Para os labirintos da Solidão.

O tiro mortal certeiro da polícia no jovem rapaz estava na ordem do dia; a bala não foi perdida, como todas que atingem qualquer corpo favelado ou de pobre. Sobre o caixão costumeiro pai infeliz chorante. A morte nunca pega só um por vez, já mata aos pouquinhos ou a muitos também os que estão no ao redor. A juventude morta daquele corpo quando dentro de casa, já estava antes condenada ao patíbulo da lei. Como a sentença sabiamente não traz nomes escritos, só no instante mortal ou pós ele, sabemos qual ou quem foi o escolhido do dia, da hora, da vida destinada da vez. A palavra jovem, mesmo no singular diz e é sempre um plural. Quem levou o tiro e foi levado por ele, na inserção da vida, na própria vida, era só unidade de um grupo; este mais visível pelas almas e indefinido pelo espírito. Que este o dele que morreu, só pela foto do jornal já chegou até o meu, no grande espírito que se encontra. Mas voltemos ao grupo do já agora cadáver. Jovens amigos do executado atingidos também pelo mesmo tiro, uns ou muitos pensarão em vingança matando um polícia. Num momento das mentes, desejos fortes de entrar para o crime ostentando mortífero fuzil perdurarão. Quem sabe algum pesar secreto mas frágil ou temeroso, rezará por dentro pela mira mortal de um bandido do morro admirado seu; que suas balas bandidas nunca errem corpo de polícia matadora. Crianças do mesmo lugar, se alinharão pela natureza da vida a futuros inimigos de quem os mata, tornado-se até algumas já os cria*. A polícia prepara os criminosos, dos quais ela precisa para viver.

Mas o buraco é sempre muito mais embaixo, como já me disse alguém. Acerta-se no alvo para atingir outros alvos. No acerto de reprimir ou “acabar” com o tráfico de drogas pela polícia, o objeto mesmo são outros nascedouros. É bom sabermos antes ao nos lembrarmos aqui, que maconha e cocaína rolam muito e até por demais, nas festas dos ricos e quartos dos grandes hotéis; nisso, humorista de sucesso segredou-me publicamente, que se prenderem todos os usuários que fumam ou cheiram, nenhuma redação da mídia brasileira funcionará; assim, talvez até nem exista mais hoje notícia ou programa de TV sem pó ou fumaça (cocaína ou maconha). Um parceiro meu de cela, gostava de mencionar funcionária de televisão usuária de cocaína e freguesa certeira sua; imagino que ele a lembrava por ser bonita e terem tido algum clima de namoro. A pressão da realidade nos empurra a fumaças e pós, até naturalmente Freud, que sabia muito disso de drogas e dos nossos demônios internos.

Dito o pretexto, falso pretexto, tentemos acertar aqui o nosso alvo, e este mortal. A vida está também no periférico, no favelado; então este tem que ser reprimido, direto ou indireto criminalizado. Antes o território já o condena. E por natureza as vidas que brotam querem ou podem querer mudar a condição da ordem do mundo. Num canteiro pobre pode nascer uma boa hortaliça. Mas na favela só se deve ser o que o nome favelado já impõe; desembargadores e juízes estão fora daquela ordem favelada, quanto mais uns ou outros diplomatas. E assim, o que os mata porque nos mata é a imensidão do desejo. E se fora só isso, mas não. Se num barraco qualquer brotar a inteligência para a vida, ansiante por mexer no mundo de morte que vive e vê; na ordem, ela a inteligência de favelado de morro tem que ser morta, porque este mundo não lhe pertence.

Os Cria: meninos/rapazes nascidos na comunidade que, ostentando fuzil, vigiam e controlam entradas e saídas do alto de pontos estratégicos, geralmente lajes.

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