As professoras nas prisões desejavam mas nunca poderiam dizer. Algumas porém ou todas já vinham de casa, da cama da madrugada, com ele em íntimo manifesto. Que rolando insone aos lençóis na angústia a professora o procurava. Que num pulsar já houvera incontrolável proibido. Pois encostando as partes internas do alto das coxas e esfregantes, vieram-lhe frêmitos gostosos de mais; os mamilos ao toque endureceram. E junto, imagem na cabeça, o rosto e a mão de um querido aluno seu, preso naquelas cadeias aonde lecionava. E ela já se deliciando, se abrindo vagina, se molhando intumescente.

Na lida diária do casamento ao sem gosto do arroz com feijão de sempre, ela fora perdendo os fôlegos, os incontroláveis quereres. As posições e toques do mesmo homem seu marido na cama a enfadaram, quem sabe ele também. As mãos dos dois já a tempos sem mínimo que as atraíssem, não se buscavam mais. O casamento deles agora só no falso rosto do social feliz. Ou bem que o marido já estava em outra, com outra. E assim sua sedentia, a dela professora, na aula das grades das prisões a explodir se dando ao redor, noutra lição.

Tanto homem gostoso preso lá, e ela aqui, ali no banheiro de casa sozinha, seca de um certo líquido, de um carinho. Ao começo das aulas nas prisões passou a se embelezar mais. A ala das celas, também caminho da escola, por então de passagem obrigatória e de puro prazer; olhos a comiam. Sim, havia proibições de respeito e de ordem para com as docentes. Mas as línguas e os rostos dos presos só na secura do gozo em sentimentos. Ela ao andar entre os alunos bandidos na aula, sentia-se saboreada pelas retinas, lambidas imaginárias e gulodices mais. As comidas e as bocas. E por muito penitente que quisessem os cadeados não abriam. Só depois no segredo as púbis e as mãos se fartavam, as dela e as deles.

À memória ainda que tão póstuma de Márcio Amaro de Oliveira, o Marcinho; querido parceiro de prisão em Bangu III e eterno de coração.

A sala de aula estava escura, sem que eu me desse professor pelo que já ocorria, que aliás inconsciente eu contribuíra para tal. Havia uma roda de homens e todos sentados. As conversas e interesses longe, giravam e corriam fundo para outros cantos, becos e bocas, e nunca jamais para o didático escolar imposto. Planos e planos, quadrilhas e quadrilhas. O mundo naquele ermo de mundo só nosso mundo; o das confabulações favelares. E professor, eu ali como um patrocinador daquela espécie de aula magna; que nem sentado eu ficava como ao proteger o redor, caso a polícia chegasse. E todos fluíam na grande quadrilha nossa. Meu parceiro mais próximo “dono” famoso de morro também ali; nós, eu e ele, já meio família cá fora em quase compadrio parental. Num instante chegou mais um bandido à sala, que não me conhecia ainda. A estranheza do meu rosto professor o assustou, o tal chegante, dando-lhe recuos de inseguro e de fuga; quem sabe eu polícia poderia prendê-lo, bandido mesmo que ele era. Aí, o chegado à porta da sala balbuciou algo em medroso de voz ao meu mais parceiro o Marcinho, olhando-me num soslaio de defesa e de ataque mesmo sem fuzil ali. Meu corpo não esboçou defesa, o meio já me era o natural de mundo para mim. Muito periculoso eu já estava. Então, no caroço do encontro meu compadre parceiro pôs a colher inteligente da voz e sentenciou descaroçando, resolvendo tudo: “chega aí parcero! Nóis!” – No mote supremo da facção vermelha. Ao que o bandido recém-chegado se desarmou, e mais um na quadrilha da aula se fez, se somou.

Cá fora na carona da rua vindo pra casa, eu exclamava feliz à namorada professora: “estudei estudei pra agora terminar assim, bandido!” E lhe insuflava alegre o mote da facção aos ouvidos: “nóis!” Sua reação em doce repulsa de mulher religiosa me excitava, pondo nossos desejos mais gostosos no banco do seu carro. Talvez assim que ela fosse também bandida, casada com outro homem que era.

E lá no intenso daquele passe quadrilha na sala de aula, e no sagrado mote bandido do meu parceiro do “nóis”, meu sangue fora aceito vermelho.

A sirene polícia da morte passa todo dia nas ruas, ameaçando os ouvidos do povo.

Entro na cantina pra pegar o almoço do dia, no self-service em língua do americano do norte. Televisão sempre ligada, no bombardeio perene de imagens. Parece um beco o lugar das comidas de apertado que é. E assim o que um fala todo mundo escuta. A mulher de lá me paquera de vez em quando; procura quem aparenta e se diz de muitos dinheiros. O que não é o meu caso, seus olhos talvez gulosos a enganam. E a favela está ali presente, nas almas dos outros e também em mim. A imagem da TV domina os céus e os infernos; nos impõe vê-la, ouvi-la. O que falamos sai da boca da tela colorida, quase nunca de nós.

Um velho magrela nutrido momentâneo pelo cheiro e a comida, vocifera alegre e sarcástico o que a grande tela nos dá: “presidente das Filipinas manda matar quem estiver nas ruas”, no toque de recolher pelo coronavírus pandêmico no ar. E aí continua o velho já gozador: “já pensou Pedro, você na rua e a polícia te acertando com uns tiros?” Cada nação com os seus modos de matar e de morrer. A ordem filipina me atinge por dentro, certeira qual um tiro de fuzil polícia na emboscada do morro. Meu corpo parece fugir e foge, mas já ferido. A voz do velho era para alguém dali outro velho, mas atingiu a comunidade inteira; dos morros e morros, das periferias também. Ao som daquela voz velha de tiros e de mortes, meu corpo passa a querer bater de frente e também atirar; só que contra quem sempre nos matou e mata. Meu intelecto revolteia odioso, já num quase urro bandido de gritar, esclarecer. Mas nisto já estou em casa.

O tiro que não dei no velho, que ele estava puro polícia, disparo nesse canto de papel na letra. O que o presidente filipino manda fazer, matar o povo nas ruas, a polícia brasileira faz em quarentena de vírus e fora dela também, matando velhos e até bebês. E nós machos babacas nunca fazemos nada. Morremos e morremos, louvando felizes nosso próprio constante matador.

A prisão é muito mais que a prisão; são também as favelas, as periferias, os buracos com gente, os esgotos-moradia.

Hoje vejo tão mais claro, algo que só a vida ao me pôr no crime passei a enxergar, a ver. Naqueles tempos do eu sozinho professor na carceragem por causa da repressão, amigos do crime propunham-me, em oportunidades ou tentativas de ocasião, a que eu me colocasse como um certo diplomata ou agente arranjador, para possíveis reuniões de diálogo dos presos com autoridades. Pela falta de aptidão quase sempre eu falhava, ou talvez nada acontecendo por um certo descaso inteligente e racional meu. Mas eles do crime não se cansavam de solicitar-me. Lógico que os internos penitenciários, seriam representados pelos seus líderes em comissão. As poucas tentativas nossas, muito poucas, quase sempre foram em vão. Uma só reunião, em encontro da direção da prisão com os líderes do coletivo interno, vingou. Assim mesmo, a tal reunião, destruída ao meio pelos devaneios loucos da nossa diretora escolar, no calor das falas. Em suma, mesmo nesse único encontro não houve frutos a colher. Sendo a única coisa de positivo que verifiquei aos olhos e ouvidos, foi a voz da verdade dos meus amigos do crime.

Somados todos esses momentos e planejamentos em conjunto hoje, ficou-me a verificação da disposição dos presos, dos encarcerados e tal, sempre ao diálogo. Até também porque, marcar isto bem aqui, que nós encarcerados, pela nossa própria situação de encarcerados, estamos fora de toda e qualquer estrutura política e social de diálogo, entre nós que também somos povo e os poderes. Se estas estruturas são mentirosas ou não, assunto para outros espaços. Voltemos. Além das disposições coletivas dos presos ao diálogo, eu via e ouvia os níveis de respeito das suas falas e gestos. Mas não adiantava, nunca fluía.

Hoje verifico, que por estarmos no crime, portanto fora a não ser a grades, de qualquer mecanismo de diálogo e controle, tais como eleições e todos os outros caminhos burocráticos de requerimento, esta situação nos isola de tudo, inclusive da mentira oficial. E este isolamento possui dois pontos: um de isolar mesmo, e o outro, de por estarmos fora dos mecanismos implantados como já dito, entre o poder e nós, torna inviável manipulações, produzindo campos de real perigo. Por isso e um pouco mais, diretores penitenciários tombaram na vida com muitos tiros certeiros; tiros de justiça e de alerta.

“Dependo do preso para ter o meu salário”, disse-me o guarda da prisão num momento de desafogo. Eu mesmo, bandido e professor, também estava ali por uns reais a mais no meu pagamento mensal. Nós, realidades parasitas do Bem, na figura máxima de cada diretor prisional, indo fora dos muros até as personas do cérebro parasitário do poder. Existe um mega superfaturamento de ganho; pois quarenta e dois por cento da população encarcerada brasileira, nem passou ainda por tribunais de julgamento, numa pré-condenação lucrativa monetária para o Bem do ao redor. Eles do legal, da justiça justa, necessitam de ganhos dinheiros sempre mais, muito mais. A figura e a realidade do preso deixaram de ser e representar acertos sociais e humanos, hoje sendo importantes fontes de fortunas alheias; como um carvão em brasa preparando deliciosa carne para alguém. Por assim então, parte da população geral necessita ser queimada, não por exigência, mas pela própria natureza de mundo.

Depois de anos também me cansei, vendo que tudo era inútil. Só nos salvando a consciência de que estávamos ali juntos e amigos, eu professor e os bandidos, mas eternamente presos. Não havia e não há como se soltar. Noções e passagens de tempo são também grades; o espaço, o quadrado de cada um. Como um preso já bastante exausto eu queria sair dali; um ser que não funciona mais; um do crime muito velho, sem força de empunhar mais a arma. E não existe criminoso aposentado; futuro e descanso só para os que trabalham. Velho e cansado, a rotina do hábito gasto me dominou, me enchendo de realidades mortas, com total falta de sentido antecipado, qual um preso que sai da prisão sem horizonte de mundo. A vida continua mas já acabou, está morta. Os gostos e os gestos perdidos não voltam mais, nunca mais.

Solto cá fora perdi o mundo que antes foi ou parecia meu. Agora e daqui pra frente nunca mais; como num compasso de dança que se perdeu, no ritmo de pé que se atrasou. Mesmo eu só professor, mas por entrar na valsa bandida, o mundo me negou de vez, para nunca mais voltar.

Meus primeiros contatos diretos com o grande crime foi junto com telefones. Um pouco ampla, nossa escola na prisão Bangu III tinha bons banheiros para os alunos internos. Respeitoso, eu evitava usar o único banheiro destinado ao corpo docente de professores e professoras; pois saber dos íntimos das mulheres era como uma agressão vulgar e ignóbil, e assim eu utilizava o banheiro dos alunos. Ocorre, que na hora do nosso recreio escolar da tarde, sempre ao meu gesto de estar no fechado urinando, o lugar das necessidades, invadido rápido, ficava entupido de enorme cruzar de vozes diferentes aos telefones celulares. Cada qual com suas tonalidades, apegos sentimentais e às vezes lamúrias e grandes felicidades. No recato de nunca saber das familiaridades, dando sinais de aviso, eu começava a tossir mentiroso com o fim de só alertá-los, os internos afoitos. Lógico que por ali aonde estávamos, havia o melhor sinal de satélite da cadeia inteira; ou seja, o ouvir e o falar bem mais nítidos. Assim, a presença de um professor incauto só atrapalhava. Porém, por maiores barulhos de garganta, pés e descargas no vaso sanitário feitos por mim, no único afã de romper as muralhas da separação todos falavam com o bem distante, menos eu ali ao lado. O contato das vidas sendo o sublime momento para eles, com o satélite amigo diluindo o volume torturante de um não ter e um não ver.

Várias ocasiões de escuta se passavam; e meu corpo e alma se deslocavam inconfortáveis, buscando se acomodar no espaço escolar. Jamais seria eu que os atrapalharia. Ali, juntos naqueles iniciais momentos de cadeia, eu já estava favorável a qualquer fuga possível, mesmo que só aos instantes ouvidos de um salvador telefone celular. Então, não tendo outro jeito, antes comuniquei à nossa diretora escolar, que repassasse ao coletivo penitenciário minha decisão de não mais saber das vidas, que não me competiam. E que eu usando agora o banheiro das mestras, os falares, as intimidades, estariam na posição respeitosa merecida. A riqueza da vida passava e passa, por nossas relações criminosas mas livres.

Ao me chegar visitante na prisão mais cedo, já encontrava um corpo maior de guardas no balcão da entrada; justo por causa dos incumbidos em revirar pelos avessos as visitas dos presos e tudo que elas traziam. E com isso, coisas, vidas, famílias, todas antecipadas por altamente suspeitas. Uma certa ojeriza odiosa pela falta de respeito, era os olhos verem tanto prato bonito e perfumoso de comida bem arrumada, vasculhados pelas mãos e facas inspetoras dos guardas, qual lama podre escondedora de algo sujo e venenoso para a pureza do mundo. A comida que se come, que nós presos comemos, também é bandida, na totalização plena, e antecipada, de que até um doce ou salada para o preso são do crime.

Revoltado, tentando acalmar silencioso por dentro, a mente me propunha alternativas sonhadoras de revistar as visitas. Como por exemplo, diante da multidão de geralmente mulheres visitadoras, a segurança da prisão escolher duas ou três aleatórias e até mais ou menos marcadas, a uma revista minuciosa das comidas, roupas e de todo o corpo. Quando havia crianças em visita ao pai, tio ou avô, me perguntava como elas reagiam , se sentiam ou se portavam depois, por terem ficado nuas e com até o ânus vasculhado por um olhar alheio, polícia e por demais estranho. Então já nasciam e cresciam no suportar sofredor, resignado ou não, de grandes suspeitos e perigosos do crime; na maldição estatizada da criança já como bandida. Pelos rituais de inspeção nos corpos-visita, eu observava os ares da guarda com muito nojo; os dejetos humanos favelados em miséria estavam pegajosos ali. Eles visitas não são pessoas; na ordem e supremacia da grade prepotente. Novamente, para amenizar-me na alma, talvez até já na revolta do tiro, propunha-me , hipotético, para elas visitas medidas disciplinares e socializadoras, em caso de erro e não de crime, no âmbito só das prisões. Assim, uma visita flagrada em claro erro ao portar um naco de maconha para entrar com ele na carceragem, como sanção disciplinar perder temporariamente o direito a visitar. Isto, sem necessitar ou ela passar por escândalos moralizantes forçados com claros objetivos falsos, de delegacia de polícia e registro jurídico penal. Na ficha da pessoa visitante em erro, anotar-se-ia na própria prisão a ocorrência do fato, mais as medidas disciplinares impostas. Desfocando então de que todas as visitas são suspeitas e, por assim, não mais antecipadas condenadas de crime.

A cultura do mal junto com a noção de inferioridade, está e é implantada pelas leis e ações das instituições públicas e privadas brasileiras, de cima para baixo. O lugar de onde se vem porque se mora nele, e onde se está e como se está, definem e condicionam direitos e sem direitos. O próprio edifício jurídico, dito justiça, o grande desenhista desse quadro e mantenedor dele. O olhar menosprezante de quem ocupa o balcão pelo lado de dentro do poder, conceitua a noção de quase pessoa, ou a falta total dela, de quem está pelo lado de fora; como em Kafka. Para terminar, observamos em nossos anos de carceragem, que todas as unidades prisionais funcionam como fabricantes de pessoas delituosas, isto é, do crime; estando condenadas juridicamente ou não, no sistema ordeiro de que todas já são antecipadamente bandidas.

Estou fora, livre na rua. Saí sem dever nada à justiça. Talvez mais periculoso ainda lá nas grades, orientava-nos, a mim e aos parceiros de prisão, para todas as fugas possíveis. Ser livre para fugir, a ideia áurea dentro da facção vermelha e fora dela. Lembro agora de Kant falando da Vontade. O universo carcerário, a comunhão nele, me auxiliou muito no início a traficar. A própria separação, o isolamento, ajudava-nos também. Quem acreditará aqui fora, que bandidos pensam. A nossa capa bandida de inferior nos acobertava. Num lance de ganho, de às vezes muito ganho, alguns analfabetos me ensinavam; por muitos em tesouros certeiros. Enfim aos poucos aprendíamos a traficar mais. As vozes nos transmitiam, nos transportavam.

Primeiro descobrimos o legal e o ilegal em nossas falas. Antes o que não pensamos nem dizemos, aquilo que desconhecemos. Precisávamos então agir, fugir, traficar. As ideias nunca estavam soltas. Nós as prendíamos ou as matávamos em nós mesmos, sem saber. Se bandido só pensa o mal, perguntamo-nos, por que então não pensar outros males; mais intensamente males. E veio-nos a nós as palavras. Falar não só o concedido. Pensar não só o sociável. Avançar. Toda cabeça é bem-vinda, em nosso coletivo prisional imenso. Mil cabeças nossas são mais do que as de seis guardas, me brilhantou por dentro um parceiro de cela. Por mais que eles queiram não nos pegam, nunca sabem. Nossos cafofos armados de ideias mudavam sempre de posição. Até a noção pelos de fora de que éramos burros, nos dava uma proveitosa vantagem. A guerra na grade tornava-se a dos saberes, da inteligência. Procuravam cegos os guardas nas paredes de cimento, o que só nossas carnes de corpo escondiam. E a todos os momentos nossos corpos traficavam nas bocas de fumo, de vozes e de ideias, do crime.

Se não posso mexer o céu, comoverei o inferno. – Virgílio – Citado também por Freud.

Nos entrelaces bandidos, corpos se misturando, eu ia virando pai, um outro pai; o não biológico mas pai. Alguns e depois muitos, dormiam comigo na alma e me esperavam já de manhã ao acordar, prontos e ansiosos a me verem chegar, por trás de suas grades das celas. De mim eu já vinha feliz de casa, filhos me esperavam. Então nosso encontro foi virando família; honrávamos no sagrado os Lares e os Penates, que nos juntam e nos protegem sempre. Por baixo da minha capa de professor o pai, e por baixo das máscaras deles de bandidos, filhos, muitos filhos. Que talvez e com certeza, aqui, fora de lá daquele inferno, aconteça o mesmo.

Nosso pai lá em casa, alguns ainda pequenos em família, não nos educava e não dava carinho, mas empurrava-nos todos, aos duros e aos apanhos, à religião. Como já disse em falta por outra crônica, nunca beijei meu pai. Queríamos brincar ele nos açoitava e prendia à Bíblia. Ir à igreja tortura mortal, às vezes fingido num bem-estar ou querer. Pelo sofrimento imposto, buscamos nos proteger ou iludir vivendo mentiras. Mas queríamos antes o pai; ora ludibriados em Deus ou naquele que nos dava comida mas impunha uma outra fome de um não ter. Não sei e nunca saberei como nos formávamos assim, numa deturpação parental. O sangue e a alma da Terra não valiam nada, não existiam, só os valores e cânticos do céu, pregados pelo pastor da igreja.

Perdidos então, eu e eles, feito anônimos mas bandidos, íamos nos encontrando nas grades; naquelas penitenciárias lá de Gericinó e nas lacunas que cada um trazia na alma. Dilacerados e bandidos. Por imersão no inferno íamos buscando e conseguindo nos recompor tardios e incompletos; eu pai e eles filhos. No pai que eu lhes trazia, vinha também um filho meio morto ansiando viver. Ao serem meus filhos, todos bandidos como eu, eram também meu pai; aquele amoroso e protetor que eu buscara e que nunca tive.

Aos meus parceirões de cadeia.

Meu pai me chamou num cantinho, pra visita ilustre não notar. Falou: “vai na casa da sua tia, e pede a ela um pouquinho de café, mesmo de de manhã, para oferecermos ao pastor que está aqui.” Voltei já com um pequeno bule frio na mão, buscando cuidado moral no esconder nossa miséria. Mas não teve jeito, o mestre de Deus viu quando meus pés descalços, tentando discrição, chegaram retraídos com a bebida emprestada. Este emprestada, no modo de disfarçar de nós mesmos, num abrandamento falso mas aliviador, a penúria da nossa miséria.

Preso já na cadeia, no caso uma penitenciária, para amenizar e nos manter em comunhão contávamos casos. De ataques a defesas, a histórias ouvidas ou vividas por nossos morros da vida. Numa correria de polícia já feridos tínhamos que nos esconder. O lugar seguro só o momento é que dizia. O tudo era não rodar. E então cada um no seu instante. Podia ser e acontecia, de uma mais tragédia nos gritar em nossa cara. No barraco do acoite não tinha comida. A geladeira vazia. Sem dinheiro por ali nem tinha como o alimento chegar. Pelos cômodos e panelas a ausência de carnes grassava feito garrote. Eles não tinham o que comer. Ferido e no terror eu ia aos poucos me acalmando; até mandar um recado aos meus amigos do crime, que trouxessem um pouco de supermercado. A família faminta não podia padecer, nem morrer.

O pastor só nos trazia Deus, e nadinha ao nosso estômago vazio. Muitos do morro desejam ardentes uma visita inusitada do crime. Um bandido a se esconder que vai lhes prover comida. E este, o bandido, pode ser que esteja preenchendo seu coração da comida que lhe faltou na infância; e que agora só no crime ele consegue ofertar a alguém.