Saberes marginais chegavam desmesurados até filosóficos por alguns, a escola não lhes bastava nem os prendia. Mesmo que em educada contenção, aos poucos um banditismo saía solto pelas falas e bocas, fazendo eu professor aprender. Certo assim, que todas as mentes não estavam domesticadas pela ciência da lição escolar, qual uma planta produtiva ou um cachorro obediente. Havia uma fuga ou resistência de olhares e pensamentos, fazendo de uns muito periculosos e então perigosos na falta de um controle prévio. Não eram alunos no conceito pedagógico do termo; pondo sempre no mundo que o verdadeiro saber não tem medidas nem notas. Tinham-me por um superprofessor, o que me causava desconfortável medo e certa precaução, com certeza pelo ainda muito escuro que me habitava.

Quem não sabe a lição é burro na escola das quatro paredes. Mas na sala de aula eu professor nunca inquiria os alunos sobre origens quaisquer que fossem, condição ou saber. Não passávamos por nenhuma competição pedagógica do tipo quem sabe mais; os sobressair-se eram só dados humanos e pessoais, só isso, sem reificações mesmo que de instantes. Por muitas vezes, como já disse em outro lugar, eu me perguntava o que eles presos ainda faziam ali, estudando comigo; na indagação eu questionava o mundo, o nosso mundo. Havia uma resposta que os alunos possuíam, traziam, que eu buscava decifrar, aprender.

Os livros, lições e saberes escolares foram se tornando outros planos e objetos menores, às vezes até sumindo. Conversas soltas nos ensinavam mais, porque nos mergulhavam em nós mesmos, acontecendo achados e encontros. Mesmo o didático rolando nas carteiras quadro e cabeças, as vidas e os movimentos delas eram o principal, o nosso mundo coletivo. As quatro paredes escolar iam ruindo por dentro dos corpos. Chamávamos um ou outro à escola não pelo didático magno, mas pelo prazer de pessoas se vendo, se tendo pelas relações e trocas; e nunca como o santamente obrigatório de alguém ao ter de ir à igreja orar; ou crianças que rezam para a mãe da professora morrer para não terem aula naquele dia, num imposto e rejeito profundos. Éramos assim o convite livre e humano de nós mesmos. Entender tanto de quem veio à escola como de quem não veio, até de quem não virá nunca mais. Vê-los me esperando nas grades da ala ou na sala escolar, foi virando gratidão de pessoas para mim, sem a aura da mansidão imposta; cada um em cada um de si, os olhos e os gestos nos diziam, nos ensinavam. Em nós mesmos encontrávamos outra escola, e outra vida.

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *