Uma de nossas mãos tocou a campainha. Logo, o ferrolho interno da escotilha pôs-se a mexer fazendo barulho, avisando que o guarda ia nos atender. Estávamos, eu e pequeno grupo de professoras, na portaria da cadeia para nossa aula diária aos presos. A escotilha abriu, mas a porta como logo de costume não. Num rápido de olho e voz, o guarda anunciou que esperássemos, pois iriam bater assunto com um preso. E que nós, continuou, não éramos para o tal espetáculo. Imediato, voz de professora se lamuriou em dor o que estava por vir. E todos nos preparamos, como se também fosse quase um de nós, na espera da tortura. Assim, movimentos de guardas lá dentro ao ritmo do arranjo brutal. Incontinênti, boca se levantou a clamar, implorando ao nome de alguém que não lhe deixasse fazer aquilo. Estavam na preparação, com algemas e posições. A voz repetia para não deixar. Explosões de pancada começaram. No silêncio, só o eco das carnes. Foi-se tudo muito rápido, qual se nós, em manobra poderosa de tempo, o comprimisse num segundo. Escutamos lavagem das mãos como em Pilatos. A portaria se abriu, no hábito burocrático de sempre. Nenhum de nós comentou, num cúmplice de medo e covardia.

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Corpo de aluno chegou bem queimado na escola. Branco, bronzeados visíveis na pele lembrava praia ou trabalhos forçados. Respeitosos, ninguém do magistério perguntou. Porque antes já todos sabíamos. O coletivo prisional inteiro, só de sunga ou de cueca e abaixo de muito aparato de homens e armas, fora posto sentado no chão e de cabeça baixa no pátio descoberto. Veio todo o maçarico do sol e as horas de um dia inteiro.

Jogaram-nos no pátio interno à noite; sonolentos, aos bicos de armas e mãos na cabeça. Como de costume e na ordem, só em cuecas com intensa revista de mãos pelo nosso corpo. Saímos assim e fomos; na fileira por ala e celas. Canos, balas, e máscaras pretas por todos os lados. Já de bundas no chão, nos passadiços altos do pátio bocas de tiro e olhos apontavam. Vozes impertinentes, agressivas e incitadoras puseram-se a bradar, a nos ferir. “Quero ver o macho agora!” Um deles dos guardas, talvez o mais folgado, valente ou medroso, veio ao meio das nossas fileiras a olhar e encarar. Ao esmo, num ponto de ódio tortura e acerto, escolhia um rosto e o levantava no grito. Levado a quartinho próximo tomava uma surra. Jogado de volta ao seu lugar vazio, a máscara do guarda recomeçava a escolher.

“Tira a máscara!” Um de nós gritou. Ao que na comunhão entoamos em coro um “tira” repetido. Nenhum rosto se mostrou.

Na tarde da rua São José, homem desconhecido buscando chamar atenção fala contra a Milícia. São inimigos, diz, numa voz alta porém de certo recuo e medo. Nós, os passantes e ouvintes, entendemos claramente pelo que ele nos diz, que lá onde mora agora é Milícia.

Lembro de um belo quadro de Rembrandt*. Como também de que já escrevemos sobre o assunto Milícia. Este, acontecido ainda lá nos anos sessenta na Baixada Fluminense e periferias do Rio. Houve muito medo na época como agora, com um discurso partilhado mas subterrâneo no povo. Mesmo quem os escreve, sente fortes fragilidades.

Falar de Milícia só em lugares fechados e com bem conhecidos. Às vezes a meia voz, com olhares aos vizinhos por perto. Por outras, melhor nem tocar no assunto; principalmente se estivermos em área dominada. Sentimo-nos, como que invadidos por um exército estrangeiro inimigo mortal. O profundo flagelo provoca calares ou cochichos inseguros. Eis uma nova facção, disse-me o preso um dia.

Notamos também, outras tomadas de posição nas facções históricas com base comunitária; elas não se digladiam entre si mais tanto, disputando espaços. Talvez e certamente efeito de presença da Milícia; melhor, do seu corrente e rápido expansionismo pela cidade, conquistando territórios.

Configurações novas de um mundo de guerra. E com ele nosso muito mais medo junto.

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Nota do autor:

A Ronda Noturna.

Por todas as manhãs os tiros. Helicóptero quase sempre, ameaçador. Sirenes das patrulhinhas rotinas já bem perenes, em que o não ouvir tornou-se em contradição anomalia. Ouço os estampidos com certa atenção. Desconheço armas e seus calibres. Vejo-as obrigatório e às vezes bem perto no polícia, pondo-me em atitudes de defesa, sobressaltos ou medos, como qualquer pessoa hoje na Cidade Maravilhosa*. Na lonjura, e um pouco longa lonjura, os estampidos chegam bem nítidos. Assim penso: o bicho tá pegando no Dezoito*. Aos poucos meus ouvidos evoluíram a ler melhor. Tiros de fuzil agora facilmente identificáveis, os de maior número. Pistolas em uso só em casos de proximidades ou apertos. Calibres 32 e 22 viraram obsoletos, daqui uns tempos brincadeiras de criança, quem sabe. Por vezes, na formação e história das batalhas, leio claramente não a arma mas o esplendor do estampido. Alguns, desses dias, me surgiram bem mais explosivos, com intensidades diferente das outras, marcadas. Nos tempos analfabetos, eu não sabia ainda nem o marque entre bombinhas de São joão e disparos mortais. No aprendizado das escolaridades da vida, passamos aos rápidos ou aos demorados, para um segundo e já avançado nível: entre bombinhas e tiros já sabíamos a diferença. Mas ainda assim, confundíamos ignorante fogos de artifício com explosões de guerra. Num momento de calmaria porém de muito medo guardado, eu e meu irmão fomos vítimas de risadas alheias, corremos brancos e arregalados de foguetes de festa ao meio do dia. A mim custou-me muito aprender algo: as séries. Pois os espaços entre os barulhos das armas e dos fogos são diferentes, distintos. Além do que, o som de explosão das armas são bem fechados, os de artifício abertos. Enfim já uma formação, nos ouvidos da guerra.

Na intensidade dos avanços ponho-me lá. Deu no jornal: helicóptero em rasantes sobre a Cidade De Deus*, despejou tiros e mais tiros em cima das casas e dos barracos, à noite. Acuadas e em proteção, as pessoas se malocavam aos buracos e escondidos como podiam. No instante, todos ali embaixo matáveis e inimigos.

Criado em pacatos vilarejos pobres e de roça, estou em contrário oposto de infância, ao de um menino ou menina crescendo na guerra; na incerteza hedionda e profunda de se amanhã estará em algum lugar, que não seja morto e num buraco no chão.

 

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Notas do autor:

Cidade maravilhosa, adjetivo, hoje já meio esquecido ou irônico, do Rio de Janeiro.

Dezoito, favela da Zona Norte no Rio.

Cidade de Deus, bairro popular.

Não perdemos o fio da meada. E este miúdo ensaio pode não valer nada, somente claro, o trabalho quase nenhum de quem o escreveu. Viemos por onde estamos e isto é impossível não dizer. Mas houve um tempo em que as coisas se degeneraram explodindo ainda mais. Na minha cabeça, ficou o estouro da represa nos finais dos anos sessenta e primeira metade dos setenta, indo pelo século vinte. Por esta época, eu estudante do então curso ginasial, num modo de memorizar para não esquecer, ligo tudo a um fato imediato de vida: quando as formas por turmas de alunos na entrada das escolas deixaram de existir. A formatura escolar com hino nacional e tudo sumiu. Um pouco de ordem já muito precária se entornou de vez.

Ao me verem escrevendo sobre bandidos e carceragens, tacharam-me talvez com alguma razão de louco. Eu também estou preso, à frente vou dizer por quê. Gosto de olhar o mundo pelas ruas. Vendo as pessoas como estão e são. Cada vez mais esbarro com sofrimentos. Com isto digo mais loucuras. Vou ater-me a um tipo ou estado dela cada vez mais numeroso, vindo num desponte a décadas. Em nosso meio familiar já acontecia e acontece, de pequenos, médios e grandes transtornos de cabeça misturados ou envolvidos com religião. Penso até, que sempre estiveram bem próximos, como dois irmãos tão diferentes porém lado a lado. Voltando para casa à noite, rapaz musculoso entrou no vagão do trem por onde estávamos, numa fala de voz fortemente incisiva. De vez em quando, num gesto brusco de afirmação e prova, batia no peito com enorme ímpeto, vigor e mão fechada, que produzia estalos em tons ameaçadores. E eram palavras sobre palavras sem nunca parar, num ritmo de troar insano. No fundo pedia esmolas. Só que numa forma de mistura intensa de agressividade inofensiva. Que não tivessem medo, dizia, e abrissem a bolsa para ele. Como base e pressão de fala, citava ideias bíblicas com fortes teores de condenação para nós. Quer dizer, para quem não o atendesse, não o ajudasse. Assim, negar a ele era negar mais do que a Deus, era negar aos tempos sentenciosos bíblicos. Que já haviam determinado tudo. E ajudá-lo então uma sentença divina. Não vi ninguém abrindo a bolsa para ele. Somente uma jovem riu com escárnio das suas poses inquisidoras.

Não vou enumerar mais casos para não cansar. Mas contando com a colaboração e a quase certeza, de que você leitor tenha os seus por dentro de si. Que afinal sei, na percepção da experiência, como tanta gente vê o mundo comigo. No acontecimento narrado, estávamos num trem urbano de passageiros. Primeiro para enfatizar repetindo-me, que cada vez mais aparecem os tais casos, numa ordem de realidade cada vez mas crescente. E que não existem iguais, tampouco até parecidos. Cada manifesto com a sua forma de dor, embora todos no fundo comum, a própria dor. Nessa diversidade de formas, não estaríamos nós humanos, pergunto eu, buscando uma saída? Como num tatear em procura de portas? Mas parece que por nós a dor está cada vez mais intensa. E então quem sabe também a surdez, a interna e a externa, numa certa verdade de fingido.

Estou numa prisão de social vivente, nasci e moro aqui. A violência pública e a privada cresceram juntas, porque são uma só, nós contra nós mesmos. Os centros de poder como mantenedores da ordem marretam sem parar. A ferro e a fogo. Desde as propagandas oficiais até os tiros mortais das polícias. Sem contar os secretos decididos que nunca saberemos, a não ser na sequência e consequência deles. Todas as amarras e trancas de mudanças estão infalivelmente ainda fechadas. Digo assim e de todo modo, do povo e dos governos. A imposição e a censura secretas ou não imperam, nos lares pobres e nos palácios. Nossa dor pelas guilhotinas aumenta. Não somos vítimas de nós mesmos, tampouco nosso próprio algoz.

17/02/19.

Todos os meus textos se resumem em alcançar muralhas. Identificando-as, e se possível for, objetivo sublime de toda minha vida de preso, ultrapassá-las ou destruí-las. As internas e as externas. Sendo certamente as primeiras as mais terríveis, por tão solidificadas às vezes que são ou estão. Existe algo pior que a cadeia, são as autocadeias. As que no decorrer da vida foram nascendo ou sendo instituídas para dentro de nós. Existem reforços e manutenção delas via coisas e aparatos sutis ou aparentemente tão inofensivos. As mídias, comumente quando centradas nos acontecimentos diários sobre violência, realizam e mantêm esses reforços, introjetando na população culpa e condenação.

Com o inchaço cada vez mais desmesurado, e ainda em acontecimento, do Complexo Penitenciário Brasileiro, houve mudanças ou o acirramento da culpa e da condenação no discurso e ação das polícias. Em nossa juventude como já escrito, pegamos a fase da polícia reprimindo e dando como vadio e assim imprestável e perigoso, todo e qualquer jovem de periferia visto na rua, sem uma atividade legal visível ou comprovação documentada de estar empregado; o tempo da vadiagem. Aparentemente desaparecido, este tempo na verdade recrudesceu; melhor, se desdobrou em outras coisas. Em áreas periféricas bem marcadas, notadamente favelas e bairros pobres, a juventude vive num constante mundo acuada pela polícia, e sendo tratada quase sempre antecipadamente como já bandida. Vestimentas e cores da cultura local, mais a estética do corpo, um cabelo louro numa pessoa negra por exemplo, servem como indícios de alta suspeição e provas. Na minha juventude, os homens da lei numa blitz, desconfiaram muito da barba grande que então eu garbosamente ostentava. Sem que se dissesse um não, o nome favelado foi adquirindo em nosso meio social significado cada vez mais negativo. E esse negativo na sua mais baixa acepção desumana. Existiu uma frase tão em voga, mas que cumpriu seu papel histórico denegridor: você não mora, você se esconde.

O tempo do calendário escolar aumentou. Antes, os jovens e as crianças dispunham de quatro meses de férias escolares anuais; três no verão, de dezembro a fevereiro, com aulas em março, mais o mês de julho. Agora, férias só no mês de janeiro mais a metade de julho. A idade mínima para ingresso na escola, que antes estava nos sete anos, baixou para até três. A criança e o jovem perderam muito dos seus mundos livres de formação. Tínhamos anteriormente às vezes saudade da escola, quando hoje ela satura, alunos e professores.

A autoridade da polícia brasileira para matar, aumenta cada vez mais, inclusive velhos e crianças.

A palavra obediência em nosso meio social, que já se encontrava afixada à educação, isto é, é educado quem é obediente, se afinou ainda mais, tornando-se uma da outra, educação e obediência, sinônimas. Errar afixou-se a pecado e este à alta culpa. E com isto, o direito ao Céu ou ao Inferno subordinados ao movimento das mãos e da cabeça no decorrer do dia. A religião tornando-se ideologia de dominação.

Muitos de nós não temos nem facção. Mentirosamente lá fora, na rua, circula que somos só uns amontoados de bichos. Mas não. Cada cadeia possui seus modos, preconceitos e preceitos morais, formas de vida grupal. Ainda assim, com mais ou menos nuances de diferenças por celas, alas, galerias e comarcas. Os corpos e as almas definem, no decorrer da vida e das relações. O que pode existir e realmente existe, é um pano de fundo, um alicerce, uma base, de acordo com a facção ou grupo e suas normas e estatutos. Por incrível ou impossível que possa parecer aos olhos de fora, nalguns ou muitos lances somos mais organizados que eles. Isto porque no fim, pelo menos os sensatos e nós aqui os temos, queremos e lutamos pelo nosso bem. Ainda, como em qualquer lugar, as ordens e os hábitos grupais e individuais são facilitadores das e nas rotinas. Um campo geral que nos ajuda e nos mantém. Somos vidas. O irradio desse campo nos espaços entre nós, auxilia quem chega nas grades e fica mal; funciona como um remédio pelo ar, pelas bocas e olhares. Nessa etapa de inferno que é uma e qualquer cadeia, todos nós queremos sair dela vivos. Quem pensa do povo que nunca viverá por aqui, em uma cadeia, pode estar redondamente enganado. O futuro só o Destino sabe. Ou, como no dito, a Deus pertence.

Mas como dissemos lá no início, muitos de nós não temos nem facção. E soltamos agora por quê. Cada unidade prisional possui seu seguro. Ou seja, um lugar separado em que ficam, geralmente por solicitação do necessitado, os presos rejeitados ou que correm algum perigo de vida, por quebra ou desajuste nas normas por onde estão. Não se adequaram ao meio coletivo, dito por assim dizer, normal de uma cadeia.

Conheci prisão só de seguro. Unidade com coletivo ressegurado de pessoas vindas de seguros de outras cadeias. Assim, seguro já de seguro, desajustados duas vezes. Nomeados aqui fora de “Povo de Israel” pela situação de exílio, expatriados, nunca li uma nota de jornal sobre eles, pelo menos o nome sequer. Talvez jamais descobertos, e assim nunca vistos.

Alguns de nós sabemos ler e escrever, só que quase nunca podemos nos mostrar. Num certo tempo já de renascimento tardio por dentro das grades, algo vindo daquele meio-escuro aos meus olhos já clareavam. E por mim talvez já estivesse mais atento. Quem sabe até um pouco mais sábio ensinado por eles. Fugindo então e negando todo o acadêmico escolarizado e imposto introjetado à alma, eu buscava alguma literatura por ali, vinda dos corações e mãos dos meus amigos ou de quem viesse. Hoje, tenho uma certa consciência, de que minha figura de professor tenha espantado coisas boas. Pois que alguém interno, gradeado, certamente quis mostrar-me rabiscos, poesias ou quem sabe uma história valiosa. Mas a aura de sapiência superior, criada pelos outros ou imposta pelo próprio mestre espanta e até mata, sendo esta última sua honrosa função. Coisa que sempre eu evitava produzir, sendo bem certo em momentos impossível, inevitável.

Num outro tempo adiante, nos meios escolares das prisões mostravam-me redações. Estas, geralmente participantes e ganhadoras de concursos promovidos por órgãos oficiais. Nas redações duas vertentes ou linhas de raciocínio meus olhos encontravam. Não obrigatoriamente juntas, mas quase sempre em produções textuais diferentes. Uma vertente, maior e mais presente, mesclada com doses fortes de sentimento de culpa do autor, era servil, aquiescente, buscando uma conformidade o mais encaixada possível com a fôrma e o poder da ideologia do Estado, da república; me produzindo por dentro um forte sentimento de ojeriza e  nojo. Ojeriza e nojo certamente pela servidão voluntária da alma que a escreveu. Ou quem sabe, aquilo ser uma original trama de fuga de quem a compôs. Antes porque todos de nós queremos sair de lá, fugir. Havia muito de uma amostragem nos textos, de sabedoria ou aprendizado escolares. Seguindo, a outra vertente vinha com desconexões de frases por vezes impossíveis de entender; e nalguns momentos com esboços ou tentativas de encaixes lógicos. Nesses e em todos os sentidos, as frases que escrevemos sempre nos mostram ao mundo por dentro; e nessa vertente citada os distúrbios da nossa alma.

Desculpando alguma digressão voltemos. Mais do que as redações visíveis e ou invisíveis, existia e existe por lá nas grades a vontade de dizer, de escrever. E isto, esta vontade, bem mais que os escritos, era o que eu buscava não só ver, mas na felicidade degustar, viver. Encontrei barreiras descomunais quanto a isto. Sendo a que mais se pôs, porém talvez a não mais perigosa, os concursos de redação. Que na base são isso: “olha gente, nós permitimos a eles, os presos, escreverem, fomentando a literatura!” Porém, o que de mais duro e perverso havia, era e é algo que eu também trazia, isto é, levava para os internos no meu corpo: uma certa proibição altamente muda e invisível, nascida nos bancos escolares, ou pelo menos semeada neles.

Profundo, mais do que me incomodou em todo meu aprendizado e vida de leitura, foi uma ausência de identidade, de identificação. Havia e há uma altura, uma ladeira inacessível, proibida, entre eu leitor e os mundos dos textos que me batiam aos olhos. Fossos e distâncias. Pobre por aqui não sabe ler nem escrever. À esta máxima nossas mãos se contrapõem, sempre. E assim a Sorte e o Destino me presentearam por dentro das grades. Um poeta jovem e extremado me apareceu. Ao amanhecer e abertura da escola, vinha-me ele com folhas abertas, feliz e pronto a recitar. Mais do que o escrito lido ficou-me seus gestos, sua postura. Certamente a solidão de sua cela na madrugada, em alma de liberdade por outros mundos. Que logo depois seu rosto de pura beleza me oferecia, me declamava. Objeto amado do qual jamais esquecerei.

A escrita prisioneira teve os seus lá foras. Garimpando encadernação rápida e barata, andávamos cansativo e meio a esmo. Que para registrar nossa primeira publicação, a Biblioteca Nacional a exigia em volume com capa dura. Assim, a intuição nos levava a prédios velhos do Rio Antigo, próximos ao Largo de São Francisco e à Praça Tiradentes. Até que finalmente a encontramos. Aquele tipo de oficina em desaparecimento mas ainda tão útil, de vários consertos e produções manuais. A escada lúgubre do século anterior nos conduziu a um alto e meio escuro andar. Na falta de luminosidade não vi bem, mas vários operários trabalhavam sobre bancadas mexendo coisas. Pesquisada a encadernação de Outras Cadeias acertamos o preço e a hora, voltaríamos duas horas depois. Esgotado o tempo de espera fomos afinal pegar o embrião. Para nossa surpresa, o grupo de operários da oficina veio que respeitoso e admirativo ver, saber quem o autor era, seu rosto, seu olhar, seu modo de ser. O grupo, as mãos que manipularam as páginas encadernando-as, leram algumas coisas delas, os murmúrios nos passavam isso. E tudo enfim como se aquilo, uma breve história sobre Bangu III, fosse e era para eles uma voz proibida e negada, porém intensamente bem vinda por ansiantes esperas. Desejada.

Feito o certidão de registro na Biblioteca Nacional, corríamos inseguro e sem muito saber sobre impressões e gráficas. Uma tarde escolhemos aonde ir por um livro que nos agradou e anotamos o endereço. Chegado dias depois ao anotado, entramos por imenso corredor até o escritório. Sim, disse-nos quem logo nos pareceu o dono, Outras Cadeias poderia ser impresso ali. Feitos os prévios, olhares e conclusões, acertamos o preço e lá fomos nós. O embrião já de capa vermelha entraria às máquinas e nos sairia multiplicado por mil. Passados alguns dias já antes em acerto, olhos ansiantes de graça como a se ver o primeiro filho, foram verificar umas provas. Sem delongas autorizamos rodar, que o caminho do depois em história de livro publicado, nos punha em angústia de pressa. Nesta entrevista das provas, o chefe da oficina das impressões estava lá, junto de nós. Lembro vagamente que veio mais um operário com ele. Pessoas com corpo e alma de comunidade, trataram-nos o tempo todo como um escritor querido e admirado. A voz escrita do livro fora ouvida por suas almas, por isso elas estavam ali.

Tudo concluído e à mão, com os mil exemplares empilhados em casa, resolvemos por bem e aos receios e segurança de alguma inveja odienta, que poderiam em fofocas espalhar patrocínio de facção, exigir uma nota fiscal de serviços gráficos em nosso nome. A transferência de valores da conta bancária serviria-nos de suporte e prova. O serviço já estava pago. Feito o pedido da nota e chegando ao escritório da gráfica, para nosso desencanto e surpresa fomos tratados como um ser altamente indesejável e perigoso. Sem que nos permitisse entrar e sentar como houvera antes, o burguês dono da gráfica com olhos faiscantes de muitos ódios, passou-nos às mãos um tosco e mal escrito recibo, como se essas mãos que o pegavam fossem de um sujo e repugnante ser.

Absorvidas as dores da agressão sofrida, nossa mira de alma nos avisou o certeiro do livro como um tiro bem dado, bem acertado. Que o furor inesperado do proprietário da gráfica, ao simultâneo da graça e admiração dos trabalhadores pelo Outras Cadeias, nos situaram os olhos e as mãos. Era a voz que precisava de sair, pelo menos num começar.

O coletivo mudou, disse-me o guarda, agora não é mais Vermelho*. Bateu o cadeado às minhas costas deixando-me sozinho preso e se foi. A grande ala estava morta, nem um pio sequer. Só penumbra no ar, como alma assustadora em espera. Os passos quiseram e fui. Deslocado, eu entrava como em outra casa sendo a mesma. Agora havia um desconhecido à frente. Deparei com galerias vazias. Todos os presos recolhidos às celas, num certo mutismo assustador. Lembrei-me num cemitério. Aonde está a vida, o coração palpitava, e perguntava. Sem ninguém visível, afugentei o mal-estar pelo meu grito: “coletivo! Escola!” Em altos brados à galeria. Ninguém. Insistente fui passando às outras. Nem um rato corria assustado. No fundo da ala, já na escola, tentei fazer algo, arrumar papéis, ao menos fumar; nada consegui. Um mundo se perdeu e eu tentava resgatá-lo. Bem antes, ainda no choque da entrada, endireitara-me ao corpo e me recompusera. Mesmo sem os amigos vermelhos de sempre a vida seguia.

Repeti-me no dia seguinte. Galeria por galeria fui chamando e nada. Pistas vazias. Na quase última pequeno grupo ao fundo. Chamei chamei e não quiseram chegar. Por mais que eu gritasse professor e escola, só olhavam, sem responder. Descobri um próximo e estendi-lhe a mão. Eu era só um professor, ele podia chegar, disse. Meio arredio ainda, e distante, o preso cumprimentou-me. Porém logo repreendido pelos demais ao fundo.Que ele cumprimentava o inimigo, disseram. E assim não passamos desse único momento. Dias depois foram todos transferidos. E a vida jogou-me em outras prisões à espera.

Na Sá Carvalho* tempos depois, aluno corpulento, bem malhado, contava-nos em aula desejos e histórias de guerrilhas, selvas e fronteiras. Sua próxima empreitada logo após sair em liberdade, seria perder-se nas matas e pantanais de Mato Grosso e lutar; pulsava por heroísmos. Na contra-dança da fala narrei-lhe o acontecido no III*. Quando estando lá o Terceiro Comando, por mais que eu chamasse nas galerias ninguém respondia. Eu estava lá professor, clareou-me ele, não saíamos das celas nem atendíamos ninguém, com medo do inimigo Vermelho. Também não dormíamos à noite, continuou, pois poderiam vir a qualquer hora possuindo as chaves dos cadeados, e degolar-nos todos. Que mesmo já ao dia, minha voz de professor podia também ser isca.

Mas aquilo de proximidades de facções diferentes e inimigas numa mesma unidade prisional, podia ser um jogo perverso e era. Que eu, e pensávamos em todos nós, jamais nos deixássemos cair. Ao escolher o preso como grupo social de aproximação e vida, sabíamos que o Grande Mal está fora de todas as cadeias. Entrar na Dr. Serrano Neves e encontrar aquele vazio, e não as mãos e rostos amigos de todos os dias e esperas, deixou-me momentâneo sem chão porém nunca sem vontade. Pareceu-me armadilha. E a ala B vermelha era um front aguerrido e forte. Soldado às vezes solitário, nossas pernas continuaram caminhando e de olhos atentos, até encontrarmos uma nova e favorável posição de tiro e de luta. O Complexo de Gericinó, campo de eternas batalhas, nos esperava sempre.

 

 

Notas do autor:

Vermelho, Comando Vermelho. III, Bangu III. Sá Carvalho, unidade prisional Plácido Sá Carvalho.

As imagens me faziam mal. O título sim, me atraíra antes: “Cartas Para Um Ladrão de Livros”; com dois feitiços, livro e ladrão. No catálogo do festival, assim eu não podia perdê-lo.

“Sou gay tá professor”, disse-me na ordem da facção logo no início, naquela manhã quase sem aulas na Muniz Sodré. Não houve avisos nem apresentar, chegou e se pôs. O coletivo amigo já lhe dissera eu. A conversinha fluindo. No seio, ele que só falava, qual depoimento criminal; e era. No fundo, profunda revolta de réu no tribunal; em que a justiça passa, mas só com lacunas. Assim então eu o ouvia. Começou com pequenas revistas antigas mas de grande valor. Olhou na biblioteca pública e elas estavam lá, esquecidas, como se a esperá-lo. Pegou-as e saiu, a segurança não se importou, nem viu. Transformadas logo em dinheiro seguiu em frente e continuou. Cresceu. Já tinha então comércio pronto à espera no negócio dos livros. Assim, só trabalhar e passar adiante, com dinheiro vivo na volta. O mundo das artes dando-lhe muitos lucros. O veio do descaso público lhe facilitava agir, não havia muito ligar. Seu tino periculoso foi descobrir esse veio, e chegar por ele ao grande filão. E o negócio então se avolumou, ele já garimpador de quem tudo receptava. Sócios. Na ordem prisões e processos. Histórias. Porém o que não concordava, me contava o interno ali, era de quem negociava com ele, ninguém fora preso arrolado em penais; mesmo que ditos e identificados porque enumerados. Só ele puxando nas grades e pronto.

Falou-me da luta pelo bem-estar da mãe, por um teto que lhe desse abrigo.

Na poltrona do Odeon meu desarranjo de alma por dentro. Aos poucos os sentidos de que já vira tal filme, crescendo. Mas a falta de encaixe do onde ou em quê, desconsertava. Obrigado agora a assistir, fui vendo a história, deixando o olho receber. Despertei na paisagem visual. A vida na tela se apresentou sem aviso, no contínuo do desenrolar. Fez da Cinelândia Gericinó, na grade da Muniz Sodré. O documentado preso já conversara comigo. Clareou-me no cinema coisas que não me dissera em cadeia. Porém o básico da sua revolta, de incluir também seus ricos compradores nos processos mas em vão, veio inteiro nas duas versões, na tela e no real. Nisto eu já era do filme, alguém que reencontrava um parceiro de cadeia na liberdade, só que em pura imagem.

Perto do fim, o depoimento hipócrita do delegado federal, fingindo revolta pelo impedido social de prender os sócios de Laéssio, deu-me nojos de alma na poltrona.

Logo após a sessão houve debate com os diretores. Nos pomos assim a conhecer-nos. Eu professor já ouvidor da história, e eles, os realizadores. Que disseram para nós a tentativa impedida, de mostrar nos finais da fita os nomes dos compradores do ladrão de livros, a parte patrão do negócio. Receberam pela tentativa, disseram-nos os dois diretores, ameaças de processos e mais. Ou seja, a porta que não se pode abrir; só falsamente como agora, nos dias que escrevemos.

 

 

Notas do autor:

O documentário “Cartas Para Um Ladrão De Livros”, foi exibido no Festival de Cinema do Rio de Janeiro de 2017. Tendo como protagonista Laéssio de Oliveira, o “ladrão de livros”.

Recentemente, em 04/12/18, o jornal O Globo publicou em destaque no segundo caderno, um pouco da história de Laéssio.