Os tribunais vinham bem mais visíveis por dentro de alguns, com sentenças prontas eles já condenados. Perguntados se sabiam diziam que não. No provar eu pedia que lessem uma coisa qualquer apanhada ou vista na hora, como uma página de cartilha ou dizeres de um cartaz na parede. E descobria que todos mentiam, ao lerem o posto de forma correta diante dos olhos. Nunca encontrei um cego de letras total, que seria um aprendizado para mim. Mas de volta aos que mentiam e por que mentiam. Antes porque já vinham subjugados por um conceito cultural de condenação: saber é conseguir ostentar saber mesmo que totalmente mentiroso ou falso. Assim, ao obrigar os mentirosos bandidos na admissão escolar a lerem umas palavras, mexia com seus enganos e condenações ingratas, os quais por nossos tribunais andamos cheios e já de muito vazantes.

“Bandido não sabe lê”, já dissemos isso em muitos lugares por ser uma sentença histórica pronta; assim como acreditamos que alguém se torna santo ao frequentar uma igreja ou mudar de roupa. Na aula, nunca perguntei quem sabia ou não sabia ler; qual numa de juiz inquiridor maldoso, buscando por um crime íntimo torná-lo público. Também não ludibriava dizendo-nos completos sabidos; estar ali em aula já era uma constatação: a de que estávamos afim, repetimos.

Por hora também em nós docentes na escola toda, os professores sabiam completos o ler, como oráculos certeiros científicos plenos. Mesmo meus erros mais visíveis e verdadeiros na aula, não conseguiam crédito mínimo algum de verdade; eu estava blefando ou pondo-os em prova a fogo, diziam-me os alunos. No intento, eu desejava por-nos humanos mais ricos, mostrando uma nossa igualdade. Mas ao não conseguir, descobria a mentira neles tornada para sempre nossa toda real história.

Nunca peguei um professor em leituras, como num crime perfeito. Histórias de poesias e comentários literários não eram assuntos de pauta escolar, muito menos de vida. Bati-me por décadas num gesto simples: queria uma gramática da língua portuguesa em cada escola que passava, o que nunca me foi permissão. Algumas mãos do saber ficavam cheias até a entornar, mas só de didáticos já prontos. Passávamos indubitáveis submissos pelo só obrigatório. Agora conto aqui uma história minha de quase amor. Certa professora mais que amiga e de literatura não conseguia engolir Machado de Assis; Dom Casmurro era-lhe impossível de beber porque talvez torturoso purgante. Pois então pediu-me que o resumisse para ela, como parte de um trabalho acadêmico seu. Numa felicidade, redescobri o mundo de Bentinho e Capitu ali, naquela leitura cúmplice, prostituta e romântica.

De uma a letra me tatuou: que ler é um troço sempre por acabar e por isso em eterno aprender. A certeza de um fim, quando verdadeira, logo se esvai, e assim pegamos um novo livro. De leituras a prisão me ensinou muitos algos no convívio bandido; o principal, de que leitores plenos e analfabetos puros é uma ignorância nossa de fundo, que nos move históricos num saber de sabichão.

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