O helicóptero chega todo dia, já nosso trauma imaginário, pra vigiar ou matar. Ou os dois ao mesmo tempo. A vida pesadelo por cima. Nos fabricam animais miúdos a eliminar com venenos de metal. Mudados a insetos por já nascermos insetos. Quem está pelo céu se acostumou a nos ver esta coisa, nunca mais gente. Escrevo como eles pensam, agem e nos destinam. Engolimos balas e guerras entre nós mesmos; este nós nacional que nunca existiu. Em contradito assassino de que o outro brasileiro não é da minha mesma nação brasileira. O ser e o nada. Coisa alguma num assim desse falto dá certo. Nem Deus querendo, nem os tempos, nem nada. E eles de cima puro demônios.

Segunda bem manhã os tiros me levantam da cama. Imagino logo em dizer os estrondos; as séries marcáveis, as rajadas e os que saem a esmo. Mais um pouco de sentir e ouvir, pergunto se dariam pelo menos uma valsa. Não. Venho logo na mesa tentar escrever. Falta o motivo ou esteio pra contar a história, desses estampidos de acordar.

As casas. É preciso acertar quem de lá, delas ou de cada beco qualquer. O governador de Estado brasileiro manda toda hora matar, mais e mais e muito mais. Eu penso em tirar um silêncio mas os tiros não deixam. A vida de quem está no poder pinta cada vez mais mortes e intensa repressão. O dedo da polícia aperta e mata, configura o horrível nas cores da Dor. Cada arma com farda faz seu risco executor mortífero na tela da vida, que o alto do comando mandou. A imagem de um quadro Goya: Os Fuzilamentos de Três de Maio. Do homem em pé braços abertos, em pergunta de por que, clamando eternamente por um Não. As armas nunca lhe ouvem. A vida na favela entrou assim numa tela, pintada pelo espanhol e não por mim. Os tiros atravessam em meu corpo longe, sem me atingir. Melhor, matam-me, também sou gente. Por baixo no asfalto pelo trânsito a cidade segue. Parece que nem nada se deu. Só um fato a contar do tiroteio no morro, a chapa por lá esquentou. A crônica oral pelas bocas momentânea documenta. Nada ela pinta de novo porque não se pode mudar.

A periculosidade é somente atributo e capacidade dos sábios, lição de convivência.

Não sei por onde começar nessa frase-clichê, mas vamos lá. Advogado escritor em conversa de tabacaria, afirma-me meio se perguntando, que professor ao trabalhar na cadeia é um elemento blindado. Na hora, tentando esclarecê-lo ou responder, disse do carro roubado da professora, mas logo devolvido horas depois, por os ladrões haverem descoberto provas certeiras de que ela lecionava em prisão. Um maço de testes escolares estava no carro, de alunos bandidos. Este episódio já está até repetido, empobrecendo a crônica, mas vale como descrição do gesto em um cosmo específico, o carcerário.

Por várias vezes, e durante períodos meio longos, alguns do crime tinham medo de mim. Olhavam-me junto na cela com olhares de quem eu poderia assaltá-los ou até matá-los. Um e outro tão horrorizados que me surpreendia. Certamente um dado de alma meu ou minha história nas grades davam-lhes total razão. Eu era professor, mas antes pessoa. Nisto, podendo ser uma ou outra coisa e, até várias ao mesmo tempo, em transmutações periculosas. Confesso que nessas transmutações alcancei objetivos sublimes.

Voltemos ao advogado escritor. Professor dentro das prisões não é blindado, é respeitado. Só pode ser bandido pessoa. Não esqueço frase lapidar de um parceiro de cadeia que me disse, já mencionado em outra crônica: “professor, eu não preciso do seu medo, preciso do seu respeito.” Nossa parceria foi tão alta, que às vezes ele já me contava junto trabalhando na rua, provavelmente assaltando banco. Este também um dos sonhos meus.

Ao encarcerar-me nas prisões meu espírito logo avisou: prepare-se para chorar muito por bandido morto. Mais que o choro e a morte, clareando-me o que lá estavam como estão. Só que então a vida e a alma me fizeram; chorei porque amei mais por um amigo morto na cela, do que por meu pai e minha mãe. Fui amado no crime em surpreendências intensas. O campo estava sempre minado de circuitos, contatos, explosões.

Sou alma eles bandidos também. E assim nos igualamos numa tirada de mundo só. Sigo Jean Genet, que foi bandidinho de rua, condenado, garoto de programa, dramaturgo, poeta, escritor e homossexual assumido. E ainda por cima em polipericulosidades misturando tudo o que era; nascentes de uma pessoa.

Alguém me chama professor na padaria ao lanche. Faço atenção a olhar. Rosto me sorri acabrunhado. Para abrir conversa diz palavra chave, nos víamos na cadeia. Passa pela cabeça ex-aluno. Eu fazia empréstimos, clareou-me um homem de tez meio escura e ares de roça no rosto. Veio memória pessoa entrando ou saindo pelas portarias atrás de guardas, a preencher fichas de consignados para já muito endividados. Estava acompanhado. Ela é fisioterapeuta lá, disse, referindo-se às prisões apresentando mulher apagada de tudo, sem gota de expressão no vestido.

Por trás dos balcões o comércio são comunidades. Trabalham, mas trazem tudo dos morros por dentro. E é esse tudo que procuramos chegar a falar-nos. E assim, na troca de palavras com os dois das cadeias de Gericinó, o balconista nos ouvia sedento ao silêncio, num lance do que também sabia, aliás muito mais vivia. No gesto de distribuir meu cartão com o blog de crônicas das grades, dei um ao balconista, percebendo ser o que ele já queria. Nosso ver não passou disso, entre eu e o do balcão, mas o que existe é bem mais.

O rapaz do balcão, o balcão e o crime. Tenho um ex-aluno das cadeias de Gericinó, hoje balconista de lanchonete no Centro, que me dá notícias de amigos meus do crime. Passo às vezes por ele, mais do que a vê-lo saber de quem não vou mais esquecer. Reiterando o a seguir mas preciso aqui, escrevo. No discurso separatista mentiroso, amiga nossa nunca compreende como e por que bandidos e trabalhadores se entrelaçam em amizades. Eu poderia dizer-lhe que isso acontece porque somos pessoas, paixões. Mas não sei se ela entenderia. Ou, até se entendesse aceitaria. Volto ao rapaz no balcão da padaria. Pelo seu interesse ao assunto de nossa conversa sobre grades, mais a busca do cartão que lhe dei; na leitura dos seus gestos, interpretei de alguém com pessoa querida no crime, quem sabe até infelizmente nalguma cadeia por Gericinó. E se há uma coisa acertada, é quando chamam qualquer periferia, morro ou favela de comunidade. Palavra de comunhão.

Nos põem presos mas nós somos pessoas.

Um grito bandido riscou entre nós. No centro da aula o cujo se amofinou conosco. E nos desagravos trincou agressivos. Teve quem se arreliasse às defesas do professor; isto não se faz, num balbucio raivoso. Apressado em deveres, não nos demos por tanto àquilo. Mas veio e se guardou. Fim de semana virou um inferno. Pelo da aula na sexta o mestre não conseguia dormir. O caroço por dentro, remoendo. Toda uma história de respeito tornara-se turva, já de não tanto valor; na vida prisional assentada de que na aula quem manda é o mestre. Lição de cadeia e pronto. Emitir o respeito é necessário pôr. E o caroço na segunda explodiu.

Chegamos na lida bandida prontos a acontecer. Que os grandes deles viessem a nós, ao modo de se resolver. Mas no descontrole do ódio a intriga se escapou. A guarda-cadeia soube da ocorrência na escola, do irresolvido posto. Hora então do poder aparecer e rechaçar. Ante isso tudo porém, nossa vontade era só um em conversa e pronto, que nos acertaria. Pois que antes já resolvêramos coisas mais emboladas, quase terríveis no III. Houve assim por então soluções a três: nós, bandidos e polícias. E tudo acertado se pôs.

Deu-se também um de mais algo. Após o tudo e o resolvido, o arreliante da aula passou a esperar-nos às manhãs pela boca da cela. Que ao desagravo feito, respondia por nossa vida cá fora e lá dentro. Nada podendo nos acontecer, em dito de facção. Senti um leve pesar mas deixei-o cumprir, sem levezas ou contrabando.

Agora o que nossa vida cresceu dessa crônica toda. De que entre os de fora e os de dentro, livres e presos, o que existe e só pode existir são coisas humanas; para além e furando o socius de seguros e submissos repressores, desnecessários e hipócritas, do guarda. Nossa intriga então nos igualou. O raivoso aluno ao pôr-se em desagravo com o professor se emancipou do preso. Posicionou-se ao de pessoa que todos por lá nas cadeias são. Que ainda, por marca ele pupilo ficou-nos; na atitude sua de grandeza o de soltar-se por entre as grades. No dizer-se.

Notamos nalgum tempo uma coisa; e vamos buscar dizê-la. À medida que aos poucos, talvez de forma incipiente ainda, o sistema carcerário começou a dar sinais e a conceber gestos da sua gigante expansão, a qual nos encontramos agora, eles não vieram sozinhos. Ou seja, a explosão das grades surgiu no interior ou junto de outros crescimentos. Assim, observamos sobretudo o inchaço da legalidade, tornando-se ela a base principal do bem social. A mudança, meio que brusca, dos já baixos níveis educacionais ainda para pior, principalmente nos estratos mais pobres. Hoje, a realidade do magistério público e privado das escolas do povo, encontra-se num certo analfabetismo mero copiador de livros didáticos. Junto com a legalidade já mencionada, certamente objeto principal dela, um recrudescimento cada vez maior da repressão via proibição. A intensidade do sentimento de culpa direcionada à população deu e dá passos largos. Espaços religiosos brotam contínuos e mais castigadores. Os modos mentirosos de vida, em consumos-só-propaganda e interdições às vezes contraditórias, mortais, são o norte do bem viver. Capas falsas ou enganosas de direcionamentos salutares mascaram.

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Durante todo nosso processo de vivência nas cadeias e também fora delas, fomos e somos não à toa e sem sentido, um reles presidiário comum. Certos momentos passei e passo por oscilações social e de personalidade. Preso ou não preso, repetindo Hamlet, eis a questão. Vemos e sentimos como estamos aprisionados num “mundo livre”. As prisões são também outras coisas…

“Uma gota no olho doente; só uma gota, tá professor?” Disse-me. Aos poucos chegou na escola e foi se entrosando conosco, o corpo docente. Viera escolhido e indicado pelo coletivo prisional. Houve momentos tensos e quase trágicos que quiseram tirá-lo da escola. Ele não era um grande periculoso, de muitas façanhas lá fora na rua. Portanto, por essa tão baixa periculosidade, ser um apoio da escola julgado algo imerecido pelas lideranças-guias. Mas no vai e no vem, no sai e no fica, ele foi ficando, e crescendo entre nós. Eliminou toda a barafunda da burocracia escolar arrumando os arquivos. Colocava os materiais didáticos aonde deveriam estar, facilitando nossas mãos. Pareceu-me, e passou a ser, como um funcionário público só que funcionando e bem. A provocá-lo em humor, dizia-o de vez em quando meu chefe, meu coordenador escolar de todos os turnos.

Passante já de várias cadeias, como me dizia de vez em quando, aprendera e se aperfeiçoara em muitas coisas. Numa delas fora apoio da sala do médico, organizando atendimentos e auxiliando em tudo que preciso fosse na saúde. Descobrira eficácias estranhas ou incomuns de certos medicamentos. A grade não é um espaço livre de rua, assim, bem mais cheia de lacunas sociais com enormes necessidades. Havendo então o nascimento e prática de uma medicina alternativa, que aos poucos se firma como fatia natural. Conceitos e mundos estão sempre a fluir. Na falta então ele medicava presos; o precário da mão podia curar, e por vezes curava. A noção de remédio inventada pelo disponível, pelo acerto. Uma ação e poção de mágica podendo ser anestésica, curativa, salvadora. Medicina não é só um diploma, uma ciência ou faculdade.

Meu olho andava doente e a mão da doutora não o sanava. Receitou um colírio e o micróbio resistiu, até avivou. Aquilo de olho inflamado me torturava todo; um pus mais uma coceirinha impertinente. O bichinho comia a córnea, senão até outras coisas. A química da bula não seguia Hipócrates pelos contrários. Voltei na oftalmo pela segunda vez reclamante. O bichinho persistia feliz, disse a ela. Cuidadosa, jogou-me outra poção venenosa pela receita; mas com muita precaução. Depois de quatro dias de uso jogue todo o colírio fora, e até o esquece; a dizer-me de um cegueiro perigo. Laboratório cura e mata. No segundo dia de gota ocular e medo o micróbio se mexia, na resistência da vida, do querer viver. Num gesto da medicação no banheiro lembrei-me da frase já de algum tempo: “uma gota no olho doente; só uma gota, tá professor?” Referia-se o preso-curandeiro à água boricada. Consultada minha consciência e o histórico da razão, pinguei uma gota da receita do preso na córnea ruim. Cinco minutos, e o bichinho-coceirador já não se mexia mais.

Estou da rua para casa; no lusco-fusco já meio escuro da tomada do mundo pela noite. Na quase esquina erma ouço passos, no cego de não saber de quem ainda não dobrou o ângulo vindo. Olho que vou ficar espremido ao cruzar, entre o desconhecido e a árvore. A zona livre entre eu e ele sumirá, destruindo-me as chances de fuga. Em falsidade de gesto a disfarçar o medo, fixo atenção para um alto de prédio em frente mostrando distração; minha máscara daqueles segundos. Surge rapaz magrela com uma das pernas enrolada em gaze, como uma meia longa. Denota claros sofrimentos, mesmo nos instantes do meio escuro. Percebe meu fugir indo para o meio da rua. Passados dois passos solta-me boas-noites efusivas e muito cordiais; a contar-me claramente que eu não tivesse medo, ele é um amigo. Num ímpeto de também cordiais em busca de igualdades, explodi-me por sinceridades talvez já tardias ou ultrapassadas. Eu também amigo, tentei dizer. Não sei se atingi algo de sua alma. Dele recebi um duro golpe de pura comunhão.

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Num ponto de pequena segurança da cidade, o de ônibus, conversamos por início de motivo qualquer com quem está ali conosco; conhecidos e meio, como até os não. As falas saem ou se liberam, nunca sem grandes contenções, ao discurso mais tateador como olho de cego ou coisa de adivinho, do que livre. Há sempre um pé atrás nosso, cada vez mais atrás, no restrito bem antecipado do medo. O não saber quem é o outro medra-nos. Assim, como num jogo muito perigoso, esperamos todos para saber quem dará o passo mais ousado na conversa, dizendo o que ansiamos falar e ouvir, mas tememos, na comunhão dos saberes e das trocas. Soltar a língua está cada vez mais lúgubre. Nosso medo cresce, e com ele muito mais falsas intensas coragens.

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Na saída do metrô na Carioca, vitrine de livros da Almedina agarra minha atenção ao prazer de ver e descobrir saberes. Casal diante dos títulos na calçada atrapalha-me um pouco. Educado e cuidadoso busco posições de livre leitura. A mulher, ao olho no celular vendo mensagens, em brusco toma-me por ladrão; volteia e recua aos medos de perder o aparelho. Meu gentil social nada lhe diz. Passa-me por dentro mas me contive, a mensagem de viva voz de quem nem usa a merda daquilo: um celular. Fiquei depois a ler revoltado o episódio, de desencontros e cegueiras.

Aos urros e turros o diretor da cadeia explodia. Saía da sua sala. Homem inseguro, vulgar, de voz agressiva; o mundo parou apreensivo em espera ao ouvi-lo. Os movimentos das pessoas que o percebiam tornaram-se lentos, e sem barulho. Os ataques ditos a quem o escutava, dirigiam-se a uma terceira pessoa: a enfermeira da carceragem. “Aquela negra burra e sem cuidados!” Vociferava entre outras mais. Na escuta pelo refeitório próximo, em máxima atenção, busquei ver a causa de tanto alarido aos ventos. Ei-la. A enfermeira dos presos num descuido, permitiu que o lixo infecto fosse recolhido e seguisse no caminhão, misturado ao lixo comum. Nisto, pondo a cidade num risco de doenças pegajosas e algumas até mortais. Lembremos, cadeia é um ajuntamento forçado e superpopuloso de pessoas; com origens, histórias e higienes diferentes; num espaço sem sol, quase nenhuma ventilação, e por vezes ausente ou precários cuidados. Ainda, com descasos torturantes e muitos deles mortais, pois nas prisões brasileiras doença e fim fazem parte das penitências.

Pelo acidente infectoso ficamos preocupado em espera. A enfermeira culpada, carinhosa comigo, colocava-nos em sobressaltos cuidadosos para com ela. Minutos pesados e tensos depois, tivemos, eu e ela, um alívio. A acusada de crime ambiental desatrelou as amarras. Às faxinas na enfermaria, disse-me, colocara o saco do lixo à porta pelo lado de fora. Sem que ela visse, um guarda da segurança recolheu o embalado infecto, e pensando tratar-se de lixo comum, o entregou ao preso encarregado do transporte até o caminhão, no pátio interno. Mas na atenção e ético, ele, o preso-faxineiro, ao perceber que o que estava ali: seringas usadas, sangue e muita gaze suja; separou num canto sem ordem de ninguém o saco do perigo mortal, impedindo-o de seguir e contaminar o comum geral. Pois também sabia, pelo grave do risco à saúde pública, que o dito lixo era recolhido por gente preparada, e transportado em veículo especial.

Descoberta a quebra do assim quase acidente, notamos um certo silêncio com uma espécie muda de negação. Pois diante do lado onde o estabelecido diz e mostra só ter o Mal, houve um barulho do Bem.

Cadeia no início sempre me parecera normal, em que as pessoas entravam, cumpriam pena e depois saíam, com um tudo bem. As conversas nossas, os olhares, nos diziam isto; melhor, nos convenciam enormemente com a capa das convenções sociais. O fato de às vezes encontrar tanta sujeira ou falta de luz, eram encobertos por um cumprimento, gesto ou ordem de serviço vinda de alguém. Aquilo, aquele amontoado de prédios, e antes deles as muralhas encobrindo tudo, dava-nos mais que uma sensação, a realidade pura de que o mundo é assim. Bastando-nos viver nele e pronto.

A sensação de que cada um saindo com o papel branco na mão escrita sua liberdade, escrevia no meu olhar que aquelas mãos jamais voltariam, sem pôr os pés na estrada nossa de todos os dias. Certas manhãs, rostos colados nas grades vendo-nos chegar, o grupo ou alguém isolado do magistério, lembrava-me nitidamente crianças livres inocentes nas grades de algum quintal. As celas e galerias, sempre me deram a paisagem de vilas, de moradias normais. As alas, cada uma por si diferentes, me faziam sentir numa pequena avenida ou rua interna de qualquer cidade.

No fim, até a chatice desconfiada da revista da entrada pelo guarda, fazia-me viver como um contador que faz as mesmas contas e frases. Nos momentos talvez mais visíveis, e dizer aqui que o eram seja mais uma normal mentira, alguém nos tentava parecer que escondia alguma coisa: a falsidade do guarda, por exemplo, ou a aparência da professora, de que ensinava muito. Eu mesmo tinha meus falsos banditismos visíveis, para enganar-nos.

As mais visíveis mentiras eram nossas próprias roupas, que alardeavam ao mundo e a nós mesmos o imenso poder de cada um. Porém, mais mentirosos ainda e infinitos mais, eram os nossos rostos. Cada um deles com uma tintura de máscara pré-pronta para o mundo seguinte. Fora aquela máscara de base, que em cada vida vai se formando, inicialmente com a horrível cumplicidade dos pais, de que todos somos uns santos; ou pelo menos temos a pretensão verdadeira de ser. Ao me colocar bandido, falando e me misturando com eles, eu, sinceramente agora, só falseava; talvez sim, com pequena dose de periculosidade. E quando professor, este tudo, o pior demônio enganador. Um escape de coisa boa, pelo menos útil ao momento, um diamante raro. Mas logo depois esquecido ou destruído pelas boçalidades puras da alma. Vivemos num vão infinito de podridão higiênica, em que um simples cheiro de bosta nos diz tudo, provocando-nos vômitos.

De alguns sujos ou perigosos bandidos por vezes saía algo, porém logo destruído, eles também não eram nada. Um nada que estava abaixo do nosso tudo que vinha de fora, a grande mentira aceitável. Melhor, a quase santidade do mundo. O sair e o entrar nosso, dos professores, mais do que a descomunal vantagem, a crença e a fé de que éramos livres, e eles bandidos não. Figurando então como a magna aula da vida. E nós todos acreditávamos naquilo. Como todos que lá estão o fazem agora, neste justo momento em que os escrevo, e me conto também de mim. Nem penso quem é livre e quem é preso por não dizer nada. Mas ainda então estou sendo falso porque quer dizer tudo.