Chegou a felicidade dentro da prisão. Notícia vindo de fora, comunicava que quem desejasse ser garçom se pronunciasse na boca da cela, e desse o nome na lista que passariam logo depois. As vagas eram limitadas, não havia tempo a perder. Houve quem garantisse até emprego certo no futuro para os diplomados. Que nós se arresouvesse. Aprenderíamos sobre finas comidas e coquetéis de luxo, segurar uma bandeja de serviço, também como andar direito num salão de restaurante ou bar com roupa branca e gravatinha borboleta. Até como falar o ensino instruiria, imaginem. Passada a lista dos futuros garçons esta se lotou de nomes, a sede de procura foi imediata. Como não poderia deixar de ser, após o ato de matrícula, porque a lista já era de matrícula, os adiante formandos e formados começaram a fabular felizes entre si; a manhã-prisão virou da água pro vinho, como no primeiro milagre de Cristo. A grade continuava grade, mas não a sentíamos mais. Houve alguns que se se relembraram do sonho de servir banquetes e trabalhar em lugares requintados, ricos, cheios de gente bonita. O mundo do crime finalmente seria deletado; correr e atirar em polícia agora nunca mais. Como sonho puxa sonho outros vieram juntos. Bocas já falavam em Paris, trabalhar em iates luxuosos, quem sabe nem morar mais no Brasil. Nos pensávamos já outras pessoas e mundos.

A aula logo começou dias depois com a sala cheia. Uns imediato desistiram , sem ninguém perguntar por quê. Os que ficaram, a grande maioria, só enxergavam o futuro, o curso, o aprendizado. Ser garçom tornou-se o grande ápice de nossas vidas naquele momento, enfim tudo o que desejávamos e iríamos conquistar. O mestre restauranteur como alguns de nós já dizíamos, arranhando um meio analfabeto francês, um senhor branco, alto e muito respeitoso, se entregava o máximo, explicando coisas profundas e desconhecidas para nós. Descobríamos, que até andar era difícil, nesse caso com corpo e movimentos elegantes, em outro mundo. Ensinava como segurar copos, taças, talheres e, quase um malabarista, manter no alto numa única mão a invejável bandeja cheia de coquetéis ou camarões graúdos.

Alguns de nós passamos a vir das celas para o curso mais arrumados, tomávamos até banho antes. A nova vida já começara dentro de nós, em nossa higiene e hábitos. Teve quem por necessidade voltou a ler, vivendo seus futuros se preparando para ele. Ser garçom atingiu as famílias, que os mais afoitos e talvez mais felizes participaram aos entes queridos. Para nós alunos, as histórias e ensinamentos do mestre-garçom invadia e inebriava nossos espíritos. Desde o primeiro dia de aula, a boca mestrada em iguarias e servir nos anunciou galharda, que para fechar o curso, seu apogeu nas formaturas, haveria grandioso banquete nas grades servido já por nós, recém-formados garçons. Um novo mundo atingiria a prisão inteira, na certeza de que poderíamos mudar. As noites antes de dormir para os cursantes, passaram a ser de conversas prazerosas acalentadoras, um horizonte feliz nos acenava, mais, já nos abraçava nele.

No dia de chegar enfim o material prático para treinarmos nada apareceu. Manejar louças e cristais ficou só na promessa. O professor, ressabiado e com um certo medo talvez, se desculpava conosco em revolta, ele estava buscando resolver. Sem nada de aviso o nosso castelo que era só de cartas ruiu, pois o homem do curso sumiu. Por alguns, os mais teimosos de nós, uma oca esperança mas com cara de cheia persistiu. Porém aos poucos a natureza da cadeia engoliu tudo e nos fez esquecer. E assim nos matou novamente. Houve alguém que chorou, disseram, na lágrima de mais condenação. Outros, passaram a fazer piada na hora da quentinha*, se fingindo de garçons ou em delicioso banquete. No mais, no mais da vida mesmo, e que se eternou em nós daquela prisão, a Elizabeth Sá Rego, que fomos usados para um grande roubo, este no custo do curso em fingir que se gastou dinheiro; golpe tramado e feito pela estrutura pública e a privada em concluio de quadrilha. Estudar nos passou mais uma vez esta já muito repetida lição, a de como roubar do povo sem que este se importe.


Nota do autor: quentinha nesse caso, vasilha descartável com a comida do preso.

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