Ao entrarmos vamos lidando com novas ou outras higienes e também a falta delas; não só as alheias como as de nós mesmos. Há uma luta. Encontramos, tocamos e somos tocados pelas inhacas, melecas, ceras e por um certo azedo dos corpos que passaram ou ainda estão. Ao mesmo tempo deixando os nossos descartes sebosos naturais para os de agora e os que ainda virão. Existe um revolteio sem parar de tocos de unha, fiapos nojentos de pelos e de pentelhos, roupas usadas e trapos sujos, outros bagulhos e muito mais; que vão somando camadas nas anteriores. Encontramos até fantasmas de almas passadas, talvez penadas, de vidas aprisionadas. Isto tudo dito acima nos modifica e nos acrescenta sobrepostos interiores. Nunca mais se é como antes, mesmo depois já em histórias de várias cadeias. Muitos ou quase todos não passamos de sobreviventes. Os miasmas invisíveis da multidão, bacilos e o desconhecido infecto se ocultam no universo sem sol. Malcheirosos e fedores emanam e se misturam aos raros ares de limpeza e de incertos perfumes. Gases e outras descargas anais na boca do boi* e fora dela proliferam e contaminam. Uns se relaxam em hábitos lambrequentos e sovaqueiras ruins, outros lutam e mais outros alcançam firmes um certo asseio. Educar o semelhante é complexo e trabalhoso, quando por vezes impossível. Os corpos estão dentro do mundo.

No convívio do existir e na soma da multidão cada qual se aguenta. Quando a temos, a água vinda para nos limpar já vem suja até ficando podre. Estamos em uma cadeia, onde tudo é permitido como num espaço sem Deus. Um sem Deus por favelas e periferias também. Não lamentemos, Deus não é tão onipresente e onipotente assim como apregoam e até parece ser. Voltemos aos perfumes, banhos e coisas tais. No território íntimo presos internos se deixam levar pelos pegajosos de grudes, ou então vencidos e assim dobrados pelas forças externas da vida, não se lavam bem. É quando me pergunto, quem foi que inventou que o homem é o animal mais limpo. Um corpo excessivamente limpo ou excessivamente sujo pode estar doente. A prisão também é o mundo. No conflito e mal estar de corpos e corpos apertados juntos, nascem e aparecem sintomas. Olhares e mãos vivem em alta constância de guerra contra um espaço sujo. Mesmo tão exausto antes de tudo um banho. Corpos sentem nojo até de partes de si mesmo, carnes impuras a evitar. Às vezes não sei se falo da prisão física ou da abstrata; a das grades e concreto pela qual passei ou a do social do mundo liberto.

Boca do boi: na latrina, buraco aonde se defeca, no jargão penitenciário.

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