Mergulhei em retorno ao mundo num brilhante raio de sol. A natureza me dava sua bênção, um menino bandido posto em liberdade. Na minha década de ausência livre as águas sociais tornaram-se outras, talvez bem mais turvas ou então meus olhos escureceram pela rotação e avanços da vida. Vim tateando devagar, como em mergulho num rio com as mãos à frente em tentáculos de perceber. Nos primeiros dias no acordar as manhãs vinham lentas e muito medrosas. A polícia poderia me pegar novamente. Gato escaldado tem medo até de água fria. Mas obrigado pela vida vim engatinhando como novato. Chuvas de patrulhas de polícia agora varrem pelas ruas; coisa que não tinha antes. Também apareceram nas bancas de jornais, tabloides denegridores e condenatórios em suas manchetes. A mídia hoje dando uma de juiz sem recurso ao réu, mesmo condenando ao eterno um indefeso anônimo sem crime algum nas costas. Estampar um rosto qualquer em primeira página, tem mais peso e verdade do que todos os martelos da lei. Repórteres dedos-duros e lacaios sujos. Vamos em frente que aí vem mais gente.

Antes um sobrado tímido o jurídico tornou-se arranha-céu, com seus marqueses da lei no topo luxuoso e inatingível. A escumalha de baixo nunca os verá de perto. Nobres não pisam no chão de calçadas famintas, vivem no paraíso. Talvez pelo atingimento da distante altura, os frangalhos e farrapos de justiça do antes foram também sumindo. As falas magistrais têm mais força e domínio que a voz de Deus. Este já meio que esquecido e falsamente pregado tornou-se moeda de muito lucro. Voltemos às togas terrenas. Os fóruns se proliferaram nas cidades grandes, em botequins burocráticos de vendas de goles ardentes de justiça. Juízes e serventuários promulgam sentenças sem ao menos lerem os calhamaços de folhas; por não saberem, por preguiça, ou por ler ou não ler não fazer mínima diferença. Um pobre e um favelado, que ambos são a mesma coisa, diante de um balcão ou em atendimento jurídico, recebem afetos sinceros de quem os vê, na realidade malcheirosa de perigosos ratos molhados de esgoto.

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