O grande ninho da vida chama-se amor.

Dez anos de ausência gradeado e o mundo livre mudara. Suportei dois anos até aceitá-lo e me adaptar de novo; na liberdade condicional a prisão ainda seguia comigo. O que mais me impactou foi de natureza sexual. Uma década antes não se sabia nem se vislumbrava o que meus olhos agora viam. No início várias coisas até me chocaram, pelo público dos acontecimentos e dos gestos. Nisto a caverna das grades me tirou toda a visão, inclusive de outras realidades que não tratarei aqui. Antigamente havia um armário do qual se saía dele ou não, a mudança estava nas mãos de quem se preferia ainda escondido, camuflado. Sair do armário era uma metáfora que todos sabiam, significava a declaração de um segredo: olha, eu dizia ser aquilo mas sou isto. Como também suscitava brincadeiras de provocação. Mas a mudança já estava bem adiantada quando saí em liberdade, nem existindo mais o tal armário de antes.
Vamos a alguns fatos e impactos. Admirando quase a paquerar linda mulher, senti que os olhares do rapaz que a acompanhava, os dois sentados num banco próximo, dirigiam-se a mim e então tentei compreendê-los; não eram olhos de recriminação, transmitiam-me desejos de aproximação e oferecimento, o jovem estava se dando a mim. Na certa imaginou-me interessado nele, ou fingindo-se cego me disputava com a mulher amiga dele que meus olhos aspiravam. Silencioso desviei o rosto contrariado pensando a seguinte frase talvez machista: o que ela tem você não tem e nunca terá igual, mesmo se transmudando por operação. Vou enumerar só mais um acontecimento para não cansarmos. Na fila da caixa do supermercado, avistei duas mulheres apetitosas na outra fila próxima. Meus olhos sedentos sediciosos fixaram-se em uma, incontinente a outra deu-lhe um beijo bem marcado na boca declarando posse, ela é só minha e de mais ninguém. No inesperado perdi o chão do ganho.
Quem esteve sempre aqui fora, diferente de mim na prisão, talvez certamente não estranhasse ou rejeitasse amor entre duas mulheres, salvo mentes retrógradas atrasadas, que não acompanham e não aceitam as trocas e misturas do mundo. Masculino e feminino romperam-se e fugiram de onde estavam, como estavam. Enxergar o macho ou a fêmea ficou escuro. Surgiram grandes indefinições e dúvidas. Corpos de mulheres se masculinizaram mais e abertamente. Homens já usam roupas, penteados e adereços femininos, travestidos. Em nosso meio, machistas inseguros se aguentam medrosos como podem. “Eu sou é homem,” querendo dizer-se macho, se afirmam silenciosos ou na viva voz. Hoje, duas mulheres de mãos dadas podem não ser amigas ou mãe e filha; dois homens conversando podem ter algo bem mais que só amizade, quem sabe amores.



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