Faço crônicas. Um passo maduro que dei, já com alguma coisa em avanço, foi quando li uns textos menores do Pamuk. Antes aconteciam já as crônicas, pois que a mão e a cabeça conseguiam pequenas histórias. Só com o passar e um amadurecer nunca acabado as frases e parágrafos foram melhor saindo. Também que por dentro, formou-se em mim um conceito, uma estética. Algumas delas saem com pouco ímpeto, com um pouco de brandura, como se a própria brandura fosse ou seja sua tonalidade de pintura, de paisagem. Umas outras saem de mim num ímpeto voraz de se pôr ao papel, ao mundo. Destas são as que eu gosto mais, me sendo como um soco que dou ao mundo que quero atingir. Uma ou outra das brandas ligo-as a uma espécie de boas e certeiras facadas que dou; que por vezes terminadas, ensaio movimentos agressivos e esmurrantes no ar, numa forma de desafogo e afirmação. Atingi o que queria. Sou um assassino. Por vezes me questionei em consciência, se caso matasse acertado quem eu queria, se haveria arrependimento ou culpa, descobri que não; talvez que até me desse um lastro moral. Certas crônicas demoram a sair, levando-me dois dias, num parimento mais prazeroso que cruel. Uma palavra faltosa ou errada me põe em constante desassossego, numa pequena angústia que o move e o mantém. Leio e releio infinitamente o rascunho até acertar; embora quase nunca sabendo antes o quê. Certas horas os olhos me dizem que falta, num vazio entre palavras, como num trecho de escada faltando degrau. Ou, por outras, a palavra não diz, tendo que assim trocá-la pela correta que vem. Mas todas as palavras têm a sua serventia de quase igual valor; que mesmo as erradas, as que entortam o texto ou não dizem até nada, estão e me dão uma direção: olha, eu não sou daqui. Repetir-me numa frase já escrita, mesmo que numa crônica distante, me causa dissabor. Repeti-la só se a ênfase exigir. Nos últimos anos penso em crônicas continuamente, como algo a terminar ou que nunca se conclui. Criei um outro universo paralelo, o da escrita, por dentro de mim. Que o do pensar antes já estava.

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