
Mão de polícia bate em meu ombro distraído dizendo me conhecer. Estamos no plenário do palácio Tiradentes* no Rio de Janeiro. Ele, guarda, lembrava de mim quando eu preso em Gericinó*. Havia boas recordações disse-me, lera até um livro meu. Agora segurança de político, tomava conta de um deputado ali onde estávamos. Confabulamos um pouco para celebrar nosso encontro coisas ainda de lá, daquelas muralhas terríveis. O guarda de prisão também fica preso, me confidenciou. Num repente inesperado buscando meu aperto de mão em concordância, me falou que descobrira que os presos querem e lutam para trabalhar, não como um castigo mas trabalho produtivo, no cumprimento das penas. As mãos em penitência poderiam produzir materiais para casas populares, sua voz opinava para mim. Ouvindo isto meu coração se alegrava. Porém logo eu lhe disse que avanços assim nunca interessam, prisões cheias e a violência contra o povo interessam muito mais. Tivemos que parar nosso colóquio, pois o condutor da solenidade aonde estávamos, nos impôs total atenção e silêncio. Fardas esmeradas e medalhas se exibiam em poder, a cerimônia era de louvores à pátria e entrega de condecorações. Meus olhos atentos e um pouco abismados, viam uniformes e galões ausentes no mundo comum das ruas. Na abertura do ritual entoaram o hino nacional brasileiro que não cantei. Num momento de culto a Deus, o presidente da casa nos pôs de pé em louvor e oração a todas as mortes que nossa polícia executa, com destaque especial ao ataque letal ainda recente de 28 de outubro*. Choveram palmas e vivas aos massacres. A mão do Destino logo me livrou do inferno aonde eu estava. Convidado pela cantora lírica* que se apresentaria na cerimônia, meus desejos ansiavam que sua potente voz nos inebriasse logo no início; minha tolerância não suportaria aquilo tudo, a grande intensidade da hipocrisia presente. Mas pela graça, sem tardança de tempo a garganta amiga nos transportou em duas belas árias. Terminadas as aclamações e palmas para a artista levantei-me apressado e saí. Deixando tanta lama e esgoto para trás.
Notas do autor:
Cantora lírica: @ane-janin
Palácio Tiradentes, antiga sede da Assembleia Legislativa dos deputados do Estado do Rio de Janeiro.
Complexo Penitenciário de Gericinó em Bangu, bairro da Cidade do Rio de Janeiro.
28 de outubro de 2025: numa única ação, a polícia do Rio de Janeiro executou 117 pessoas. Decapitaram cabeças e dilaceraram rostos com tiros.




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