À memória de Pietro Verri.

Quatro carros com homens bem armados guarneciam nossa reunião de condomínio, para que ninguém dissesse um não; e muito menos o nome a quem pertenciam, na lei do total silêncio. Já estava tudo decidido antes, era só uma comunicação aos vencidos, aos dominados. Cada prédio do conjunto residencial representado por seu síndico ou dublê. Com vencimento marcado para o dia vinte de cada mês, passaríamos, bloco por bloco de apartamentos, a ter que pagar o valor estabelecido por cabeças desconhecidas. Viria, como já está vindo, o coletor da taxa imposta. No íntimo, nós condôminos já sabíamos que um dia a coisa meliante chegaria ali, atingindo o bolso de todo mundo. Isto, sem jamais alguma objeção declarada, que quando dita, só se for em sussurros ao pé do ouvido no segredo compartilhado, de muito medo. Sempre foi assim, desde que ela chegou há algumas décadas; em nome da segurança pública e privada, mais monopólio de compra e venda de botijões de gás doméstico e outras mercadorias. Um microestado paralelo.

Sua origem está muito incerta ou manipulada por interesses. Sendo provável, ter sido inspirada ou surgida nos labirintos secretos da corrupção pública brasileira. Do inferno só sai mais inferno. Adiante então. Antes já havia um farto terreno preparado e à disposição; cada vez mais a população vive sob o império do medo e da insegurança pública e particular. A desordem, a imoralidade e o desrespeito no social só aumentam. No trânsito, já agredimos o outro com xingamentos e sustos, acionando a buzina do próprio carro, num vale-tudo qualquer e imediato. Reentremos em nosso principal; ou seja, o grande grupo armado controlador de territórios urbanos e cada vez mais nascente. Estamos na Cidade do Rio de Janeiro. As instituições de segurança pública, polícia militar e civil, silenciam e fingem desconhecer a ação miliciana. De vez em quando, falseando uma atitude de repressão em ataque, prendem um líder dela quase sempre anônimo. A coisa bandoleira cresce e aparece, mas na aparência consentida de que não está acontecendo nada. Há uma população cada vez mais vencida. E o grande grupo armado num crescendo irrefreável.

Trabalhei como professor junto da segurança pública com agentes duplos: da lei e ao mesmo tempo do grande grupo armado ilegal. Tenho dois salários e o de miliciano é o maior, diziam-me alguns deles. Em partes da população, circula a ideia de que tal grupo veio para combater as facções antigas, nascidas no seio das favelas. Só que a realidade tomou um rumo contrário; hoje são as facções das comunidades que inibem e barram um avanço maior do estado paralelo. Quem veio, chegou cobrando taxas ao comércio e impondo monopólios como antes dito, e explorando o transporte de passageiros com vans no lugar dos ônibus autorizados. Num jogo de falsa moral, iniciaram o domínio dizendo-se combater e acabar com o tráfico, o comércio e o uso de drogas, principalmente a maconha. Parte do povo dominado engoliu isto, este golpe mascarado de discurso higiênico, com objetivo falacioso de destruir vícios e semear um bem-estar social, sadio.

Existe uma diferença básica e primordial, entre a facção tratada neste texto e as outras, as já históricas anteriores a ela. Pois enquanto o Comando Vermelho por exemplo, sua origem está no sangue e na alma da população desassistida, desamparada e criminalizada injustamente, a do grupo anômalo não. Seus quadros de pessoal não possuem raiz favelar, comunitária e periférica; são estranhos ao meio social em que atuam, espoliam. Nesse sentido é um filho do próprio estado estabelecido. Filho ou quem sabe, um apêndice parasita do corpo Leviatã.

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