
Ladrão, roubo ideias e afetos.
Conheci telefone celular na prisão, ainda interno novato e imaturo. Não que eu tivesse um, mas que o via e o ouvia dos companheiros. Meus ouvidos não tinham dinheiro para comprar o tablete mágico mesmo que o quisessem. Havia meios secretos públicos para consegui-lo, no fundo bastava ter o dinheiro, na lição de Marx. Os primeiros que vi produziam e aguçavam ansiedades e desejos. Todos que o tinham queriam falar, mas não podiam a qualquer hora e lugar. Antes pelos impedimentos de não se conseguir por causa dos bloqueios da segurança, esta mesma que facilitava as entradas proibidas do tal aparelhinho e as ligações; outra pelos sinais do satélite não existirem em todos os locais, a prisão são barreiras e barreiras que dificultam ou impedem. Descobriram um local receptivo aos sinais vindos do céu, aonde se recebia e se mandava bem. Nas horas da tarde todos corriam ávidos para o oásis da liberdade telefônica; claro, os que tinham celular à mão. Pelo que eu ouvia estando perto, viam rostos queridos e conversavam, se fotografando e se filmando, enviando as imagens aos seus. Estavam também livres mesmo que na prisão, numa alegria incontida de presença ainda que em dolorosa ausência. Transpunham as muralhas. Que o telefone torna possível estar lá em conversa íntima ao pé do ouvido, mesmo estando num aqui. Depois dos minutos, pois esta passagem de comunicação durava só meia hora, rostos de sorrisos felizes numa alegria folgazã viviam ainda o prazer da festa. À noite sonhavam em voz alta dormindo dialogando com presenças. Outros, antes de deitar ficavam risonhos, em afagos e afetos interiores, se encontravam na cadeia mas em casa com a família.
Havia um comércio, hoje bem mais solidificado, que ora favorecia ora dificultava; quando por vezes encarecia conforme os interesses e aptidões monetárias. Porém nunca tenhamos que todos pudessem e podem possuir um telefone possante ou vagabundo. Do todo carcerário só um miúdo e bem miúdo grupo ostentava porque tinha. O geral quase total eram vozes do silêncio. Mas talvez também nem o silêncio existisse.



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