Ala penitenciária de Bangu III em dias de pós-rebelião. Clima de medo ronda as cabeças de fora. Vejo sempre enorme Bíblia aberta aberta por sobre a mesa do diretor da cadeia, como uma arma, uma espada, a proteger-lhe. Todo mundo prefere não entrar lá, ao meio das galerias de dentro. O ar das duas alas, principalmente da B, respiram a guerra entre duas tropas inimigas em choque, os soldados de fora e os internos de dentro. Como a deixar o coletivo se refrear e abrandar-se do seu furor de revolta, a guarda prisional mantém-se distante, sempre fora do miolo das grades, na proteção de todos os cadeados batidos, isto é, fechados nas travas das portas. Na ala B tenebrosa e meio escura, nem mosquito parece querer voar, num espaço de silêncio e de sem vida. Leia mais

Eu digo lá fora, que tenho mais medo de carro do que de bandido. Esta frase, foi dita num instante de liberdade e de comunhão, numa aula dentro da cadeia, em Gericinó, Rio de Janeiro. Houve silêncio geral, talvez em alguns, como um entrave a engolir. Passados dias lembrei dela novamente, só que com certo sentimento de cuidado e com a indagação se ferira alguém. Mas a tal frase não se desligava de mim, como se dizendo-me algo e eu incapaz de entendê-la. Eu tentava esquecê-la, e ela, insistente, me voltava. Leia mais

O preso não tem direito a nenhuma sombra. No entra e sai de internos das muralhas, em idas ao fórum ou transferências, eu cruzava com esgares de agressão desumana, sofrimentos gratuitos e secretos pesares. Mãos para trás, rosto sempre ao chão, os internos iam e vinham. O tratamento dispensado dos alemães aos judeus nos campos de concentração, se parecia demais com o nosso do sistema carcerário brasileiro. Bem sempre à distância de qualquer pessoa de fora, o preso não pode ver ou ter o mínimo de paisagem possível, naquele que talvez seu momento único de ar e de passageira liberdade. Tratado qual animal profundamente hostil, é visto por eterno perigoso, mesmo sem aparentar ou ser. Os exageros prisionais intensos ou sutis diariamente afloram. Leia mais

Sempre li jornais. O viver dentro das grades mostrou-me alguns disparates de notícias. Ou seja, entre o acontecido por lá e o veiculado aqui fora. Mas isto já se banalizou, virou talvez uma das nossas verdades de ser. O jeito brasileiro da mídia nos contar. Leia mais

Sempre lhes pedi, que ao me verem pelas ruas nunca deixassem de falar comigo. Um aceno, um olhar de mansidão e amigo, uma palavra. Talvez esse pedido seja apenas o sentimento de que, afinal, não poderei jamais viver sem eles. Nos abraçarmos lá fora, foi uma das declarações mais fortes e ensejadas, de quando um deles ficava na iminência, esperançosa ou real, de alcançar a liberdade na imensidão do mundo. Leia mais

 

Aonde almoço diariamente, levas de soldados chegam também para a refeição do meio-dia. Corpos cobertos de equipamentos e armas de fazer inveja a muito guerrilheiro talibã. De tanto aparato, cada praça gasta algum tempo desfazendo-se de pesos e incomodações, até poder sentar-se à mesa. Alguns cantos de paredes e de chãos, reserva-se o direito de funcionarem como depósito de armas e de coletes. Sentado, entre uma garfada e outra, indago-me silencioso sobre seus suportamentos de peso, com os corpos sufocados das vestimentas e botas, tudo em parceria com o nosso alto de constante verão. Fuzis, pistolas e munição à mão-cheia, cada combatente carrega, ao modo de necessidade e possível inesperado ataque. Encaro alguns soldados, e vejo olhares de alta desconfiança e de guarda. O inimigo parece estar em qualquer lugar, no meio do povo, talvez já o próprio povo. Leia mais

Nunca mais me esqueço daquela tarde enlameada, com sol escaldante abrasando tudo. Eu ia pela primeira vez entrar em Bangu III. Acesso que só aconteceu dias depois, por entreveros de início de aula. Para mim, no entanto, foi aquela quarta-feira que me ficou documental, como um ato deflorante, sem ainda ser. Leia mais

Estou em Auschwitz! Esta frase foi a que me veio à cabeça quando, em 2003, meus olhos dominaram o horizonte de telas de arame, grandes galpões em série, mais a multidão de internos exalando os sem destino, sem pátria e, acima de tudo sem liberdade. Uma parte deles jogava bola num campo enlameado, em sol quente abrasador. A falta de objetividade emanava em todas as direções, a ociosidade obrigatória. Estamos na unidade prisional Plácido de Sá Carvalho, Gericinó, Rio de Janeiro, como em todas as outras. Leia mais