
Nós estamos aqui. Da “Caverna das Mãos”.
E nós estávamos lá; eles produzindo seus tempos de soltura e eu o da minha aposentadoria. A condição prisional nos juntou. Cada qual fazendo em si um outro que queria ser. Nunca soube se conseguíamos ou se conseguimos. A situação ia nos impondo nós a nós mesmos. Respirávamos no mesmo ar. Quem se esperava ver só podia ser dali, e nunca de outro lugar; mesmo com tantos desejos ocultos mas intransponíveis. Para sempre intransponíveis, pelo menos durante nossas estadias em conjunto; talvez em uniões forçadas e aos poucos os espíritos se encontrando. Todos medíamos nossos tempos em produção, até felizes ou menos infelizes quando conseguíamos esquecer a contagem do que ainda faltava, de dias, meses, anos e de muitos anos. Uma coisa é a liberdade e outra a soltura; não nos enganemos aqui; estar solto pode não ser estar livre. Numa imposição externa íamos ficando; eles por suas delinquências e penalidades, eu pelos meus tempos obrigatórios de trabalho e salários de arroz com feijão, tudo a cumprir em vida.
Ficamos muito amigos com várias parcerias, desconhecendo livres e diários as onipotências idiotas da lei. Cada um que sai e vai embora, leva consigo uma história; história que só podia ser e se formou ali, naquele lugar. As faltas e todos os seus sentidos que fluem depois. Alguns e talvez muitos com dores e desconfortos do que não fez, mas que bem certo se pudesse fazer, na mais imediata prova do gostar. Não um gostar vulgar qualquer, mas de alguém que se perdeu para nunca mais voltar. Porque só aquele lá que nos fazia, nos unia no aparato pátrio e passageiro da vida. Nos conhecemos só ali, e nunca em outro lugar. Mesmo em havendo outro nunca seria como ali. Antes e depois não somos os mesmos. Recordo tudo em segunda ou terceira fase; numa etapa da vida como na primeira infância escolar. Em vários de nós consegui perceber meninices; a minha estava clara num certo isolamento na multidão. Fui mandado embora uma década depois da data que cheguei, em condicional de aposentadoria. Não deixei herança de roupas ou utensílios para nenhum deles. O que só talvez ficou no espírito de quem me viu, foi uma grudenta e penosa saudade.



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