Ao sair de casa sem que o perceba muito, o destino primeiro são os jornais. Procuro só as manchetes que já me bastam; a saber aonde foram os últimos tiros e mortes do dia anterior. Mais do que o constatar, necessitamos nos proteger com muita antecipada e até desmesurada cautela. Na certeza, nunca sabemos nem saberemos aonde será o próximo combate; que pode eclodir instantâneo, na minha vizinha e tranquila esquina de onde moro. Todo dia acontece ou aparece algo de mais tragédia. Mesmo nos ambientes mais seguros ou serenos permeia o muito medo; por vezes medo tão incubado ou mascarado em valentias de fala. Um clima tomou toda a cidade, há décadas, sem que nos apercebêssemos tanto da sua gravidade; como se sempre existisse ou existiu. Estamos em outro normal, de uma certa tranquilidade já escapada, inexistente.

Ao dizer-me a desconhecidos num lance de vida qualquer, como à mulher caixa do banco, que tenho dez anos de trabalho em carceragens bandidas, ignoram a palavra trabalho pondo-me logo a olhos assustados e fugidios. As almas já amedrontadas estão sempre prontas antecipadas a fugir, a correr. Qualquer um, o outro que não seja nós, tornou-se na rua um mortal inimigo prévio assustador. Um gesto, mesmo que tão puro, inocente e casual, dependendo do momento e circunstância, pode ser tomado, e quase sempre é, como um movimento a ser eliminado; qual um homem a trabalhar sobre e na feitura de uma laje ser morto; pois visto pela polícia alguém a se esconder, a se entrincheirar. Os olhares e objetos formaram-se outros. Mesmo o dito invisível é temeroso, senão até mais, assustador; que pode parir sobre nós, qualquer um horroroso ou matador ataque de ganho ou de morte. A polícia mata cada vez muito mais, subvertendo o conceito de ordem na ação ou sendo a natureza própria dela, da ordem. Nossa guerra é particular; antes porque mentirosamente não ser vista guerra. Outra, porque o inimigo não necessita ser o verdadeiro, o antes identificável. Existe um desvio de visão; a percepção do possível objeto está enganosa, confusa. Na mente projeta-se uma identificação, mas no acontecimento outra, já errada, de morte à “bala perdida”. Por algumas cabeças há uma verdade estabelecida mentirosa. Falta-nos conexão acertada entre visão e objeto. Não vemos porque não sabemos ou não queremos ver. A polícia mata um, porque esse um é qualquer um; independente do que verdadeiro seja. A marca do inferior baliza e justifica tudo: do plano da morte a uma vida inteira sem conseguir.

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