Na primeira cadeia eu nunca deitava ou dormia de costas para cima. As inseguranças afloravam, as internas e as externas. Alguém podia me desejar eu passivo, nunca se sabe. Na juventude tive sonhos homossexuais irrealizados. Sofri muito com isto, tanto o de querer realizar como o de não conseguir; num inferno duplo de homo e de hétero. Conviver com vários homens eu já convivera na favela. Mas nas prisões é tudo diferente, o espaço é sempre coletivo; por mais particular ou pessoal a invasão ronda por perto, que com a superlotação tudo piora. Estamos num outro terreno de vida. Vi mais medos em mim e nos outros, sobretudo na ordem sexual. Aprendi por demais também, pois foi o espaço com maiores amabilidades vividas. Lá nem tudo é horroroso como falam que seja. O homem gradeado é o mesmo deste mundo e não de outro. Mas deixemos de toques morais. Aos poucos e contínuo no grupo de presos se planta uma ordem, mesmo que possa ser por momentos ou territórios fraca, faltosa ou desrespeitada. A vida é a ordem, a não vida a desordem. Ver um aprisionado deitado e todo enrolado num cobertor em tempo de verão, pode ser insegurança dele. A roupa como a grande proteção, feito quando vamos a um lugar de poder, principalmente os desconhecidos ou que circulam disputas e ostentações; geralmente templos de alta hierarquia como igrejas, palácios de governo e quartéis. Constatei com mais vigor e clareza na prisão, que o macho nacional brasileiro tem muito medo de certos gestos e posições de corpo, principalmente se sentir exposto com as nádegas à mostra; qualquer um secreto pode lhe amar à distância. Ambientes coletivos produzem esses silêncios; que podem estar dizendo mais o interno e pessoal do que o externo, ou os dois ao mesmo tempo.

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *