Sempre lhes pedi, que ao me verem pelas ruas nunca deixassem de falar comigo. Um aceno, um olhar de mansidão e amigo, uma palavra. Talvez esse pedido seja apenas o sentimento de que, afinal, não poderei jamais viver sem eles. Nos abraçarmos lá fora, foi uma das declarações mais fortes e ensejadas, de quando um deles ficava na iminência, esperançosa ou real, de alcançar a liberdade na imensidão do mundo. Leia mais

 

Aonde almoço diariamente, levas de soldados chegam também para a refeição do meio-dia. Corpos cobertos de equipamentos e armas de fazer inveja a muito guerrilheiro talibã. De tanto aparato, cada praça gasta algum tempo desfazendo-se de pesos e incomodações, até poder sentar-se à mesa. Alguns cantos de paredes e de chãos, reserva-se o direito de funcionarem como depósito de armas e de coletes. Sentado, entre uma garfada e outra, indago-me silencioso sobre seus suportamentos de peso, com os corpos sufocados das vestimentas e botas, tudo em parceria com o nosso alto de constante verão. Fuzis, pistolas e munição à mão-cheia, cada combatente carrega, ao modo de necessidade e possível inesperado ataque. Encaro alguns soldados, e vejo olhares de alta desconfiança e de guarda. O inimigo parece estar em qualquer lugar, no meio do povo, talvez já o próprio povo. Leia mais

Nunca mais me esqueço daquela tarde enlameada, com sol escaldante abrasando tudo. Eu ia pela primeira vez entrar em Bangu III. Acesso que só aconteceu dias depois, por entreveros de início de aula. Para mim, no entanto, foi aquela quarta-feira que me ficou documental, como um ato deflorante, sem ainda ser. Leia mais

Estou em Auschwitz! Esta frase foi a que me veio à cabeça quando, em 2003, meus olhos dominaram o horizonte de telas de arame, grandes galpões em série, mais a multidão de internos exalando os sem destino, sem pátria e, acima de tudo sem liberdade. Uma parte deles jogava bola num campo enlameado, em sol quente abrasador. A falta de objetividade emanava em todas as direções, a ociosidade obrigatória. Estamos na unidade prisional Plácido de Sá Carvalho, Gericinó, Rio de Janeiro, como em todas as outras. Leia mais