Eu me ensaio pelas crônicas. Pois tenho forte impressão como uma leve mas constante tortura, que buscam e quase sempre conseguem apagar nossa memória, a pessoal e a coletiva. Recordo agora que conheci uma mulher anteontem mas sem ver nítido seu rosto. Assim, imagino, houve coisas que o impediram ou desviaram. Conversamos só um pouquinho, na plataforma de embarque e dentro do nosso bonde moderno chamado VLT*. Senti-a como uma paquera de rua e momento, dessas que se tem tanto na vida e logo as esquecemos. Mas enfim conversamos. E do que falamos? Tento lembrar-me agora; um assunto nos grudou. Como não vem o de início, penso que nossos objetivos eram outros, que a rapidez do encontro não nos deixou chegar. Lembro que me chamou memória de estrondo, ao dizer-lhe que escrevia sobre os meus dez anos de cadeia. Mas isto aconteceu muito à frente, já quase nas despedidas; e eu preocupado em não perder a estação do desembarque. Deixei meu cartão do blog com ela, pois afinal acabamos falando de prisões. Ah, lembrei aqui o início da nossa conversa, puxado pelos cartões ou pela letra e vou descrevê-lo abaixo.

Vinda não sei daonde que não indaguei pois puxava uma maleta, perguntou-me mas em afirmação, que para pegar o metrô deveria saltar na estação Cinelândia. Um pouco lerdo como sempre, segundos depois mas sem tirar-lhe a atenção, sugeri que melhor seria a estação Carioca. O que ela recusou fracamente por causa dos ladrões. Esclareci com certo jeito e trabalho pela renitência dela, que a Carioca por ser a estação mais central de todas, o perigo era bem menor, quase que nulo, inclusive por causa principalmente dos camelôs da área, que espantam pequenos ladrões de rua. Diante desse argumento concordou comigo. E nisso a composição chegou.

Entrei, mas como pelo sábado e restos da quarentena do Covid 19, os vagões estavam vazios. Dei passos rápidos buscando um lugar distante; ao mesmo tempo fugindo e testando a persistência da viajante amiga. E ela insistindo me seguiu. Sentou num banco próximo onde nos ouvíssemos e assim conversar. Falamos de mendigos nas ruas e seu aumento cada vez maior, da cidade já com um terço da população favelada, de que somos um país de venenos nos alimentos e lavouras, dos genocídios públicos do governo. Do meu lado sempre num tom fortemente crítico; no dela, em princípio rebatedora foi cedendo aos poucos pelo efeito da memória que eu tentava ressuscitar-lhe, ligando fatos esquecidos. E nisto chegou aonde eu deveria descer e desci; numa pressa toda, falando até o último minuto de olhar, a aproveitar-nos de tudo.

Depois de longo passeio pelo cais e a grande praça Mauá, almoço e dois bons cafés no bar Flórida; sentado já no ônibus da volta para casa, pensei em algo que a farmacêutica me dissera e não entrava em mim. Não só o fato narrado, mas a posição dela tida pessoa esclarecida. Sem que eu lhe perguntasse, falou sua revolta de que a polícia não estava mais subindo nas favelas. Em intensa objeção, expus-lhe que a polícia brasileira já matara até criancinhas ainda nas barrigas das mães, no aprofundamento criminoso. Ao que ela me perguntou então quem protegeria as pessoas, referindo-se aos favelados e pobres. Que eu num rápido e último esforço, respondi que as raízes sentimentais e parentesco dos bandidos estão aonde eles estão ou nasceram; ou seja, nas próprias comunidades e periferias. Sem tempo de continuar, mas rogando a todos os céus que ela raciocinasse depois na lógica da vida, que o estranho matador é o Estado pela arma que sobe o morro e atira; e nunca como ela me disse, a força cuidadora do “servir e proteger” ostentado nos muros dos quartéis polícia.

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Nota do autor: VLT, veículo leve sobre trilhos.

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