A escrita prisioneira teve os seus lá foras. Garimpando encadernação rápida e barata, andávamos cansativo e meio a esmo. Que para registrar nossa primeira publicação, a Biblioteca Nacional a exigia em volume com capa dura. Assim, a intuição nos levava a prédios velhos do Rio Antigo, próximos ao Largo de São Francisco e à Praça Tiradentes. Até que finalmente a encontramos. Aquele tipo de oficina em desaparecimento mas ainda tão útil, de vários consertos e produções manuais. A escada lúgubre do século anterior nos conduziu a um alto e meio escuro andar. Na falta de luminosidade não vi bem, mas vários operários trabalhavam sobre bancadas mexendo coisas. Pesquisada a encadernação de Outras Cadeias acertamos o preço e a hora, voltaríamos duas horas depois. Esgotado o tempo de espera fomos afinal pegar o embrião. Para nossa surpresa, o grupo de operários da oficina veio que respeitoso e admirativo ver, saber quem o autor era, seu rosto, seu olhar, seu modo de ser. O grupo, as mãos que manipularam as páginas encadernando-as, leram algumas coisas delas, os murmúrios nos passavam isso. E tudo enfim como se aquilo, uma breve história sobre Bangu III, fosse e era para eles uma voz proibida e negada, porém intensamente bem vinda por ansiantes esperas. Desejada.

Feito o certidão de registro na Biblioteca Nacional, corríamos inseguro e sem muito saber sobre impressões e gráficas. Uma tarde escolhemos aonde ir por um livro que nos agradou e anotamos o endereço. Chegado dias depois ao anotado, entramos por imenso corredor até o escritório. Sim, disse-nos quem logo nos pareceu o dono, Outras Cadeias poderia ser impresso ali. Feitos os prévios, olhares e conclusões, acertamos o preço e lá fomos nós. O embrião já de capa vermelha entraria às máquinas e nos sairia multiplicado por mil. Passados alguns dias já antes em acerto, olhos ansiantes de graça como a se ver o primeiro filho, foram verificar umas provas. Sem delongas autorizamos rodar, que o caminho do depois em história de livro publicado, nos punha em angústia de pressa. Nesta entrevista das provas, o chefe da oficina das impressões estava lá, junto de nós. Lembro vagamente que veio mais um operário com ele. Pessoas com corpo e alma de comunidade, trataram-nos o tempo todo como um escritor querido e admirado. A voz escrita do livro fora ouvida por suas almas, por isso elas estavam ali.

Tudo concluído e à mão, com os mil exemplares empilhados em casa, resolvemos por bem e aos receios e segurança de alguma inveja odienta, que poderiam em fofocas espalhar patrocínio de facção, exigir uma nota fiscal de serviços gráficos em nosso nome. A transferência de valores da conta bancária serviria-nos de suporte e prova. O serviço já estava pago. Feito o pedido da nota e chegando ao escritório da gráfica, para nosso desencanto e surpresa fomos tratados como um ser altamente indesejável e perigoso. Sem que nos permitisse entrar e sentar como houvera antes, o burguês dono da gráfica com olhos faiscantes de muitos ódios, passou-nos às mãos um tosco e mal escrito recibo, como se essas mãos que o pegavam fossem de um sujo e repugnante ser.

Absorvidas as dores da agressão sofrida, nossa mira de alma nos avisou o certeiro do livro como um tiro bem dado, bem acertado. Que o furor inesperado do proprietário da gráfica, ao simultâneo da graça e admiração dos trabalhadores pelo Outras Cadeias, nos situaram os olhos e as mãos. Era a voz que precisava de sair, pelo menos num começar.

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