Alguns de nós sabemos ler e escrever, só que quase nunca podemos nos mostrar. Num certo tempo já de renascimento tardio por dentro das grades, algo vindo daquele meio-escuro aos meus olhos já clareavam. E por mim talvez já estivesse mais atento. Quem sabe até um pouco mais sábio ensinado por eles. Fugindo então e negando todo o acadêmico escolarizado e imposto introjetado à alma, eu buscava alguma literatura por ali, vinda dos corações e mãos dos meus amigos ou de quem viesse. Hoje, tenho uma certa consciência, de que minha figura de professor tenha espantado coisas boas. Pois que alguém interno, gradeado, certamente quis mostrar-me rabiscos, poesias ou quem sabe uma história valiosa. Mas a aura de sapiência superior, criada pelos outros ou imposta pelo próprio mestre espanta e até mata, sendo esta última sua honrosa função. Coisa que sempre eu evitava produzir, sendo bem certo em momentos impossível, inevitável.

Num outro tempo adiante, nos meios escolares das prisões mostravam-me redações. Estas, geralmente participantes e ganhadoras de concursos promovidos por órgãos oficiais. Nas redações duas vertentes ou linhas de raciocínio meus olhos encontravam. Não obrigatoriamente juntas, mas quase sempre em produções textuais diferentes. Uma vertente, maior e mais presente, mesclada com doses fortes de sentimento de culpa do autor, era servil, aquiescente, buscando uma conformidade o mais encaixada possível com a fôrma e o poder da ideologia do Estado, da república; me produzindo por dentro um forte sentimento de ojeriza e  nojo. Ojeriza e nojo certamente pela servidão voluntária da alma que a escreveu. Ou quem sabe, aquilo ser uma original trama de fuga de quem a compôs. Antes porque todos de nós queremos sair de lá, fugir. Havia muito de uma amostragem nos textos, de sabedoria ou aprendizado escolares. Seguindo, a outra vertente vinha com desconexões de frases por vezes impossíveis de entender; e nalguns momentos com esboços ou tentativas de encaixes lógicos. Nesses e em todos os sentidos, as frases que escrevemos sempre nos mostram ao mundo por dentro; e nessa vertente citada os distúrbios da nossa alma.

Desculpando alguma digressão voltemos. Mais do que as redações visíveis e ou invisíveis, existia e existe por lá nas grades a vontade de dizer, de escrever. E isto, esta vontade, bem mais que os escritos, era o que eu buscava não só ver, mas na felicidade degustar, viver. Encontrei barreiras descomunais quanto a isto. Sendo a que mais se pôs, porém talvez a não mais perigosa, os concursos de redação. Que na base são isso: “olha gente, nós permitimos a eles, os presos, escreverem, fomentando a literatura!” Porém, o que de mais duro e perverso havia, era e é algo que eu também trazia, isto é, levava para os internos no meu corpo: uma certa proibição altamente muda e invisível, nascida nos bancos escolares, ou pelo menos semeada neles.

Profundo, mais do que me incomodou em todo meu aprendizado e vida de leitura, foi uma ausência de identidade, de identificação. Havia e há uma altura, uma ladeira inacessível, proibida, entre eu leitor e os mundos dos textos que me batiam aos olhos. Fossos e distâncias. Pobre por aqui não sabe ler nem escrever. À esta máxima nossas mãos se contrapõem, sempre. E assim a Sorte e o Destino me presentearam por dentro das grades. Um poeta jovem e extremado me apareceu. Ao amanhecer e abertura da escola, vinha-me ele com folhas abertas, feliz e pronto a recitar. Mais do que o escrito lido ficou-me seus gestos, sua postura. Certamente a solidão de sua cela na madrugada, em alma de liberdade por outros mundos. Que logo depois seu rosto de pura beleza me oferecia, me declamava. Objeto amado do qual jamais esquecerei.

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