Corro a fazer esta crônica. Estamos cada vez mais em guerra. E isto está tão óbvio até para um cachorro de rua. Ao sair de casa há dois dias, deparo-me com forte e movimentado comboio militar: soldados fortemente armados, viaturas, fuzis em ponto de tiro e carros blindados. Estou falando da região do Méier, Lins e adjacências, aonde moro. Um clima de mais confusão e medo ostenta o trânsito. Chego em casa à noite apressado e leio Bandeira por suas crônicas do Brasil antigo, a pedir talvez algum socorro.

Dia seguinte. Descendo a Rio Branco direção Cinelândia, bato-me com muralha de soldados em ponto de guerra vigiando. Penso na hora, que a vida na avenida segue com eles ou sem eles. Olho as manchetes nas bancas para situar-me um pouco mais. Num dos jornais está uma grande foto de comboio militar saindo das prisões de Gericinó em Bangu. A frase-manchete ostenta, que o valoroso exército brasileiro pegou um celular mais dezenas de ventiladores nas celas. Isso tudo, dito e tido como perigosa carga mortal nas mãos de presos. A população que tomasse cuidado.

Mais um pouco, em outra banca, foto enorme de beco de favela. Nele, soldados do exército vigiam tudo, como um terrível inimigo a estar por perto. Na paisagem, soldado revista um brasileiro como eterno e perigoso inimigo da nação. O homem em revista, de rosto à parede e imobilizado, segura pela mão uma criança com mochila escolar. A menina ou menino, não lembro mais, tem um olhar atônito de muitas perguntas e conclusões. Este é o meu mundo, claro ela vê. O inferno real no qual eu sempre estarei. O inimigo é a gente. Por que fazem isto com meu pai.

Seguindo a guerra, ouço barulho de um carro de som, em manifesto público na Candelária. Paro um momento e escuto. Em sucessão de falas, vozes gritam contra mais um assassinato em favela. Palavrões e frases de ódio em revolta. Clamam por uma vida que tombou. A seguir ecoam dizeres de alta rejeição ao exército. Ele nos invade querendo nos matar.

A guerra não é só pela guerra, bem claro está. É preciso mostrar, provar e exterminar os culpados. E eles com certeza, por esta ordem mortal que aí está, habitam somente os morros e áreas pobres. A desgraça da República vem só deles. Quando li nos jornais, que uma tropa em assalto invadiu cadeia em Paracambi e pegou celulares como espólio de guerra, ri irônico e triste por dentro, a que ponto chegamos nós.

Num desvio de rota finalizo. Décadas atrás Darcy Ribeiro já nos alertava, e muito infelizmente só acertou, de que se no Brasil não mudássemos o nosso social entraríamos em guerra interna, como mortalmente estamos. Nossa República está em podre desmanche. Só a quem interessa nos centros de poder, escondem não saber traiçoeiramente fingindo. Desfoquemos então os olhares, executam os governantes. Inventando e provando pelas mídias e propagandas do regime, que a desgraça a qual estamos nasce só nas vielas, morros e barracos. E nunca jamais nos palácios legislativos, reuniões secretas e mansões à beira-mar. Lugares onde o champanhe e a desfaçatez diabólica lavam e depuram as almas.

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