“Ele vende armas pra gente professor, mas na hora da guerra é o primeiro a morrer.” – Me disse o interno prisional apontando um polícia fardado ao longe, na penumbra interna da ala na carceragem -. Estávamos recém-saídos de uma rebelião longa, de três dias ou mais. Havia por todo lado um ar de espera, precaução cuidadosa e medo. No dia seguinte ao término do confronto e nossos movimentos de fuga, flagraram em ato, mão polícia jogando pistola carregada pelo chão de uma galeria nossa de presos. Havíamos barganhado ela por um bom preço. Pois sabíamos também identificar os polícias compráveis; geralmente os olhos já diziam, ou um outro gesto identificável qualquer, como uma frase de falsa comunhão conosco por exemplo. E nós, na guerra, já estávamos à espera.

Existe um monopólio de mercado em cada prisão, o da corrupção. Este mercado impõe geralmente uma face envernizada e lustrada de mais legalidade e pureza, numa máscara maior de mundo. Aonde está mais sujo deve parecer mais limpo. É bem sábio que isto está dentro da política nacional brasileira, este modo de parecer. Nosso sistema prisional acompanha por natureza a ordem, o mundo no qual está inserido e é parte. Uma parte que também é o todo. E o mais agravante e pecaminoso, mas básico, está fora da corrupção; um centro fora do centro ou um certo ao redor. A máscara da pureza para existir tem que se mostrar em ação. Assim, muita coisa inofensiva, como um cavalete de pintor, é barreirada na portaria da prisão, não pode entrar. Ou então, num repasse cada vez mais exigente mas altamente respeitado, a grande mentira, a burocracia realiza seu controle e presença calculados de administrar. O olho falso e o documento, este arranjado ou não pouco importa, atestam a pureza da coisa que entra ou que sai, isto é, circula.

Ao receber-me no gabinete, o diretor da cadeia em defesa ou desculpa murmurou fingindo-se amável: “a corrupção do guarda.” Dei de ombros, mostrando que minha finalidade ali era outra, mostrar nossos textos sobre carceragens. O terno impecável que ele sempre vestia era sua marca pessoal de pureza. Que por dentro, quer queira ou não queira, nossa estrutura de Estado possui vísceras podres. Na continuidade e natureza da coisa mesma, da vida, a manutenção de modos e prazeres já está açambarcada e dependente do mesmo corpo que doente a produz. Como um parasita e seu hospedeiro em simbiose natural.

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