
Brasileiro acredita em todas as mentiras que a imprensa e a TV falam.
Meus olhos aguços já estavam bandidos, ou escritor. Dois nomes diferentes mas por muitas vezes sinônimos. Perigoso caráter de um e de outro; ou seja, dos dois. E naquele tempo os olhos que escreviam já farejavam o próximo e o distante. Isto me lembra uma onça na mata. Eu procurava uma carne específica, uma carne a ser saboreada. Mas o emaranhado enganoso da floresta me impedia de ver e alcançar. Houve então um tempo que chegou. E estamos nele agora.
Na primeira muralha de portaria da estrada central e única de Gericinó*, um nome específico e solitário me alertava a atenção: Penitenciária “Industrial” Esmeraldino Bandeira. Nos anos vividos por aquelas grades gerais, me foi formando uma história interior. Na portaria já citada, não existia nunca sinais de turbulência por dentro das muralhas, nem tampouco histórias de fugas, havia um silêncio completo sobre, nela não se evadia. Carros de consulados com suas placas de identificação e modelos diferentes estacionavam em sua frente. A penitenciária industrial recebia visitas de fora, dos estrangeiros. O que faziam ali, e nunca nas outras prisões, me indagava e me colocava inquieto. E então fiquei e fui caminhando na estrada de chão e na do tempo. Só um preso, um único preso como uma caça perdida mas agarrada, me entregou o ouro, a carne buscada. Na Esmeraldino, me disse ele, se trabalhava satisfeito, se comia e se dormia bem melhor, feito gente. Isto tudo em realidade contrária a todas as outras cadeias do complexo penitenciário aonde estávamos; em que nestas o ócio obrigatório imposto torturante, a comida-veneno e a superlotação imperam. O título industrial da Esmeraldino dizendo fábrica, trabalho, estabelecia socialização. Realidade que ele interno vivera até o dia anterior da nossa conversa, e perdida por transferência de rotina jurídica; de uma cadeia fechada, a Esmeraldino, para uma semiaberta, a Plácido de Sá Carvalho, local do nosso encontro. E mesmo assim em nossa cabeça de onça pintada faltava algo, embora já por Gericinó nos situássemos certeiro. Pois a Esmeraldino era e é a vitrine decorada local. Continuamos então farejando. Até descobrirmos num estampar de olhos o corpo total da caça bendita. Cada estado da federação brasileira possui a sua Esmeraldino-vitrine. Aonde se mostra aos estrangeiros, via diplomacia visitante enganada, uma prisão-fantoche bem confeccionada por dentro, por fora, e muito bela.
Gericinó: nome do local aonde está o complexo principal de prisões do Rio de Janeiro.



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