Minhas origens e entradas no crime vieram dos outros eu ainda menino. Dois momentos. Homens fortes acobertados por um polícia que só fingia, empurravam e jogavam ao chão sem parar um outro homem morro abaixo, rumo à cadeia. Polícias entraram correndo num quintal de roça e chutavam aos berros as costas de um negão agachado que urrava, o camburão lhe esperava. Fora os sentimentos que nos doíam muito ao presenciar, em mim vinha intensa pergunta em por que irrespondida, sendo talvez daí os nascedouros dos meus futuros. Nenhum parente meu passou por prisões, a não ser este que vos escreve. Houveram-me fortes complementos depois, com meninos iguais a mim que entraram rapazes por ele e acabaram por delegacias e carceragens; e isto também me contaminou. Só um ladrão de galinhas patos e perus me vaticinou, o Taíca, dizendo que eu tinha cara de otário mas não era otário não; botando-me já um precoce fora da lei.

Cada morte das balas públicas no automático gera o retorno. Meu filho morto por um tiro-polícia me brota vingança matadora de pai. As armas da lei furando casas e corpos semeiam ódios criminosos a pais, mães, avôs e crianças miúdas. Eu me vingarei, passa nobre e natural pelo espírito-família. Proteção vem da horda. Depois de um genocídio público em invasão domiciliar, uma parte se vitima outra se apronta aos furores do troco; e é esta parte das pessoas que responderá: todos os polícias têm que morrer. Nos ajuntamentos periferias a energia corporal se dinamiza muito mais, circula a intensidades de diferentes caminhos. Está no sangue se importar. Estamos aqui e sempre nos cuidaremos. Todo bandido como eu é parental. Eu morto, alguém mesmo que num futuro me vingará, como dois pintores desconhecidos entre si que se continuam num mesmo estilo. Pela ordem natural dos tiros nossas famílias são mais criminosas. A lei dos fóruns não subordina viver.

“Parem de nos matar!”, anunciam clamor na entrada da favela. Força-polícia invadiu e matou, num ataque ao Jacarezinho pelo maio do XXI. Os jornais mostram mas ninguém acorda. Na rotina do dia falo então outra coisa: matam no morro porque não liberam dinheiro, e polícia vive de notas garimpadas. Acrescento aos ouvidos, que isto do dinheiro como notícia eles nunca verão em jornais e tevês. Mas ainda assim e por isto mesmo continuam a não me ouvir; eu não sou a mídia, então sem boca e também sem a voz. As agências das verdades nos testam ao mostrar-nos coisas, se estamos a despertar-nos ou não.

Em toda invasão e matança pela força pública na população, me lembro no “Cabeça-de-Porco”* e sua resistência e vitória, ainda no XIX no Centro do Rio de Janeiro; nossa crônica começa ali nele. Depois a República como agora estão só seguindo o programa estourando cabeças. Só a lógica parental nossa que perdura, se enrijece e se finca, na resistência e existência da vida.

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Nota do autor: o Cabeça-de-Porco foi uma vila pobre (um cortiço), que numa tentativa primeira de desocupação dele na força pela Polícia Militar, resistiu ao ataque.

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