O demônio do meu pai ainda me perseguia na alma, mesmo ele já lama no cemitério. Porque sua mão podia enfiar-me o cigarro proibido pela goela adentro, ou torturar-me a uma grossa ripa de madeira. O tirano família nos empurrava medo e terror como respeito. Nas prisões pouco me dei ao luxo e ao paraíso de fumar alguma coisa. Não muitos eram os instantes de puro prazer; o que me dava ao apego de umas fumacinhas de leve no relax, às vezes em comunhão com os amigos. Ainda mais professor mas já me virando bandido, parceirão de quadrilha precaveu-se temeroso, porque eu escrevera em nossa crônica inicial de que fumávamos partilhantes pelo pátio da escola. Podiam pensar em maconhas e assim nos condenarem mais. Mas num ato de mais criminoso que ele não me importei. Fumar não é um gesto proibido, muito menos só de bandidos como nós.

De vez em quando aqui fora me lembram de que cigarro mata. Ao que contraponho, que o mesmo Ministério da Saúde que coloca imagens horríveis antitabagismo nos maços, é o mesmo que autoriza todos os venenos, não só nos fumos mas em todos os alimentos salutares à nossa mesa. No que ao nosso contradiscurso responde uma surdez geral; os ouvidos domados.

Muito me pergunto por que só se atira mortal na droga da favela. Nunca veremos patrulha de polícia em ataque na portaria de brilhante hotel praiano. Nisto, quase sempre cito o Copacabana Palace, por saber que em seus lençóis deitam e rolam porções da cocaína mais pura. Lá também ninguém é de ferro como no morro; cheiram e fumam, por muitas vontades injetam.

O discurso repressivo castrante age muito mais e tem mais efeito nas classes e estratos baixos. A culpa é um peso que vem de cima; e a lei também. Atravessando toda a linguagem existem as travas seguras do normal; e antes, forma e conteúdo, a invenção do discurso por quem o determina. Toda fala é uma fala possível do que se pode dizer, e nisto também o ouvir.

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