Só nas prisões me encantei com alguns dos meus grandes iguais. Na geração e grupo social nos quais nasci e cresci, meus olhos teimavam em ler, formando ao redor de mim uma anomalia admirada. Possuir livros era em nós só um sonho imaginado e bem distante. Conhecer livraria então só puramente de nome, como um caviar num prato de pobre. Mas eis que todos de nós brasileiros sabemos ler e escrever, dizemos mentirosos a nós mesmos. Alcancei e convivi com a assinatura analfabeta; e esta feita no papel com a impressão digital do polegar direito borrado de tinta, no local destinado do documento, pequeno retângulo em linhas. Sim, porque a totalidade dos formulários públicos vinha com este espaço já reservado, o da assinatura com o toque sujo do dedão; que ainda assim, por vezes diante de inabilidades do não saber pelo travamento do braço, mão alheia nos empurrava a nossa, desajeitada e analfabeta ao papel, por não conseguirmos sozinhos marcar-nos, realizar o gesto assinante. Ainda carteiro mas recente, quantas vezes eu escrevia o nome por alguém em recibos de entrega; o que me perturbava muito pelo lado humano de me deparar com a incompetência na letra, como também me sentia inseguro passando-me por outro.

Nas redes sociais da Web, procuro sintetizar ao máximo a ideia a escrever; não passamos nunca de leitores de duas a três linhas. Algum verdadeiro leitor de tão raro nem aparece, afogado pela aridez analfabeta geral. Nas ruas e lugares, noto que muitos avisos não são obedecidos porque não são nem lidos. Quando muito a leitura alcança só a metade do escrito, a enormidade de linhas e palavras atrapalha, impede. Mas todos de nós sabemos ler, repito, e geralmente bem, a nuvem que nos mantém. Escrever à mão, assim em letras manuscritas, é um dado social hoje rejeitado e aberrante; não sabemos desenhar nosso próprio alfabeto. Mesmo com todo sublinhamento de palavras em vermelho nas telas digitais, indicando erros de ortografia, os analfabetismos proliferam nas redes. Quem não sabe não sabe como saber; até porque se soubesse saberia. Também, penso que nisso estamos só reafirmando nossa forte tradição analfabeta, a brasileira, e assim até sendo verdadeiros, originais. Da assinatura com o dedão polegar direito às eras internautas, não demos um só único passo além; o dedão continua sob outras formas, mas continua. Máquinas digitais de votação política , vieram e estão para encobrir e suplantar a ignorância das nossas mãos, a escreverem nomes errados ou fora das linhas e lugares.

Mas tudo isto remete ao pensamento, que este remete aos horizontes ou à falta deles. Minha ideia bandida, era de que tínhamos pelas grades e celas o que deveríamos possuir fora delas: o hábito da leitura. E esta realidade produzindo em mim durante tempos um certo contrassenso, até que entendi tudo. Bandido pode ler porque já está condenado, o povo livre não. Pois este ao ler pode pensar, saber e querer sair dos trilhos, ou mudar a rota da locomotiva.

O demônio do meu pai ainda me perseguia na alma, mesmo ele já lama no cemitério. Porque sua mão podia enfiar-me o cigarro proibido pela goela adentro, ou torturar-me a uma grossa ripa de madeira. O tirano família nos empurrava medo e terror como respeito. Nas prisões pouco me dei ao luxo e ao paraíso de fumar alguma coisa. Não muitos eram os instantes de puro prazer; o que me dava ao apego de umas fumacinhas de leve no relax, às vezes em comunhão com os amigos. Ainda mais professor mas já me virando bandido, parceirão de quadrilha precaveu-se temeroso, porque eu escrevera em nossa crônica inicial de que fumávamos partilhantes pelo pátio da escola. Podiam pensar em maconhas e assim nos condenarem mais. Mas num ato de mais criminoso que ele não me importei. Fumar não é um gesto proibido, muito menos só de bandidos como nós.

De vez em quando aqui fora me lembram de que cigarro mata. Ao que contraponho, que o mesmo Ministério da Saúde que coloca imagens horríveis antitabagismo nos maços, é o mesmo que autoriza todos os venenos, não só nos fumos mas em todos os alimentos salutares à nossa mesa. No que ao nosso contradiscurso responde uma surdez geral; os ouvidos domados.

Muito me pergunto por que só se atira mortal na droga da favela. Nunca veremos patrulha de polícia em ataque na portaria de brilhante hotel praiano. Nisto, quase sempre cito o Copacabana Palace, por saber que em seus lençóis deitam e rolam porções da cocaína mais pura. Lá também ninguém é de ferro como no morro; cheiram e fumam, por muitas vontades injetam.

O discurso repressivo castrante age muito mais e tem mais efeito nas classes e estratos baixos. A culpa é um peso que vem de cima; e a lei também. Atravessando toda a linguagem existem as travas seguras do normal; e antes, forma e conteúdo, a invenção do discurso por quem o determina. Toda fala é uma fala possível do que se pode dizer, e nisto também o ouvir.

Existe um intelectualismo assassino, cúmplice, conivente com o executor.

Podem me apagar da vida a qualquer momento; o medo avisava por eu estar em desconforme da lei. Preso ou bandido não pode nunca ser pessoa; quem está atrás das grades é outra coisa. E eu também nunca me opus a isto; para quê. Ir contra ou a favor da cantilena do Estado é a mesma coisa. Então o nosso fazer estava centrado em nos sentirmos ali. Pois ao dizermos que alguém é pessoa, estamos no mesmo falatório de quem pode negá-la. Mais bandidos do que o Estado que nos mata ao desconhecer-nos, o discurso oficial, disciplinar, ordeiro e de justiça não era menosprezado porque nem existia para nós. Conseguíamos uma ação e intenção puras só nossas, nascidas de nós. O social nos construía, enformava. E este nascedouro nunca podemos deixar de sê-lo.

No tranco mas já aqui fora livre, voz alertou-me forte de que a ordem pública do Estado pode matar-me quando quiser, e colocar a culpa bem comprovada pelo jurídico em algum do povo com ficha prisional; que na história a democracia sempre realizou. O pecado é do outro chamado plebe não meu. E nosso pecado nas prisões era o de sermos nosso social em nós e por nós. De nunca acreditarmos ou termos fé no que vem de cima, mesmo que comprovado de Deus, e muito mais também por isto, este sagrado descomunhante classista; o Criador chega do alto para os de baixo. E realizar um social tanto dentro das prisões como fora delas, sem a invenção e o beneplácito estatais, torna qualquer um inimigo da nobreza santa; assim digno em justa dose da pena capital.

Lavávamos antigos as vasilhas da cozinha e quase tudo no rio; de onde tínhamos as carnes do almoço e da janta em lambaris fritos como torresmos. Mulheres areavam frigideiras sob as solas dos pés e rebolantes, nas areias de suas águas. Não havia nojos; e se tinha eram outros. Das correntezas às bocas as águas corriam soltas sem medos; às vezes ao guardo pelas talhas, moringas, latas e os baldes. E possuíam sabores das areias, dos peixes que nadavam nelas, dos matos e lodos, de coisas gostosas que os nossos olhos nem viam, por diluídas que eram.

Mas a água do mundo mudou. Os banhos, que de bacias em casa ou nas correntezas cheias e remansos naturais sumiram, se evaporaram. Nome de rio foi virando de outra coisa. O de antes tão prazeroso banho de rio mudou-se em nojos de se entrar nele, e de até mesmo se evitar molhar as pontinhas dos pés nas suas águas. Chuveiros confortos trocaram nossos olhares. Chique e rico é quem não se lava mais de bacia ou nas águas naturais e índias. A mesma água do rio mas caneada pelos tubos e caixas, tem gosto de bem estar social e modernidade. A Natureza agora só é bela, vista na higiene da distância de um longe, ou das piscinas azuis. A mata toda também pode morrer, que não nos fará mais falta.

Passamos a ter caixas d’água afogadas nos hipocloritos químicos. Pois as águas correntes vindas dos rios nos infectam de tudo, de muitas mortes e sujeiras inimigas. A depurá-las chegou-nos filtros e mais filtros, de coadores finos e eficazes; a bactéria não pode mais nos alcançar. Beber direto das torneiras é perigoso, o cano cria lodos nojentos. A água que limpa é a mesma que suja; a que sacia a mesma que nos mata. Entre o esgoto e o rio mudamos as fronteiras, e assim as noções de Natureza.

Menino eu já levava roubos para casa, geralmente frutas para os nossos famintos estômagos. Uma vez rodei cortando cana no sítio alheio e fiquei por alguns momentos aprisionado pelo vigia; desse mamãe não soube. Quando chegava em casa com laranjas, jaca ou mangas, fazíamos pequenas comemorações de festa, algo estava garantido. Papai e mamãe sabendo ou não sabendo não importavam com nada; pelo menos ninguém perguntava a origem; como também qualquer grande e cabeluda mentira era facilmente aceitável, a vida nos agradecia. Nunca apanhei por roubar comida, a moral caseira nesse ponto não permitia castigos.

Mas nunca fiz tamanho ganho como na história a seguir, narrada por dentro das prisões. Grupo de crianças vagueava por um ermo de morro, havia pasto e descobriram uma novilha. No grupo, eram uns quatro, surgiu a ideia de matar a vaquinha. Armados de porretes começaram a atacá-la; aos poucos quebraram suas pernas pondo-a ao chão; daí até estourarem-lhe os miolos foi só um tempo. Ao trabalho facões e machados repartiram as carnes ainda aos couros. Cada qual levou sua partilha. Chegando eu em casa, disse-me o narrador da história, sabendo minha mãe do enredo aplicou-me violenta surra, que mesmo assim não nos tirou de saborearmos aquelas deliciosas carnes, inclusive quem me batera tanto; que sábia, não deixou perder nada.

Adulto e já em dias de visita prisional, ao me apresentarem uma mãe, em geral parceiro conhecido, eu me indagava silencioso depois sozinho, como aquela mãe digeria tudo. Vivendo em alta necessidade e sendo sustentada pelo ganho salarial do filho no tráfico de drogas. Depois, indo visitá-lo e vendo-o garroteado na prisão, por consequência de necessidade e responsabilidade ao lutar por um sustento familiar. Aonde ficava a cabeça dela, de uma tal mãe, diante da coisa e relembrando sua vida de cuidadora vivida; sua consciência moral nesse embolo.

Para Gilmar Brunizio

Nunca vi um sociólogo nas prisões. Assim, a solidária presença do magistério escolar vai servindo como tal; único a entrar efetivamente diário nas carceragens e conviver. As aulas funcionam muito e existem antes pela formação do grupo, a aparição de cada um e as trocas. O didático-científico lecionado é quase sempre segundo plano, por vezes a última ou até nenhuma lição. A presença da escola pelo corpo docente reverbera até fora dela pela carceragem,; ainda não estamos de todo sozinhos, sentem as almas presas. E nisso então uma prova perene de que todo coletivo gradeado quer conviver, conversar, se preparar para o almejado retorno.

Para funcionar mesmo fui ficando híbrido, envolvido pelas carceragens bandidas como um autêntico professor mergulhado aqui fora nas comunidades. Nenhum aluno existe sozinho, é uma mala, um pacote cheio de vida. Todos os bandidos iguais a mim foram um dia crianças. Por isso e mais, em todos os determinados momentos tanto fazia sermos criminosos ou não; nunca era esta marca que estava ou estaria em jogo. Só as nossas permanências contavam. Eu mesmo, professor, nem me questionava ou lembrava ali quem eu era; até porque quando inteligente não sabia. Nossos crimes tinham que ser perfeitos, porque a estreiteza fina do destino nos obrigava. E então as relações fluíam só pelas nossas leis, num terceiro campo ou espaço. Sem esquecer o mundo pronto buscávamos outro; as estratégias e práticas nos inventavam. Esta luta, também fora das prisões fervilha nas comunidades favelares. Eu precisava aprender ainda mais nas carceragens, e o medo não me deixou.

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Aqui fora há um mesmo das prisões só que não visto. Em frequência periódica ao grupo da tabacaria, e este me atraindo cada vez mais por suas efervescências de diálogos e gestos, indo do mais frívolo a discussões e descobertas prazerosas e superiores, fui alertado por um advogado e amigo em nossa banca tabaqueira, de que nas academias jurídicas quase ou nada se aprende do social. Ele dizia e sempre diz isto com uma lástima de grande pesar, como o que imprescindível era ter só que não tem. Ora, sabemos por vida que o exercício do Direito, a ação profissional do advogado, é no seio de um social do qual ele mesmo faz parte. Assim, age-se sobre a vida, na vida, negando-se ela ou só fingindo-se vê-la. Descobrimos, e alertei o amigo advogado disso, de que ele é o único que cita e insiste em lembrar sobre o quase nada e a grande falta que a sociologia nos faz. Isto, não só em sérios estudos de natureza acadêmica, como ainda mais e principalmente sociólogos mergulhados no social da própria vida. Notamos que há uma retração por medo, mas bem certo muito mais pela barreira confortável e protetora do diploma, salas abrigadas e desejáveis altos salários. O distanciamento das classes define mais ainda, formatando saberes vistos pelas lentes só dos livros, e ajustando o próprio sociólogo a um quadrado finito, no qual ele é o único habitante. Sociologia sem o social.

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As únicas e parcas presenças, não de sociólogos mas de assistentes sociais testemunhadas, aconteceram numa carceragem quase de forma esporádica. Por duas vezes elas visitaram o coletivo aprisionado, nesse caso o da Penitenciária Elizabeth Sá Rego na qual estávamos, numa forma de excursão em que não conseguimos promover ou presenciar nenhuma aproximação e diálogo, entre os internos e as estudantes acadêmicas. Cada qual dos lados não saiu de suas barreiras protetoras; não houve encontro.

Iremos nos matar mais, achamos que cada vez mais, por ação da justiça. Vi um polícia federal em som de passeata, repetindo numa fala de muita consciência de que se desarmassem as polícias militares estaduais. Ele com certeza possuía sólidas razões do por que arautava aquela mensagem. Nisso descrevo a seguir, o que julgamos e sentimos ser um recrudescimento dos nossos caminhos em direção à morte, que me faz num contrário uma específica nostalgia me crescer por dentro. E dizemos agora qual é. A polícia brasileira já matava, como sabemos que sempre matou. Mas as colheitas dos corpos mortos pelas balas e armas dos governos antigos, ainda escasseavam no campo frutífero da vida, comparadas às de hoje. Ou seja, o muito de ontem se tornou enfim tão minguado à farta quantidade de agora. Não sabíamos que teríamos tamanha saudade fúnebre. E assim já prevejo, de que daqui a dez anos teremos saudades dos números de mortos atuais. É só uma intensificação dessa mesma saudade, dirão alguns mórbidos em humor negro. O mundo não muda, caçamos contínuos a morte. Esta crônica já vai então com dupla saudade, a do passado e a de hoje para o futuro próximo.

Toda essa nostalgia fúnebre se dá, porque o Supremo Tribunal Federal brasileiro liberou mais outro exército a andar armado, nesse caso o de todas as guardas municipais do país. Bandido que sou, ao ver os guardinhas sem armas de fogo pensava: com pistolas no coldre eles também poderão ser mortos pelo crime. E essa ideia já vinha no antepasso de outra: porque começarão logo também a nos matar; e na ordem toda pessoa do povo socialmente matável, e como sempre os trabalhadores periféricos, os pobres, a população favelada e todo aquele julgado não dócil e inútil. Os negros quase sempre com a fatia maior do bolo genocida ofertado.

Cada guarda municipal que vejo, mesmo só ainda com um mísero cassetete à cintura, muitas vezes ostenta ares de general; ele não se julga povo. Só que cada um deles está numa família e tem casa, recebe salário baixo e assim é um periférico ou favelado; sendo mais um braço repressor e até mortal dos seus, então de si mesmo. Também não poderá jamais desfilar com farda ou gerar desconfianças do que é por onde mora; viverá acuado como um cão medroso. Nossa população por esse modo, estará sob a era de mais tiros no meio de si mesma; cabendo a cada indivíduo se habilitar e se sentir mais hábil ao se abrigar ou a correr. Armas geram mais armas que geram mais mortes. E os vivos viveremos sob um aumento de pânico inconsciente, tornado consciente em inesperada batalha de rua. Numa guerra de mais guerra a caminho da própria guerra.

Você pode dar positivo para tuberculose, disse-me o médico da carceragem. Mas embora sua vida diária esteja confinada à alta morbidez das grades, por tomar um pouquinho de sol e se alimentar aqui fora, os sintomas da doença não se desenvolvem, completou o doutor buscando me tranquilizar. Convivíamos com o maior índice brasileiro de doenças pulmonares nas prisões do Rio de Janeiro; levando-se em conta ainda por informações médicas precisas, que as prisões são universos intensos e perenes do Bacilo de Koch. A doença é um ponto presente penitenciário, realidade de penitência.

Parei e pensei hoje de manhã: em alta época de Coronavírus, pandemia mundial e já vacinação, ninguém fala nada, um tico que seja, das populações sob as grades de ferro. Sabemos que estão sem visitas por medidas higiênicas de isolamento, mas penso sobretudo nos banhos de sol; que em nossos tempos aconteciam lá só uma vez por semana, o que entendíamos ser muito pouco. Sem ninguém me dizer nada, sei que a superpopulação dos espaços ainda é e configura pela mistura obrigatória e apertada dos corpos, talvez a maior fonte de riscos. A ronda da morte ao redor, como um incessante fantasma penitencia na sombra carcerária. Na retomada da normalidade em pós-pandemia, que medidas profiláticas executarão nas prisões. Pontuo esse dado, por sabermos e termos vivido em imunidades de corpo baixíssimas. Na grande maioria, cada vida de preso se torna uma alta catalisadora de doenças. Das mulheres, ou seja, das populações femininas encarceradas ninguém diz nada, há uma mudez total; sendo isto para nós um dado e reflexo do descaso ao segundo sexo; o segundo já diz tudo.

Eu estou aqui fora, para nunca mais voltar, mas meus pares contínuos vivem, estão lá por aquelas escuras masmorras. Há um silêncio sobre modos e realidades de saneamento básico sobretudo das periferias urbanas, que se conjuga infernal com as prisões; pois favela, pobreza e carceragens são espaços de um mesmo continente, de destinações de vidas.

Os dias não estavam; nem estavam para nós. A carceragem toda morta; as galerias e celas túmulos subterrâneos sombrios; a vida não palpitava. Nem as paredes respiravam mais. Tão ínfimas, nossas almas hibernavam por elas mesmas, no grande cemitério dos vivos: a prisão. Loucos restauradores em esperança ainda, só eu e meu fiel parceiro maquinando pelo escuro da ala; queríamos sempre sair dali, viver. Só a solidão escura nos acompanhava. Comíamos um naco de intenso vazio. A voz lhe soltou de vez um pedido, meu parceiro me falava. No tino extremo do abandono eu não lhe escutei; entre nós um já quase nada de todo impedia. Salvo pelo sensor registrei comigo o barulho e o guardei.

Nos arquivos de mim passei a soletrar, o de como fazer aquilo. Sabia também, que por toda a carceragem bandida o único habilitado era eu; e o cofre estava trancado. Restava-me então abri-lo. Comecei a rascunhar por dentro, mas tudo me embaralhava mais. As engrenagens do ponto, do segredo, não obedeciam à minha mão, por mais que ela trabalhasse criminosa. Dia e noite a tentar prosperar. Eu e meu grande parceiro cúmplices, no encontro, ao trabalho. Periculosidade é nunca jamais esquecer, e lutar.

Numa, começou a se mexer, a sinais das fechaduras do cofre ao movimento. Alegrei-me tanto, que no ainda ilegível mostrei o de como saía ao derredor, mas ninguém entendia nada. A Pedra de Roseta não estava transposta, decifrada, mas já se encontrava à mão. O risco da abertura, do encontro do início bem escrito, certeiro, já se maquinava por dentro. A porta do dizer se abriria.

Elas saindo de casa a escrita me chegou. Antes, no anterior do dia da festa a preparação: o que vestir bonita e levar. Um olhar me espera. Tudo pronto, a rua e o andar; os sinais dos olhares em leitura: eu sou o que todos veem que sou. A comunhão com as outras pelos caminhos ou pontos de esperas. Uma grande fila nos aguarda para a compridarmos ainda mais; horas de conversa e demais cansaços. Vestidas, fazemos a moda daquele dia. A burocracia dos homens, nos demoram deixar entrar. E assim vou escrevendo. A vida de fora alimentando a de dentro; a alma presa em espera. Os dois lados sempre se preparam, numa busca a dois, enquanto nos durar e perpetuar a prisão. No plástico que ela me traz vem a liberdade alimentar, no altar sagrado e humano em oferta. Cada família já no seu canto de pátio. O coletivo prisioneiro em hora de visita realiza um banquete, as ofertas se dão. Duro, o sinal do fim termina com o grande ritual, o tempo das visitas acabou. Aos poucos vamos nos despedindo, até o vazio do pátio dominar por tudo. Metade de cada um sai pra liberdade, e a outra metade prisioneira ainda fica.

A primeira crônica delas se abriu e aconteceu de vez; começada pela voz súplica do meu parceiro bandido naquela ala de caixão. A mão esta só fez escrever o que já existia, do qual pouco ainda se testemunhou, a visita de cadeia.

A Zygmunt Bauman, em eternidade.

Mamãe dizia que só esta água da cidade já nos mata; havíamos acabado de chegar em mudança da roça interior. Meu tio me cantava, que se nossas águas brasileiras de beber fossem limpas, metade dos doentes não existiriam nos hospitais. Ultrapassemos os dizeres parentais mas ainda neles. Ouvimos e vemos pelas mídias do Rio de Janeiro, que a água das torneiras na cidade está entupida de lama podre e químicas veneno, mais uma vez. Temos água e não temos água, copiando um buchicho do povo. Vi um índio em conferência, pegar num abismar e revolta uma garrafa com água, e dizer que jamais imaginara de quem mata nossa sede seria um dia vendida; a natureza nos dá de graça, completava o nativo. Desde há tempos, com coceiras entre os dedos dos pés, sempre ouvi dos médicos a recomendação de enxugar bem os entrededos para evitar inflamações. A orientação médica doutoral, é passada nos omitindo algo e pondo a culpa das inflamações e coceiras em nós pacientes. Vamos à omissão e à culpa. Num borbulho, comecei a meditar sobre, ao sair da sala médica. Conversando comigo mesmo, dava-me ganas de voltar e dizer ao doutor que ele mentia escondendo algo e, ainda injusto me culpava. E contar a ele que eu tinha provas da mentira na sua omissão doutoral. Criança descalça eu andava por águas sujas e limpas, ora caçando rã ora pescando peixe; as águas limpas não contaminavam, as sujas sim. Então iria lhe dizer, que o doutor sabe como eu, que quem nos infecta são as águas públicas que compramos dos governos, mas o senhor finge não saber, na mentira magistral do silêncio. A companhia de águas públicas nos vende água podre com o nome científico de potável. E este potável, pelo científico enganoso em forte junção com o discurso médico. E assim, para reforçar esse tal discurso médico e dito higiênico, transferem culpas e responsabilidades: a culpa é minha que não enxuguei o pé.

Dando um passo além do nativo da conferência, ele não sabia que além de vendida ela seria também veneno, contaminada; só o cloro já nos mata aos pouquinhos, mas nos mata. Hoje a sujeira do líquido nas torneiras reforça e empurra suas vendas em garrafas minerais nos supermercados, tudo numa negociata só, me brindou alguém raivoso. Em época de pandemia Covid como estamos, não mostram nossas favelas. Na mesma omissão mentirosa lesante dos médicos, as mídias televisivas não filmam, muito menos botam no ar, as torneiras secas dos barracos e casas favelares. Por não terem água, talvez também que não tenha gente por aquelas bocas.