Ser é aquilo que é, o não-ser é aquilo que não é. ( Parmênides de Eleia )

Quando preso, eu notava como as pessoas vindas de fora, se voltavam totalmente para os líderes nas carceragens. Ou seja, buscavam o poder, o poder de se relacionarem com tal ou qual perigoso. Ou então, e estes mais desejados, os que estavam estampados nas mídias. Assim, percebemos que o desejo de poder, o próprio poder, atravessa legalidades e ilegalidades. A estampa de um delegado anônimo, por exemplo, ao lado de um traficante famoso. De minha parte, preso sempre comum como qualquer um, principalmente os mais isolados e sem visibilidade na massa carcerária, lidava com os gradeados como eu, da forma mais social e simples possível. O estar ali já nos igualava; como também nos desigualava do mundo de fora, dos ditos trabalhadores. Palavra esta que adquiriu plenos poderes, ao pico de suplantar até o existir. Existe quem é trabalhador; possui gabarito de ser quem está inserido na máquina de produção, um proletário.

Mas voltemos às sombras das carceragens. Havia companheiros de cela que já estavam acostumados, habituados àquilo que passavam. Parecia-me que a alguns estar ali, mesmo com tanta sombra, sombra que sempre me torturou, me passavam a impressão, o ar, de um esquecimento total de que estavam numa prisão. Nestes, que julgo mais presos, eu tentava despertá-los, tirá-los do poço fundo. A capacidade humana de acostumar-se, leva-nos aos mais profundos infernos. Existe todo um discurso de estado e das mídias a nos catequizar, a nos domesticar a estes infernos. Estou me referindo aqui mais do que às carceragens, às penitências já tão naturais e aceitas, no social e econômico das populações periféricas. Entendamos aqui favelas, arredores e os mais longínquos arredores. Nestes últimos, a penitência de viver alcança altos sempre mais dolorosos, numa condenação perpétua. O interessante, é que jogam sempre a esperança enganadora como alívio e convencem. O trabalho que mata a vida, assim como um cubículo de casa sem ventilação e sem comida, são duas formas clássicas e intensas da miséria; das nossas penitenciárias sem muros porque não precisam, porque todos já viventes como os que não são.

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