque algumas só desfilam, não andam. Preconceituoso, coloquei na minha cabeça que ela ia ao trabalho. Soberana dominava o mundo ao redor, na sua imensidão local de Cleópatra; e meu olho de vassalo que a seguia. Ela mostrava um rigor de higiene e de cuidados. Antes que sumisse de mim dei um último olhar, num flash de registro final. Ela delicada porém já me mostrara tudo; o tudo daonde veio, de onde guerreira saíra. A coisa tal, sobressaía sob carinhosa cobertura em formato de cano de meia; na ternura da fêmea que põe o aveludado em tudo, até mesmo no tão indesejado que se está obrigada a carregar e assim tentar esconder; pelo menos disfarçar em arranjos de certo cuidado. Assim, por baixo de tanto carinho sobressaía a tornozeleira eletrônica vigilante e condicionadora de ex-presidiária. O tornozelo esquerdo tão hermoso para não dizer formoso, trazia ainda o peso terrível de uma cadeia recém-passada, recém-tirada, transcorrida.
Dito isto anterior acontecido em dias bem recentes, eu andava há mais de meia década, à busca de ver uma e primeira tornozelada de ex-presidiária; só que nunca a encontrava. Na falta, a vontade de ver aumentava cada vez mais. E nenhuma me aparecia. Como todo mundo, na ausência do real ansiado passei a imaginar coisas. A talvez mais acertada de todas, era a de que as canelas femininas algemadas pelo eletrônico se escondiam, se enclausurando em casa, ou andando no máximo pelas ruas do mesmo bairro; a prisão continuando sob outras formas. Quando num preciso obrigatório, ainda no imaginado, usavam roupas acobertadoras, como calças compridas de pernas bem largas ou vestidos longos escondedores. Pois sabemos, que todos os julgamentos e assim condenações, saem vociferantes ou silenciosos pelo pisca de um olhar. Lá vai ou aí está mais uma, é o que dizem. Nesse simples murmúrio em grito de alto-falante, as muralhas sociais se levantam, se impõem. De onde, só certas artimanhas femininas conseguem não total esconder a algema no tornozelo, suplantar, mas pelo menos aliviar um pouco o incômodo denegridor, e seguir caminhando.
Nota: Teatro Municipal do Rio de Janeiro.



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