Nunca findarei por dizer estas coisas. Um só uma parte. Muitas gargantas nasceram, outras virão. Dentro do meu sangue almas e mortes. Sei que sou eles. Parecem que gritam por mim. Alegres muito alegres descalços, brincávamos. Pipa voada imensidão. Ou roto balão que caía. Alguém de mais velho contava de nós as histórias. Formávamos, ao de casas sempre a acabar e barracões, juventudes de vida. No ganho da mesa ou cozinhas faltosas, sortudos valentes roíam bicados, arranjados à boca e instantes, aumentando uns trocados do dia. Futuro mesmo estava por nos vir, portanto desconhecido qual era. Fiapos de meninices mais energia sonhadora protegia um pouco. Casca de materno já estava indo embora.

Num som de dias a vida separou de vez, isolando todos de si. Não se reconheciam mais. Cada qual a vencer e lutar. Cegos, inusitados distanciadores, caminhos empurravam ao ir. Brancos e mais brancos tinham mais alguma sorte. Fisgados aos balcões de lojas e de ruas. Mas no tudo estava ao igual, na ausência do ter e do ser. Cavar ao buraco ou ir a copeiro perecíamos as diferenças, tocados a mesmo dinheiro.

Outros depois, de nós, aos poucos foram se perdendo. Abismos interiores enfim; que acontecia? Do nada que se tornara tudo e nunca nos deixava. Algo profundo ruim infernava de dentro. Por que enfim insistente eu pensava naquilo? Nada por tudo me salvava. Secretos, nos escondíamos visíveis a cada vez mais. Embriagar e doideira sempre nos delatava. O sexo e a dor confundiam no mundo. O mundo.

Vários o crime pegou e levou; nas mortes, ganhos e sinas da vida. O que sobrou juventude tornou-se neurótico. Até a velhice e o arrefecimento ir abrandando aos poucos, talvez que já não prestássemos mais. Sobras esmagadas e já de ontem, enganosas, só nos dizem agora morrer.

Mãos libertavam e corriam. Mulheres. Grades. A púbis. Vida apontava por ali. Os olhos queriam ver. O ar empestava de surdo, esperante. Mundo de ovo a estourar. Tudo se mexia atônito. Bacias e toalhas. Um nino está por saindo. Cuidar cuidar. As mães-pernas acudiam velozes. A cela estava por perto. Mais que nas mãos levavam ardores. Núpcias e macomunados. Felicidades enfim. Pelo céu lá de fora o sol já esperava. Mais luz. A penumbra da cela estourou de vez. Mãozinha já se chegava. Eu só queria sair. Todos os olhos a aquela fonte. Vida só por ali. O grande templo brumoso. Carinhos e braços ansiavam que ela viesse logo, nunca se demorasse tanto. O reino olhante agora só dela. O centro do ar num parado, num meio respiro de só. A penumbra da ala estava vencida. Pezinhos descobridores ganhavam o mundo. Alma nascente a respirar. As mães gradeadas acorrendo todas, num concluio só. O sonho da vida acabava de nascer.

Me amo ainda menino, descalço e correndo na rua.

 

Nunca estivera com morto sem de caixão. Subi a rua correndo e olhei. Bichos saíam e entravam. Tudo na pele. O ar traiçoeiro não me deixou engolir. Pulmão vomitava por dentro. Porta da cadeia exibia terror. Preso da vila se apodrecera lá dentro. Saí de carreirada e de só. A janta depois não entrava, o fígado me rejeitava faminto. E o podre estava por ali. Baba cuspidora me embrulhava de tudo, tripas a coração. Pulei ao feijão e não deu. Chave da goela emperrada e surda, se negando a se abrir. Mãos de menino indagavam o que faziam. O caminho se chegara a um fim? Buscou nos gestos dos homens que iam fazer. O grito do podre incomodava ação. Tinham que sumir, esquecer, nunca lembrar. Soterrou-me num jogo cemitério de vida, o nojo daquela janta.

Num instante longo de sol e de seco, silene de voz professora no Gericinó em lamento. Alguém de preso em caçapa ao braseiro morrera ali. De secura por dentro. Estacionada num canto distante, só o surdo motor lhe ouvia. A escuridão da lata. Enterrado já, podia morrer sem perdão. Aos poucos amolecendo. Antes sinal de gritos e de chorar, depois um esmurrar por não sei. Ninguém lhe veria mais. Dormiu num instante e acordou. Esperava atônito um sinal, porém nada se via. Em delírio de seca pensou ver num úmido, os olhos não lhe achavam. Lembrança de um guaraná. Pelo estômago queria. Inútil agora viver. O guarda depois, na hora do tarde confere pensou. No aço do carro lhe esperava um morto, a vida bandida vazara e se foi.

Saí e entrei tantas vidas em Gericinó. Depois eu pulei ao Brasil. No secreto das execuções, em cruel e planejado descaso; no olhar de escárnio das incongruências desumanas na dor. Os gritos jamais ouvidos, que nenhum inconsciente alcançará. Os dias de cada um, inexorável bem devagar, morrendo. As tentativas e lembranças e de saudades. O aceno, o visto, o coração. O carrasco fundo da vida. Os corredores dos fins.

Na minha solitária de apartamento, tenho sempre que estar pensando, como fugir.

 

 

Toda manhã num assalto novo. Periculosidade não reside nisso, mas felicidade. Entrando aprisionado no III talvez eu já trouxesse algo de fora, de mim mesmo, em mim, como perna a ter que andar. Tardiamente depois, já no V, comecei a quebrar muralhas, as fugas estavam prontas. Não ainda de todo conscientes, porém mostrando por sinais a perfeição da ação. Que a periculosidade, certamente a se resguardar para não se destruir, mantém-se dentro de nós meio que latente, qual um petardo perfeito a demolir, a transformar. Eu vivia na grade em clima de soltura, na busca incessante da fuga maior. Meus amigos do crime, ajudando.

Às aulas então. Nuns certos dias comecei a dizer-nos algumas frases de ação. Elas não vinham prontas, encaixadas num plano de texto ou de parágrafos. Fugiam de mim quando o momento desse, e viesse. Conforme talvez algum toque de muralha impeditivo, enxergado pelas mãos do olhar. Na verdade eu já ficava que solto, do outro lado, chamando-os. Inclusive um canto mesmo de mim, também fortemente aprisionado. Mas isto, minha mão assaltante, bandida, começara a praticar e realizar ainda no III, desde meus primórdios na relação criminosa.

Eis que as frases saíam bem soltas. Num certo devaneio escapulo de estado, explanava firme e sem forçar, que meus amigos de cadeia e, portanto de vida, nunca estavam condicionados a mais ou a menos jurídicos, a mais ou a menos penalidades. Estas, medidas por um juiz analfabeto de grades, que nunca na vida nos conheceria. Um estranho e anômalo intrujão, vendo o mundo pelo saído de sua débil caneta. Então quem assim descobria o mundo e inventava as amizades eram nossos olhares, movimentos e momentos; alguns preciosos dos mais sutis.

Condenados infinitos a falsear pelo direito legal da lei, os magistérios prisionais e aprisionados seguem professorais, impondo e lecionando verdades. Produzem uma linha tênue na relação, ora feita com muito medo, ora com eterna bondade fingida de coração. No acontecer de raros laços passionais com o prisional, o magistério pecador entra em exclusão da cadeia, voluntariamente ou não. Paixões só com a fôrma da lei, ou o enquadro de um juiz. Todo o aparato vigia. Que fruta entrante à carceragem em mão de professor ou professora, podem criminalizar, desconfiando. Por assim também, sonhos com bandidos e humanos pulsares secretos, devem se manter quase aos recalques, tidos ao jogo rápido do esquecer, em passagem indesejada de vida. Formados a produzir as fôrmas espetaculares de estado, os professores secularizam as exceções, as pequenas tiranias, as hipocrisias.

Aos nossos amores quase secretos. Dos que já se foram, dos que ainda estão.

 

 

Alto barulho me invasor ao ataque. Sirenes de tensão e rechace, pelas ladeantes. Correm a único lugar. Dos céus, ave rodante soa e estremece, a morte nasce dali. Bocas de fogo miram abaixo. Vão e que vem; volteando, fuçando minúcias. Todos os lares suspeitos. Criança mesmo dormindo esconde o nojo do ódio, o mal. Ao ataque vitupério então.

Motocicletas iradas cercam as saídas e entradas. Constante posto de tiro vigiam o ar, um cisco pode matar. Todo medo tornou-se rotina. Até sombreado ao sol escaldante vai me enganar e ferir. Encolher tático e já tão contumaz, surge no corpo em instante. Peles mortais necessitam esconder, deitar no chão e se aninhar. Nuns lares, cantos da casa se viraram mais queridos, difícil da morte ali me atingir e furar. Algo de móvel se põe em barreira, que foi habilmente já posto. A guerra dentro de casa. Atacantes, diabólica bala pública do governo pode matar-me. Serei apenas mais; ou quem sabe já sendo menos um. A vida de um dígito, facilmente deletado depois. Às trincheiras voltemos. Em paredes o emboço fica bem mais forte, cimentos e areias misturados a mais. Ninguém sabe do estorvo que vem. Certeza só a do ataque, na hélice do vigiador. De cima não sabem quem sou. Minudências distância impede de ver. Não há tão binóculo ainda. Da ordem assim só matar. Inimigo está logo abaixo no morro. Identificação já foi feita, pode atirar. Certo “engano” desculpável da guerra. Todos habitam ao léu.

Crianças já nascem ao ataque possível. Falar, andar, defender; lances aprendíveis à vida. Ser o que for depois, mas antes e antes humano. A hélice lá de cima nos desiguala de todos, no berro cruel de um ataque iminente. Luzes vermelhas avisam; em claro soslaio estamos aqui.

Ao desumano da favela sempre inimiga, incertezas e faltas habitam. Vidas tão perto distantes. Água primeiro é de baixo, se sobrar alguma que sobe. Estreituras de ruas que merecemos ter. Forma de colmeia que favorece e guarda, marca porém o atirar de certeiro. Ninguém por dali faz falta.

Olhamos num ser e não-ser. Ouso, meio escondido, ou até a não dizer aonde moro e onde durmo. Me escondo. Podem desconfiar. Não me aceitar. No fim, incongruência de existência, medo e muito nojo de nós.

Uma parte da população, talvez grande, imagina ou está educada a ver cadeia como um céu, alguns também com ironia. Lugar onde as necessidades básicas do comer, abrigar-se e do vestir estão totalmente atendidas. Lógico que sem dispêndio de trabalho ou de custo ao interno. Então isto assim seria o céu. Não lembram porque nunca viram, que lá a liberdade é ausente, todos trancados. Que moram juntos numa mesma cela. Os banheiros, chamados “boi”, de uso coletivo, isto é, toma-se banho aos grupos num mesmo momento. Sendo, que uma das coisas mais horríveis por lá é a perda quase total da realização de desejos. Mais ainda, o sentimento dessa perda. Outro dado mortífero daquela condição, a ociosidade obrigatória, o não ter o que fazer, muito menos aonde ir. Que perdas e agressões psíquicas isto produz no ser humano, caberia e cabe um estudo.

Do Engenho de Dentro a Campo Grande é uma viagem de trem urbano. Que faço de vez em quando em visita ou a trabalho. Com as composições novas, vieram o ar condicionado e as imagens de televisão. Resolvi um dia então vê-las, as imagens. São propaganda de governo e sempre repetidas na mesma série, num bombardeio incansável. Ao que serviria aquilo? Minha mente me perguntou. Logo a seguir respondida, amansador de população. Especificamente, tratamento e prevenção contra possíveis fúrias coletivas. Nas imagens mostram e dizem um país de risos e constantes realizações felizes. No trem, ao final do dia e já até noite, o trabalhador exaurido e espremido na lotação do aperto, fica obrigado e bombardeado pela propaganda adocicadora oficial. Sim, um adocicador de mentes.

A cadeia é um lugar restrito, proibido, e altamente indesejado se chegar por lá. A restrição tem fins controladores de imagem e do real. Logo no início da Estrada General Maurel Filho, a via que nos acessa a todas as unidades prisionais, está a primeira cadeia, a Penitenciária Industrial Esmeraldino Bandeira. Nela, o muro se mostra sempre bem pintado e cheia de micro-indústrias. A panificação e uma fábrica de tijolos foram as que mais ficaram nas lembranças. No trânsito diário de ir e vir, notava que a Esmeraldino Bandeira é a mais visitada e visada para quem vem de fora em visita de autoridade. A vitrine do Complexo de Gericinó. Então, a todos a quem se deve mostrar e provar como funciona o Sistema Carcerário do Rio de Janeiro, a bela e funcional Esmeraldino está lá, esperante.

Ao lado dela, da Esmeraldino, fica a Plácido de Sá Carvalho, vivenciada por mim durante cinco anos. O que vi da Plácido é que a miséria e a ociosidade imperam. Numa manhã, em depoimento inesperado, um aluno na escola me passou um drama de todo o complexo. Relatou-me ele, em tom de alto sofrimento e perda, que até o dia anterior estava no muro ao lado, na Esmeraldino. Que nela trabalhava diariamente fazendo pães e doces, com dias produtivos e até felicidades. Mas, por trâmite da pena jogaram-no ali, na Sá Carvalho. E que agora, sem qualquer ocupação, estava obrigado a ficar olhando pras nuvens, no tédio do ócio obrigatório. Um inferno. Por este depoimento e pelos meus olhos de vivência diária, vi a função da Esmeraldino como vitrine de Gericinó, e a grande busca, mas sempre negada, da maior parte dos aprisionados em trabalhar.

Nos momentos de filmagens em qualquer prisão de Gericinó montam-se cenários. Eu, inclusive, já participei de alguns. Sincero, quando eu convocava meus amigos e alunos aprisionados, dizia-lhes:”olha gente, é coisa rápida, só um cenário!” O que todos entendiam, e geralmente colaboravam. Mas colaboração conscienciosa de que tudo aquilo nada mais era e é somente imagem enganação. Como naquela do trem.

Roubávamos alheias frutas e não éramos gritados ladrões. Saíamos cedo a ver o que desse ou viesse. Podíamos dar com laranjal maduro ou pequenas preás num canto ermo de mato. Chegávamos ali, naqueles lugares, famintos. As mãos roubavam e caçavam de tudo. Num dia de sorte retornávamos felizes. Ostentando jacas maduras e cheirosas, ou um pouco de carne pendurada, na pele de um bicho morto.

Em casa, nossas mães nunca brigavam pelas arteiras. O fruto da volta repartia-se com todos. Podia ser, e era, que bocas famintas e desejo torcessem por nós, em regresso festivo. A moral solidária conjugava-se e aceitava alguns furtares feitos. Roubar, coisa de crianças. Quase como um gesto infantil qualquer. Por vezes até despertava reconhecimento heroico, de quem já podia fazer, realizar. A periculosidade como maldade ainda não nos atingira, feito uma bala perdida mas dirigida a um corpo certeiro. O mal sorvia outros, de gosto, de escolha.

Numa tarde triste alguém de nós foi morto por umas laranjas. As mães falavam baixinho, com a dó de aceno do amor. O lugar morria em luto. As almas, até as desconhecidas, todas choravam. Num atônito de mundo. Virada de propriedade, de não-perdão. Os aceitares se esmoreciam, e ainda não sabíamos que era. O tiro da morte sinal de brutalidades vindo. Mas chamar de bandido, até nos anos sessenta, circulava a economia restrita de raros furores.

E nossa criancice virou juventude. Sonhadores, nos reuníamos por volta das cinco na esquina escolhida e ainda de poucas casas. Contando vantagens, desejos futuros dados como feitos, e heroísmos às vezes abissais que nos sustinham. Achávamos todos que arranjaríamos emprego, casaríamos e a felicidade ingrata dos pais também nos encontraria. A comunhão às vezes acontecia no compartilhar do único cigarro aceso, puxado do maço que ficara vazio, mas guardado ainda para proteger outro filado depois. Tornávamos nossa miséria farta. Não tínhamos quase nada que fazer, mas a juventude se mantinha. A falta de diversão apertava sedenta e com voraz suplício os desejos vindos.

Num dia tiraram também as esquinas de nós. O urro amedrontador de um camburão foi entrando devagar. Resistíamos, mas a luta parecia inglória, já perdida. De manhã tínhamos até mais folga, talvez polícia só começasse depois das dez. Mesmo sem parar ou com alguma inquirição ou revista, olhos rastreadores nos punham suspeitos. Mas ainda nem mais roubávamos laranjas. Queríamos emprego que quase ninguém tinha. A vadiagem então nos pegou, jogada sobre nós e famílias. Porque éramos inevitáveis filhos de alguém. Por não ter ou fazer nada a juventude se criminalizou. Ingênuos, então fugíamos da polícia qual cruéis desordeiros. A casa de cada um funcionava prisão. Tínhamos medo de sair. Pois a liberdade da rua já era crime. Mas muito pior viria depois, nascido dessa gênese louca. Ser jovem se tornou bandido.

Deparo-me com um aceno inesperado ou um toque no ombro. Às vezes demoro a reconhecer, pois a transição da vida muda o corpo, e de quem passou pelas cadeias mais ainda. Atendendo aos meus pedidos de que falassem comigo na rua, até quem não foi meu aluno ou companheiro de cadeia, mas me conhece, sente-se feliz ao me ver, se declara quem é, e então nos abraçamos no mundo.

Depois dos abraços, passado o entusiasmo inicial e na reflexão, vejo mais nitidamente os caracteres, e a conjugação deles, de quem acabei de encontrar. Nalguns a posição forçada, estou no legal, estou trabalhando, mas não estou feliz. As mudanças nas transições podem demorar e até não se realizarem, mesmo havendo tanto andamento. Não basta dizer tem que ir ou fazer, as escolhas do eu são bem mais profundas. Noutros rostos percebo a tenaz firmeza de que continua no crime e está feliz. Existe um mundo de incertezas e embolação. Ainda dentro da cadeia, eu encontrava num mesmo corpo em dado momento, manifestações díspares e contraditórias, como numa indecisão ou cegueira. Crime e religião se misturam muito nas grades, buscas de uma saída.  E os distúrbios psicológicos aumentam ainda mais os desnorteamentos.

Então, cá fora, no encontro nunca pergunto, como um polícia inquiridor, se continua no crime ou saiu. Simplesmente deixo o amigo falar. Naquilo que o instante e as suas escolhas lhe quiserem dizer. Antes porque a amizade e a vida não estão subordinadas a legalidades e a permanências ou não. Mais do que chances, as imposições para continuar no crime são infinitamente maiores do que para sair. Exemplo. Um aluno dizia-me claramente: “professor, ao sair daqui vou pra comunidade. Estando lá, e claro ainda desempregado, na hora do almoço sentirei fome, então vou no movimento, pego cinquenta reais e já estou empregado novamente.” Ou seja, no crime.

No meu convívio de dez anos de cadeia, lecionando, encontrei muitas vezes mais solidariedade, bondade e verdade dentro do crime do que fora dele. Quando hoje, vejo um ex-interno lutando para sair do crime, não sei se ele está certo ou errado.

No Brasil hoje, existe uma multidão de apenados condicionados, já ex-internos, incomensurável. Sobrevivendo, aguentando, no crime e fora dele. No fundo buscando viver. Só que aprisionados no grande Complexo Penitenciário Social Nacional. Sem grades, porém sem chance alguma. Cadeias perpétuas.