O coletivo mudou, disse-me o guarda, agora não é mais Vermelho*. Bateu o cadeado às minhas costas deixando-me sozinho preso e se foi. A grande ala estava morta, nem um pio sequer. Só penumbra no ar, como alma assustadora em espera. Os passos quiseram e fui. Deslocado, eu entrava como em outra casa sendo a mesma. Agora havia um desconhecido à frente. Deparei com galerias vazias. Todos os presos recolhidos às celas, num certo mutismo assustador. Lembrei-me num cemitério. Aonde está a vida, o coração palpitava, e perguntava. Sem ninguém visível, afugentei o mal-estar pelo meu grito: “coletivo! Escola!” Em altos brados à galeria. Ninguém. Insistente fui passando às outras. Nem um rato corria assustado. No fundo da ala, já na escola, tentei fazer algo, arrumar papéis, ao menos fumar; nada consegui. Um mundo se perdeu e eu tentava resgatá-lo. Bem antes, ainda no choque da entrada, endireitara-me ao corpo e me recompusera. Mesmo sem os amigos vermelhos de sempre a vida seguia.

Repeti-me no dia seguinte. Galeria por galeria fui chamando e nada. Pistas vazias. Na quase última pequeno grupo ao fundo. Chamei chamei e não quiseram chegar. Por mais que eu gritasse professor e escola, só olhavam, sem responder. Descobri um próximo e estendi-lhe a mão. Eu era só um professor, ele podia chegar, disse. Meio arredio ainda, e distante, o preso cumprimentou-me. Porém logo repreendido pelos demais ao fundo.Que ele cumprimentava o inimigo, disseram. E assim não passamos desse único momento. Dias depois foram todos transferidos. E a vida jogou-me em outras prisões à espera.

Na Sá Carvalho* tempos depois, aluno corpulento, bem malhado, contava-nos em aula desejos e histórias de guerrilhas, selvas e fronteiras. Sua próxima empreitada logo após sair em liberdade, seria perder-se nas matas e pantanais de Mato Grosso e lutar; pulsava por heroísmos. Na contra-dança da fala narrei-lhe o acontecido no III*. Quando estando lá o Terceiro Comando, por mais que eu chamasse nas galerias ninguém respondia. Eu estava lá professor, clareou-me ele, não saíamos das celas nem atendíamos ninguém, com medo do inimigo Vermelho. Também não dormíamos à noite, continuou, pois poderiam vir a qualquer hora possuindo as chaves dos cadeados, e degolar-nos todos. Que mesmo já ao dia, minha voz de professor podia também ser isca.

Mas aquilo de proximidades de facções diferentes e inimigas numa mesma unidade prisional, podia ser um jogo perverso e era. Que eu, e pensávamos em todos nós, jamais nos deixássemos cair. Ao escolher o preso como grupo social de aproximação e vida, sabíamos que o Grande Mal está fora de todas as cadeias. Entrar na Dr. Serrano Neves e encontrar aquele vazio, e não as mãos e rostos amigos de todos os dias e esperas, deixou-me momentâneo sem chão porém nunca sem vontade. Pareceu-me armadilha. E a ala B vermelha era um front aguerrido e forte. Soldado às vezes solitário, nossas pernas continuaram caminhando e de olhos atentos, até encontrarmos uma nova e favorável posição de tiro e de luta. O Complexo de Gericinó, campo de eternas batalhas, nos esperava sempre.

Notas do autor:

Vermelho, Comando Vermelho. III, Bangu III. Sá Carvalho, unidade prisional Plácido Sá Carvalho.

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