Nunca usei telefone celular. Nas portarias das cadeias, eu sempre evitava ao máximo os desconfios secretos dos guardas de plantão, no vasculho obrigatório de corpo e de coisas. Por estar constante meio bandido e meio professor, sabia que era um dos mais vigiados. A falta certeira de saber quem eu era, se professor, parente, visita de preso, ou realmente só bandido, deixava a segurança meio que cega. Não ter telefone na mão como todo mundo, talvez me colocasse ainda mais suspeitas. Os guardas tinham pouco como saber de mim; nem de como eu falava ou com quem falava, ouvindo-me monitorado pelo meu próprio celular. Só as máscaras me mostravam verdadeiras.

No miolo da grade em união com meus amigos do crime, eu expunha as razões desse acertado não ter. A principal, de que os rastreadores da segurança nos escutam, como alguém atrás da porta a vigiar e saber só com os ouvidos. Se há uma coisa desnorteante para o poder, é não saber das nossas vozes, e assim do que pensamos. Cada celular é uma sentinela que o próprio vigiado conduz. Por vezes do acertado e do motivo, nós bandidos nem deixávamos certa escumalha de presos suspeita nos escutar. Nossa vigilância funcionava dos dois lados, o do inimigo e do nosso. Na importância ou no lance, eu tinha coisas que até buscava esquecer, pondo-as numa nuvem bem alta; meu próprio discurso de fala podia me trair. Meus pés e cabeça andavam pelos dois lados, o do crime e do não crime; descobrindo como o legal ou a ordem se hipocrisia tanto o verdadeiro Bem. Os nomes dos campos se invertiam, na experiência do circular e do saber.

Na amizade da nossa relação bandida, eu criticava severo as religiões nas cadeias, a televisão e a própria escola, como estratégias condicionadoras, vigiadoras e controlantes da vida. Então, os territórios da realidade prisão se alargavam, podendo ser e acontecer em outros lugares e aparelhos. O importante, dizia-lhes, era o poder não saber ou pouco saber do que pensávamos.

Que rastrear e escutar nossos sussurros pelos telefones, os do poder podiam e podem. Só que nunca e jamais nós fazermos o mesmo nos deles; o crime deles não permite.

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