A polícia invadia nossa casa a qualquer hora. Terrível era à noite porque dormíamos crianças no chão. Na ordem severa obrigavam nossa mãe a levantar-nos todos. As meninas sofriam mais pelos seus pendores talvez já de mulheres. Na desculpa do esculacho desumano diziam aos berros e armas apontadas, que procuravam bandidos; na invenção mentirosa da causa do terror. Depois de revirarem tudo, roubarem dinheiro e irem embora, ninguém mais dormia sossegado, Por vezes minhas irmãs choravam baixinho ou soluçavam. Os ataques polícia já preconizavam nossos destinos. Minha irmã mais bonita virou puta, eu naturalmente me tornei bandido. Como em cada vez mais famílias éramos sem pai, com mãe provedora e cuidadora de seis. Nos dias seguintes do terror ficávamos e nos sentíamos humilhados e ofendidos. Os lares favelares arrombados e os que ainda não, sabiam que poderiam ser vasculhados como tocas perigosas e peçonhentas. O pé violento na porta e os gritos de polícia anunciavam os medos e as agressões. O direito de mínimo território não existia, aliás nem sabíamos dele.

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