Naquele almoço o bife chegou muito mais verde num amargor intragável; com feijão casquento, arroz grudento e cru. As coisas sempre decaindo, a mandarem cada vez mais venenos às nossas bocas encarceradas; num movimento de menos custos e assim mais lucros, para quem fazia as gororobas dos penitentes. As tripas a suportar. Tudo no conceito básico de que ali aonde estávamos, não passava de odienta maldita prisão, com muitos negros favelados e outras cores de mais pobres ruins.

Já na vida em alforria, vejo que a indústria e o comércio fazem as mesmas coisas aqui fora, iguaizinhas como com a gente nas prisões. Agem ao mansinho e quando preciso com muita mentira, mudando e nos empurrando às barrigas, tudo cada vez mais da mais baixa qualidade. Nesse universo, meu gosto lembra de um arroz agulhinha, que em nossa infância antiga qualquer boca do povo o saboreava com feijão; hoje, o mesmo arroz agulhinha em miúdo pacote de meio quilo, tem o preço de cinco quilos do vagabundo que agora comemos. Por vezes vejo a multidão como manadas ao cocho, conforme as ordens dos donos. A cancha malandra no mundo livre é a mesma das prisões, este o nosso consciente.

Mas cego, o povo no preconceito nos condena a uns meros exigentes vagabundos sem moral, mesmo nós bandidos no grito de coisas de primeira necessidade para qualquer pessoa simples se manter. Não percebem as cabeças ou aceitam submissas, que maquiados pela propaganda, receitas e embalagens bonitas, os esquemas de aumento de lucro pelo diminuir da qualidade dos produtos, se gananciam cada vez mais ao infinito. A prisão pode estar também aqui fora. Relembremos: há um foco de jocosidade com toques irônicos de luxo e riso, insuflado pela mídia, direcionado ao preso. Assim como certas e muitas bocas-demônio perguntam bem alto a crianças pobres, se vão à escola só pela merenda.

O show. No tal almoço do verde e amargo bife de fígado houve uma festa nossa. Sabíamos que o diretor da cadeia estava lá no fundo da carceragem resolvendo coisas. Assim, num gesto coletivo bem combinado, esperamos o homem voltar para sair pela ala, com nossas bocas de cela dos dois lados. Quando no seu terno limpo e bem passado o crápula veio vindo, fomos acertando em cheio nossas quentinhas abertas com comida nele, numa chuva de lambança, espetáculo e muito ódio nas mãos. Pondo um homem barrigudo e higiênico neurótico a se abaixar desajeitado e a correr, sob nossos tiros de refeições podres. Inimigo, ali o número um, jogamos-lhe na cara e na sua hipocrisia da ordem nossos rejeitos. Rimos perversos e aliviados de tudo depois, quase como num instante de fuga.

Catuco ao invisível. Sempre me bato comigo mesmo como começar ou dizer, diante do meu total desconhecimento. Já de início, esse total desconhecimento nos impõe uma lógica de sentido: por que existe este total desconhecimento? Não como uma coisa a ser escondida, mas a ser ignorada nesse silêncio histórico totalizante? Penso aqui sobretudo em nossa enormidade de país, o Brasil, com suas distâncias de território facilitadoras de tudo; de tudo que não se possa imaginar ou acreditar que aconteçam ou existam. Esse real que pela ordem assentada nunca teremos um histórico ou que mínimo parecer dele. Há uma ignorância de olhar implantada; e eu não fico fora dela mesmo encarcerado que fui. Mas por estar nela tento mostrá-la, quem sabe alcançando uma face mínima de atenção.

Podemos falar de escolas mas nunca de prisões; que estas estão fadadas aos subterrâneos do não saber. Melhor, não devemos nem de lembrá-las em nós que existem; a não ser num cisco de pensamento abstrato vago, passageiro e distante. Elas, que quase sempre estão fora dos centros urbanos, mesmo quando próximas são como não existem. Delas, circulam boatos mantenedores de falsas verdades ao meio do povo, para não se deixar nenhum vazio de discurso na massa ignara; pois este vazio, perigoso aos fabricadores de mundo. Mas voltemos ao desconhecido e distante. Nas lonjuras das prisões em interiores de estados brasileiros adentro, vão se formando e assentando universos. As indignidades nascentes e as já perpetuadas, conforme as subjetividades do guarda e de quem está preso; tudo no cosmo criativo do mais sofrer. A grade já define um inferiorizante básico: quem está nela é porque já não presta. Por lá, submissões e resignações ao infinito, tentando inúteis ou não mudar algum jogo relacional maldoso de momento, como também acabar procedimentos mais penitentes em permanência. As explorações sexuais das meninas e mulheres bonitas. Enfim, um campo de ação sempre visível ou não, mas sempre disponível, dos jogos e gestos nas manipulações mais perversas direcionadas ao preso. Quem está na grade não tem voz; e mesmo que grite, quem ouvirá o que não se pode ouvir? Num atônito torturante, as mentes se perguntam num fundo escuro: por quê. Há um holocausto desconhecido e contínuo, que forma um mais secreto mundo por dentro das nossas prisões. Nem falo aqui das salas de tortura que sabemos tanto que existem, mas daquilo que o interno prisional antecipado aceita, pois que já prisionalmente posto; ou seja, que o direito a uma cadeira ou copo d’água são objetos e desejos só dos homens livres. Gritos lancinantes vindos de um garrote ou noites de gemidos por uma perna podre, nossos ouvidos e olhares de fora nunca alcançarão; e assim nunca uma consciência.

“Ele vende armas pra gente professor, mas na hora da guerra é o primeiro a morrer.” – Me disse o interno prisional apontando um polícia fardado ao longe, na penumbra interna da ala na carceragem -. Estávamos recém-saídos de uma rebelião longa, de três dias ou mais. Havia por todo lado um ar de espera, precaução cuidadosa e medo. No dia seguinte ao término do confronto e nossos movimentos de fuga, flagraram em ato, mão polícia jogando pistola carregada pelo chão de uma galeria nossa de presos. Havíamos barganhado ela por um bom preço. Pois sabíamos também identificar os polícias compráveis; geralmente os olhos já diziam, ou um outro gesto identificável qualquer, como uma frase de falsa comunhão conosco por exemplo. E nós, na guerra, já estávamos à espera.

Existe um monopólio de mercado em cada prisão, o da corrupção. Este mercado impõe geralmente uma face envernizada e lustrada de mais legalidade e pureza, numa máscara maior de mundo. Aonde está mais sujo deve parecer mais limpo. É bem sábio que isto está dentro da política nacional brasileira, este modo de parecer. Nosso sistema prisional acompanha por natureza a ordem, o mundo no qual está inserido e é parte. Uma parte que também é o todo. E o mais agravante e pecaminoso, mas básico, está fora da corrupção; um centro fora do centro ou um certo ao redor. A máscara da pureza para existir tem que se mostrar em ação. Assim, muita coisa inofensiva, como um cavalete de pintor, é barreirada na portaria da prisão, não pode entrar. Ou então, num repasse cada vez mais exigente mas altamente respeitado, a grande mentira, a burocracia realiza seu controle e presença calculados de administrar. O olho falso e o documento, este arranjado ou não pouco importa, atestam a pureza da coisa que entra ou que sai, isto é, circula.

Ao receber-me no gabinete, o diretor da cadeia em defesa ou desculpa murmurou fingindo-se amável: “a corrupção do guarda.” Dei de ombros, mostrando que minha finalidade ali era outra, mostrar nossos textos sobre carceragens. O terno impecável que ele sempre vestia era sua marca pessoal de pureza. Que por dentro, quer queira ou não queira, nossa estrutura de Estado possui vísceras podres. Na continuidade e natureza da coisa mesma, da vida, a manutenção de modos e prazeres já está açambarcada e dependente do mesmo corpo que doente a produz. Como um parasita e seu hospedeiro em simbiose natural.

Para os labirintos da Solidão.

O tiro mortal certeiro da polícia no jovem rapaz estava na ordem do dia; a bala não foi perdida, como todas que atingem qualquer corpo favelado ou de pobre. Sobre o caixão costumeiro pai infeliz chorante. A morte nunca pega só um por vez, já mata aos pouquinhos ou a muitos também os que estão no ao redor. A juventude morta daquele corpo quando dentro de casa, já estava antes condenada ao patíbulo da lei. Como a sentença sabiamente não traz nomes escritos, só no instante mortal ou pós ele, sabemos qual ou quem foi o escolhido do dia, da hora, da vida destinada da vez. A palavra jovem, mesmo no singular diz e é sempre um plural. Quem levou o tiro e foi levado por ele, na inserção da vida, na própria vida, era só unidade de um grupo; este mais visível pelas almas e indefinido pelo espírito. Que este o dele que morreu, só pela foto do jornal já chegou até o meu, no grande espírito que se encontra. Mas voltemos ao grupo do já agora cadáver. Jovens amigos do executado atingidos também pelo mesmo tiro, uns ou muitos pensarão em vingança matando um polícia. Num momento das mentes, desejos fortes de entrar para o crime ostentando mortífero fuzil perdurarão. Quem sabe algum pesar secreto mas frágil ou temeroso, rezará por dentro pela mira mortal de um bandido do morro admirado seu; que suas balas bandidas nunca errem corpo de polícia matadora. Crianças do mesmo lugar, se alinharão pela natureza da vida a futuros inimigos de quem os mata, tornado-se até algumas já os cria*. A polícia prepara os criminosos, dos quais ela precisa para viver.

Mas o buraco é sempre muito mais embaixo, como já me disse alguém. Acerta-se no alvo para atingir outros alvos. No acerto de reprimir ou “acabar” com o tráfico de drogas pela polícia, o objeto mesmo são outros nascedouros. É bom sabermos antes ao nos lembrarmos aqui, que maconha e cocaína rolam muito e até por demais, nas festas dos ricos e quartos dos grandes hotéis; nisso, humorista de sucesso segredou-me publicamente, que se prenderem todos os usuários que fumam ou cheiram, nenhuma redação da mídia brasileira funcionará; assim, talvez até nem exista mais hoje notícia ou programa de TV sem pó ou fumaça (cocaína ou maconha). Um parceiro meu de cela, gostava de mencionar funcionária de televisão usuária de cocaína e freguesa certeira sua; imagino que ele a lembrava por ser bonita e terem tido algum clima de namoro. A pressão da realidade nos empurra a fumaças e pós, até naturalmente Freud, que sabia muito disso de drogas e dos nossos demônios internos.

Dito o pretexto, falso pretexto, tentemos acertar aqui o nosso alvo, e este mortal. A vida está também no periférico, no favelado; então este tem que ser reprimido, direto ou indireto criminalizado. Antes o território já o condena. E por natureza as vidas que brotam querem ou podem querer mudar a condição da ordem do mundo. Num canteiro pobre pode nascer uma boa hortaliça. Mas na favela só se deve ser o que o nome favelado já impõe; desembargadores e juízes estão fora daquela ordem favelada, quanto mais uns ou outros diplomatas. E assim, o que os mata porque nos mata é a imensidão do desejo. E se fora só isso, mas não. Se num barraco qualquer brotar a inteligência para a vida, ansiante por mexer no mundo de morte que vive e vê; na ordem, ela a inteligência de favelado de morro tem que ser morta, porque este mundo não lhe pertence.

Nota do autor: os cria, meninos/rapazes nascidos na comunidade que, ostentando fuzil, vigiam e controlam entradas e saídas do alto de pontos estratégicos, geralmente lajes.

Muitos irmãos eu só conheci eles já no crime. Nossa mãe teve doze dos quais morreram seis. Papai lutava a nos alimentar de arroz com feijão. Eu e meu único irmão homem, quase nunca brincávamos nós dois sozinhos. De cores, cabelos e naturezas muito diferentes, cada rosto o de mim e o dele se voltando assim para outros cantos de si e do mundo. Meio inimigos brigávamos de vez em quando. A comunhão parental andava às vezes à força e muito dispersa, quase não existindo mais. Na rua eu encontrava outros irmãos, nas brincadeiras descalças de meninos antigos.

Ao ingressar nas prisões vim de irmandade vazia, sem nunca de rejeições, tatos e cuidados de higiene por avisos. Sempre nos falei natural, evitando ou destruindo falsos tons floreados de voz e de gestos; só na voz, naquilo que nos vem de dentro ou já está intenso por fora entre dois corpos e olhares. A vida nos fazia irmãos por aquelas grades coletivas de Gericinó; e cada qual dos milhares no jeito e gosto se vivendo nela. Uns deles se chegavam mais para mim, como eu também me infiltrando. A delinquência da vida dentro de nós, mas o jurídico não, imposto dos tribunais. O corpo mesmo da vida se nasce sempre sem ordem, por outra ordem, só dela mesma. O mundo sociedade com suas falas de balizas como fraterno, amor, comunhão e etc., nunca se ecoavam por nossas almas e vozes; num sentido éramos mesmos só bandidos. Se um gesto sublime nascia, exercia seu viver e mutação de mundo sem o de ser nomeado. Irmãos sem o precisamos saber.

Depois de dias, meses ou de não sei quandos fui me atendo mais, porque eu todo já estava parental; sem nunca necessitar de quantos ou tão tais; só vistos ou sentidos pela clareza em nossa mente, como em três ou quatro de uma multidão sem fim, na qual vivemos sem nunca sabermos com precisão o de quantos em nós dela; só o espírito indecifrável sabe dizer. Por vezes num pátio e corpos sujos, brotava intenso e gozante d’alma um naco de pureza pelo brotado de uma simples conversa. O sentido de família sumia, vindo outro em seu lugar; melhor e no certo, cada um deles no seu; forças diferentes que nunca se tocam, vindas cada qual de outros seus nascedouros: o humano e o do papel escrito.

Nosso grau de parentesco então se ampliou e mudou, cores e sangues não eram nada noutras cores e de mais sangues. Negros, louros e mulatos na mesma família. Por entre nós assim pai e mãe se trocavam, se mudavam. O parental marcado desmarcado na vivência das alas, corredores, celas, comarcas e bois*. Noutros homogêneos e heterogêneos. Depois e durante todas as prisões por quais passei, não sei por quantas e tais famílias me pertenci. Meus originais de pais e irmãos se foram tudo por outros e águas-abaixo; noutras famílias, fora do insosso desta do aparo do sangue e das normas das leis dos cartoriares.

Boi: lugar dos banhos e das necessidades, no jargão penitenciário do Rio de janeiro, Brasil.

A moça pergunta meu nome. Olha a tela do computador. Esmiúça coisas pastas e arquivos; me busca por ali. Dá um ar de descoberta, dizendo incompleto meu endereço a ver eu completá-lo. Olha o que está diante de si na página acesa sem que meu ver o alcance. Mas ainda a confirmar lê no silêncio e pergunta telefone e idade. Sim bateu; eu era a pessoa que dizia ser, a existência no cadastro-controle.

Vou tão nesse lugar uma clínica, que a tal moça já me conhece um pouco de lá. E se repete toda vez no igual ritual de me ler; nunca acredita em mim. Faço um brio de desencaixe no interrogatório de suspeito, e respondo um exótico de palavra em além; mas sem um abrigo mínimo de algum ouvir. Os pedaços impessoais de mim, nome, idade, endereço e etc., já estão determinados completos.

Nas prisões eu os via entrando ou saindo pelas portarias. Em distância de proteção e higiene como a moça da clínica, o guarda lia silencioso o documento da verdade em sua mão. Feito isto, o ler, e os condenados já em espera prontos cordeiros, citava um primeiro nome com a boca prisioneira do sobrenome completando ao do já lido que está no papel; nome da mãe cantava o guarda e, no automático o interno se dizia. Assim o ritual seguia até o último do grupo prisioneiro. E este duplo de guarda e preso nunca falhava, sendo mundo num dizer social único. O interno já vinha da cela com a fala treinada pela cabeça, na certeza de que um mínimo de erro ou fora o colocaria em suspeito de alguma fuga, logo em mais olhares vigiadores e possíveis castigos; por isso o desse cuidado às indagações do poder pelo guarda. Ele pessoa só sendo os dados dele no papel, e seu corpo e alma ali a confirmar. E é isto também o que a moça da clínica faz, só que fingindo nos precisos sociabilidade e talvez muito respeito.

De casa qual o preso, eu já levo à moça da clínica e tenho na fala em automático ouvir confirmar e obedecer. Como o aprendido por jogos de frases a completar em passatempos de revistas, ou por exercícios escolares infantis de pedaços de palavras e figuras geométricas nos cadernos e folhas.

Nada é mais periculoso do que ler e escrever; exceto pensar.

Bandido não conta bandido; só pela lei o de fora magno juiz, que pode e sabe de tudo condenar absolver. Mas começamos a escrever noutras frases; e nosso olhar importava, pela noção de lugar e de nós. Viemos de um fora para cá a prisão, somos e nascemos um dia. Responder então por que assim e aqui; Como tudo nos foi e está se fazendo agora. Contar-nos pois dessas tão frases sem fim.

A própria letra nos atrai continuar nos escrevendo nela. Romper então todo o sentido, fazê-lo noutras coisas mais coisas falar; além do que já está por montado posto. Escrever. De todo outro modo montar periculoso outros fins; que estes também de mais outros, nas coisas dos nossos dias. Desmontar as linhas com outras linhas de dizer e de chegar. A realidade e as letras.

A literatura em assim surgiu por estas crônicas no blog.

Se a prisão é aprisionante o dicionário é dicionarizante.

Meus anos de cadeia foram pesados e longos. Todos viemos de um lugar, de onde moramos portanto vivemos. As prisões nos tiram de lá, mas é por lá que nos amamos e queremos um dia e sempre voltar. Nossos pares e sangues continuam naquelas vias, becos, barracos, casas aconchegantes e alturas. Por muitos se chamam de favelas. Este, nome que adquiriu jocosidades intensas de mal e gratuitas. Ser ou não ser nesse nome virou uma grande fronteira entre o Bem e o Mal. Mais, entre o Ruim e o Bom, o Bonito e o Feio. Isto, na ação maléfica do mais separar, pelo denegrir escandaloso. Tão de tão, que por vales e sombras, ao nível ou mais da condenação medieval cristã. O poder central de gerenciamentos de mundos possui seus esquemas de distribuição. Vamos aos males práticos então.

Os interstícios das verdades estão cheios de fingimentos; ou seja, de verdades mais verdades plenamente. Os meios de poder e de olhar deixando e fazendo o fluir. Então digo aonde moro usando todos os outros nomes como subterfúgios possíveis. Não posso ser o que pensam: um favelado. E ao tentar negar-me, o que assim nunca consigo, na ótica de que só se nega o que existe, realizo em mim, vítima e algoz, a ação plena da tirania. As artimanhas do domínio.

Por assim tanto dizê-lo, carrega-se no discurso popular todo o Mal imposto pelos senhores e mãos do “Bem”. Se não houvera favela ou favelado lhe executariam por outra palavra a escolher, a inventar. Um signo como palavra pode e transporta o que se quer na função da linguagem. Se sou da favela ou não, eu pessoa carrego todos os meus sentidos. Ao carregar favela e favelado, palavras da língua, com tudo de Mal que possa existir, faço da minha própria boca meu poço de morte; que o poder maldoso dos operantes incita e deixa sempre proliferar, fingindo-se perverso de surdo. No cuidar que está sempre posto.

As professoras nas prisões desejavam mas nunca poderiam dizer. Algumas porém ou todas já vinham de casa, da cama da madrugada, com ele em íntimo manifesto. Que rolando insone aos lençóis na angústia a professora o procurava. Que num pulsar já houvera incontrolável proibido. Pois encostando as partes internas do alto das coxas e esfregantes, vieram-lhe frêmitos gostosos de mais; os mamilos ao toque endureceram. E junto, imagem na cabeça, o rosto e a mão de um querido aluno seu, preso naquelas cadeias aonde lecionava. E ela já se deliciando, se abrindo vagina, se molhando intumescente.

Na lida diária do casamento ao sem gosto do arroz com feijão de sempre, ela fora perdendo os fôlegos, os incontroláveis quereres. As posições e toques do mesmo homem seu marido na cama a enfadaram, quem sabe ele também. As mãos dos dois já a tempos sem mínimo que as atraíssem, não se buscavam mais. O casamento deles agora só no falso rosto do social feliz. Ou bem que o marido já estava em outra, com outra. E assim sua sedentia, a dela professora, na aula das grades das prisões a explodir se dando ao redor, noutra lição.

Tanto homem gostoso preso lá, e ela aqui, ali no banheiro de casa sozinha, seca de um certo líquido, de um carinho. Ao começo das aulas nas prisões passou a se embelezar mais. A ala das celas, também caminho da escola, por então de passagem obrigatória e de puro prazer; olhos a comiam. Sim, havia proibições de respeito e de ordem para com as docentes. Mas as línguas e os rostos dos presos só na secura do gozo em sentimentos. Ela ao andar entre os alunos bandidos na aula, sentia-se saboreada pelas retinas, lambidas imaginárias e gulodices mais. As comidas e as bocas. E por muito penitente que quisessem os cadeados não abriam. Só depois no segredo as púbis e as mãos se fartavam, as dela e as deles.

À memória ainda que tão póstuma de Márcio Amaro de Oliveira, o Marcinho; querido parceiro de prisão em Bangu III e eterno de coração.

A sala de aula estava escura, sem que eu me desse professor pelo que já ocorria, que aliás inconsciente eu contribuíra para tal. Havia uma roda de homens e todos sentados. As conversas e interesses longe, giravam e corriam fundo para outros cantos, becos e bocas, e nunca jamais para o didático escolar imposto. Planos e planos, quadrilhas e quadrilhas. O mundo naquele ermo de mundo só nosso mundo; o das confabulações favelares. E professor, eu ali como um patrocinador daquela espécie de aula magna; que nem sentado eu ficava como ao proteger o redor, caso a polícia chegasse. E todos fluíam na grande quadrilha nossa. Meu parceiro mais próximo “dono” famoso de morro também ali; nós, eu e ele, já meio família cá fora em quase compadrio parental. Num instante chegou mais um bandido à sala, que não me conhecia ainda. A estranheza do meu rosto professor o assustou, o tal chegante, dando-lhe recuos de inseguro e de fuga; quem sabe eu polícia poderia prendê-lo, bandido mesmo que ele era. Aí, o chegado à porta da sala balbuciou algo em medroso de voz ao meu mais parceiro o Marcinho, olhando-me num soslaio de defesa e de ataque mesmo sem fuzil ali. Meu corpo não esboçou defesa, o meio já me era o natural de mundo para mim. Muito periculoso eu já estava. Então, no caroço do encontro meu compadre parceiro pôs a colher inteligente da voz e sentenciou descaroçando, resolvendo tudo: “chega aí parcero! Nóis!” – No mote supremo da facção vermelha. Ao que o bandido recém-chegado se desarmou, e mais um na quadrilha da aula se fez, se somou.

Cá fora na carona da rua vindo pra casa, eu exclamava feliz à namorada professora: “estudei estudei pra agora terminar assim, bandido!” E lhe insuflava alegre o mote da facção aos ouvidos: “nóis!” Sua reação em doce repulsa de mulher religiosa me excitava, pondo nossos desejos mais gostosos no banco do seu carro. Talvez assim que ela fosse também bandida, casada com outro homem que era.

E lá no intenso daquele passe quadrilha na sala de aula, e no sagrado mote bandido do meu parceiro do “nóis”, meu sangue fora aceito vermelho.