Somos ágeis campeões em muitas coisas, futebol por exemplo; e nisto a seguir ultrapassamos mole a Rússia e estamos indo à cola da China e Estados Unidos da América. Este o segundo lugar e aquela o primeiro; na ordem do mundo as estrelas em população carcerária. Estávamos, quatro homens experientes, à mesa da tabacaria na calçada. Como sabem quem fui ou agora sou, presidiário ou um ex, falam-me e perguntam coisas. Mas vamos ao principal dos charutos. Houvera de início na mesa, dúvidas sobre a colocação brasileira no ranking mundial dos encarceramentos, se quarto atrás da Rússia ou o terceiro lugar; o que conseguimos nos esclarecer, o Brasil tá no terceiro lugar de mais prisões, ou seja, também no pódio dos campeões.

Falamos das cósmicas alturas dos preços de um cafezinho ou cigarro vagabundo nas cantinas carcerárias; passando pelas corrupções nas grades dos mandos políticos de um ex-governador agora preso, Sérgio Cabral Filho. Porém meio esperto jogador, coloquei-me logo a um passe de pergunta: Por que se joga qualquer um e todos no mesmo lugar? Tanto faz se roubou um par de meias ou estuprou e degolou uma criancinha? Condena-se atroz o das meias e o faz um objeto carcerário de alto custo ao Estado; e como sempre, quem paga este custo é o povo. O que alguém amigo na mesa sábio logo completou: e mais que o das meias, de bandidinho sai formadão pelas grades. Neste foco da questão, bato-me sempre com a ideia de que teríamos que ter penalidades diferentes, pelas enormes diferenças entre os gestos delituosos. Mas no Brasil não, todos são enfiados iguais no único buraco da lei: os amontoados penitenciários. E isto muito porque, falei à mesa, aumentar a multidão presa dá muito lucro para os grupos de negócios, que são os fornecedores e as empreiteiras das construções. Assim ao inferno o humano e a moral, se matar aprisionando enriquece.

Um condenado igual a mim de penitenciária, reclamou-me em conversa, que numa audiência com o excelentíssimo senhor juiz, este, de lado à tribuna e com os pés de fora dos sapatos, folheando displicente o processo como uma revista vagabunda, não o deixou falar e muito menos o olhou. Qual um médico da pobreza faz com todo mundo, receitando os mesmos genéricos comprimidos para todas as doenças e bocas, sem enxergar quem quer que seja que está à sua frente, clinicando corpos sem a mínima leitura, por nunca ser desejável curar.

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