Catuco ao invisível. Sempre me bato comigo mesmo como começar ou dizer, diante do meu total desconhecimento. Já de início, esse total desconhecimento nos impõe uma lógica de sentido: por que existe este total desconhecimento? Não como uma coisa a ser escondida, mas a ser ignorada nesse silêncio histórico totalizante? Penso aqui sobretudo em nossa enormidade de país, o Brasil, com suas distâncias de território facilitadoras de tudo; de tudo que não se possa imaginar ou acreditar que aconteçam ou existam. Esse real que pela ordem assentada nunca teremos um histórico ou que mínimo parecer dele. Há uma ignorância de olhar implantada; e eu não fico fora dela mesmo encarcerado que fui. Mas por estar nela tento mostrá-la, quem sabe alcançando uma face mínima de atenção.

Podemos falar de escolas mas nunca de prisões; que estas estão fadadas aos subterrâneos do não saber. Melhor, não devemos nem de lembrá-las em nós que existem; a não ser num cisco de pensamento abstrato vago, passageiro e distante. Elas, que quase sempre estão fora dos centros urbanos, mesmo quando próximas são como não existem. Delas, circulam boatos mantenedores de falsas verdades ao meio do povo, para não se deixar nenhum vazio de discurso na massa ignara; pois este vazio, perigoso aos fabricadores de mundo. Mas voltemos ao desconhecido e distante. Nas lonjuras das prisões em interiores de estados brasileiros adentro, vão se formando e assentando universos. As indignidades nascentes e as já perpetuadas, conforme as subjetividades do guarda e de quem está preso; tudo no cosmo criativo do mais sofrer. A grade já define um inferiorizante básico: quem está nela é porque já não presta. Por lá, submissões e resignações ao infinito, tentando inúteis ou não mudar algum jogo relacional maldoso de momento, como também acabar procedimentos mais penitentes em permanência. As explorações sexuais das meninas e mulheres bonitas. Enfim, um campo de ação sempre visível ou não, mas sempre disponível, dos jogos e gestos nas manipulações mais perversas direcionadas ao preso. Quem está na grade não tem voz; e mesmo que grite, quem ouvirá o que não se pode ouvir? Num atônito torturante, as mentes se perguntam num fundo escuro: por quê. Há um holocausto desconhecido e contínuo, que forma um mais secreto mundo por dentro das nossas prisões. Nem falo aqui das salas de tortura que sabemos tanto que existem, mas daquilo que o interno prisional antecipado aceita, pois que já prisionalmente posto; ou seja, que o direito a uma cadeira ou copo d’água são objetos e desejos só dos homens livres. Gritos lancinantes vindos de um garrote ou noites de gemidos por uma perna podre, nossos ouvidos e olhares de fora nunca alcançarão; e assim nunca uma consciência.

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